30 dezembro 2008

Homenagem maior não há

Existe um escritor de quadrinhos chamado Marv Wolfman. Junto com o desenhista George Pérez, Wolfman foi o criador de uma série em doze capítulos publicada pela DC Comics em 1985 e chamada Crise nas Infinitas Terras. Passados 23 anos, essa série ainda é unanimemente reconhecida como o momento de maior impacto em todos os títulos da editora. Com todos os defeitos que lhe atribuem, os leitores ainda a comentam, ainda a analisam, ainda a tomam como referência.

Existe um website que é uma referência valiosa sobre a Crise. Chama-se The Annotated Crisis on Infinite Earths, é mantido por Jonathan Woodward e disseca as edições da série, esclarecendo referências e comparando passagens.

Dia desses, eu estava lendo o belogue de Wolfman quando vi que ali havia um linque para a Annotated Crisis. De um ponto de vista objetivo, trata-se de um Autor apontando para uma obra de referência útil para se ler a dele próprio, o que beneficia a divulgação dessa obra e, portanto, do artista.

Mas a primeira leitura que fiz foi outra. Coloque-se no lugar de Woodward: o criador da obra comentada está mostrando seu reconhecimento pela qualidade do trabalho do comentarista. Está dizendo: em toda a Internet, não há maior (ou melhor) autoridade sobre o que eu fiz do que este sujeito.

Eu não conheço homenagem maior. Se Woodward souber disso, estará plenamente justificado em se sentir o máximo.

Recém-lida: Superman #90 (junho de 1954), terceira história.

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29 dezembro 2008

Intimações do Ministério Público da Justiça

Eu ia escrever sobre outra coisa hoje, mas fica para amanhã. Hoje quero comentar um spam recebido por meu colega Ismaga (não é seu verdadeiro nome).

Começa dizendo que é intimação. Neste país de otoridades e abusos, intimação assusta qualquer um. Aí, o remetente se identifica como "Procuradoria Regional da Justiça".

Vamos analisar:

1 - Se é de Justiça, já é estadual, então nunca teria o nome de "Regional".
2 - "Da" Justiça não: "de" Justiça. O idiota que escreveu não sabe a diferença, pra ele é tudo Justiça, Poder Judiciário, otoridade. Mas Ministério Público nunca é "da" Justiça. Só pra você saber: a justiça do nome das procuradorias não é o Poder Judiciário ("a" Justiça), mas o valor moral, sem artigo. Procurador = pro curador, ou seja, alguém a favor de tomar os cuidados com. Eles cuidam da justiça, é o que diz o nome.

Em outras versões, o texto diz que é do "Ministério Público da Justiça" -- órgão que, aliás, NÃO EXISTE.

O texto prossegue, dizendo ser do Ministério Público do Trabalho e exigindo seu comparecimento a depor em Brasília.

Continuemos:

3 - Ministério Público estadual ou do Trabalho? Se é Procuradoria de Justiça, é estadual.
4 - Brasília??? Mas a Procuradoria era Regional. E como é que Ismaga, estando no Rio, seria chamado a depor em Brasília? Pra isso eles mandam carta precatória, e o procurador daqui é que te ouve, não o de lá.

Diz o email que tem fundamento nos artigos 137 e 119, VI, da Constituição federal.

Prossigamos:

5 - O artigo 137 versa sobre estado de sítio. BASTA OLHAR. Será que o Ministério Público quer ouvir Ismaga antes de pedir ao presidente da República que decrete estado de sítio?
6 - O artigo 119 versa sobre Justiça Eleitoral, não do Trabalho. E não tem inciso VI; pára no II.

Finalmente, quando o assunto é sério, o Poder Público NUNCA manda email. É sempre pelo correio ou até pessoalmente. Pela simples razão de que a mentalidade ainda é a do papel.

Claro que termina dizendo "clique aqui".

E tem também aqueles emails onde um banco supostamente ameaça tirar seu acesso à Internet (sim, isso mesmo: você vai ser desconectado), todos escritos em miguxês. Essa é uma fraude primária, em que já não cai uma criança de três anos. Ainda mais que, quando você desliza o mouse em cima do "clique aqui", aparece o endereçamento real: saites obscuros e escusos de roubo de senha. Normalmente eu recebo esses de bancos onde não tenho conta, então estou ca*ando se eles tirarem meu Internet banking.

Se alguém ainda cai, e depois tem sua senha roubada, sinceramente, eu acho que é BEM FEITO. Bem feito pela preguiça de pensar, pela ignorância voluntária, por achar que comparecimentos a audiências se resolvem com um mero clique -- preguiça de ir até lá também --, por serem analfabetos no uso da Internet, que não é para crianças.

Recém-lidas:
Action Comics #23 (abril de 1940), primeira história;
Green Lantern #16 (outubro de 1962).

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23 dezembro 2008

Quem vigia os vigilantes

Fui ver Body of Lies (Rede de Mentiras) no sábado. Fiquei decepcionado. Eu esperava que fosse uma história onde todo o mundo mentisse para todo o mundo, onde não se pudesse confiar em ninguém, onde o DiCaprio fosse traído justo quando estivesse no meio da lama e depois tivesse que se virar sozinho -- e não foi nada disso. Bem, foi um pouco disso, mas pouco. Permita-me colocar do seguinte modo: eu esperava certos clichés conforme os últimos quinze anos de cinema nos têm levado a esperar, mas os clichés foram os de cinqüenta anos atrás (oito dias para a queda do trema, e contando). -- [Apidêite em 07/01/2009: a versão original desta mensagem dizia "queda da crase". É que eu sou tão obcecado com crase que confundi as inguinoranças. Foi mal aí.]

Também esperava mais helicópteros, várias cenas de helicópteros, como sugeria o trailer -- e só teve uma. Além disso, o mocinho cometeu um erro grave e tinha que pagar por ele, mas, mesmo assim, acabou sendo ajudado quando não merecia. Estou profundamente decepcionado. Se soubesse, não teria pago os R$ 17 do ingresso no Cinemark. O lado bom foi ter tido a oportunidade de escolher lugar, já marcado antes de entrar, igual a avião.

O lado ainda melhor foi o que veio antes do filme: trailer de Watchmen! Assim que apareceu a primeira cena, antes de o Dr. Manhattan explodir em pedacinhos, eu já tinha reconhecido que era ele. Está muito igual ao quadrinho! Várias cenas estão perfeitamente reconhecíveis! O clima está igual ao do original! Os personagens estão iguais! Maneiríssimo! Tenho que ir ver! Urru!

Recém-lida: Green Lantern #15 (setembro de 1962).

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22 dezembro 2008

Resmungo sortido de Natal (4): diplomas escusos

Voltando à filipeta que já comentei aqui, tem mais uma coisa. Dizia ali que a academia estava sob a responsabilidade de uma certa profissional, “Dra. Fulana de Tal -- formada em Educação Física, especializada em...”. Peraí. Formada onde? Só diz em quê. Se a faculdade fosse boa (ou, pelo menos, conhecida), ela diria qual foi. A conclusão que tiro é que a “doutora” tenha se formado em alguma faculdade obscura, cujo nome prefere esconder por vergonha. Então, seu anúncio funcionou ao contrário: ali é que não quero mais ir.

Recém-lida: Green Lantern #14 (julho de 1962).

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19 dezembro 2008

Resmungo sortido de Natal (3): metodologias

Sem sacanagem: o que significa a palavra metodologia? Logia, logos, discurso. Então, metodologia é o discurso, o estudo, a ciência que estuda o método. Você pega um método e começa a analisá-lo, interpretá-lo, avaliá-lo. Essa atividade é a metodologia.

Quando você está descrevendo um método a alguém, você está descrevendo o método, não a metodologia. Metodologia é o que você faz, é o que você está fazendo; método é a coisa que você está expondo, explicando, é a coisa que você está trazendo.

Estou de saco cheio dos acadêmicos tecnocratas cujas monografias começam com o seguinte resumo: “... expondo uma metodologia de classificação da produção tecnológica...”. Não. Vampará com isso. O que está sendo exposto é o método de classificação, não a metodologia. As frases estão sendo alongadas desnecessariamente.

Mais um centavo para o Tal Shiar.

Recém-lida: Green Lantern # 13 (junho de 1962).

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18 dezembro 2008

Resmungo sortido de Natal (2): neogramática

Existem algumas campanhas por aí, “doe dinheiro para o abrigo dos cegos”, “faça uma doação para as vítimas da enchente”, “clique aqui e doe um prato de comida”.

Pois pode escrever aí: a partir de agora, pra cada crase proibida que eu encontrar, cada há-do-verbo-haver que eu encontrar escrito como “à”, cada vírgula entre sujeito e verbo, cada erro de concordância com que eu me deparar, vou doar um centavo pràlguma ditadura bem maligna, ou pros fundamentalistas islâmicos, pro IRA, pro Tal Shiar, sei lá pra quem. Eles vão ficar milionários.

Recém-lida: Green Lantern #12 (abril de 1962).

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16 dezembro 2008

Resmungo sortido de Natal (1): o trem do Inferno

Qualquer um que ande de metrô no Rio de Janeiro sabe o suplício que é. Um aperto desgraçado, você não consegue entrar no vagão. Outro dia, quando cheguei ao Estácio e aquele mundo de gente saiu por um lado, pelo outro entrou uma moça que quase caiu pra trás com -- palavras dela -- o cheiro de suor que havia ficado no ambiente. Verdade. Até eu, que estivera imerso ali, estava sentindo.

Outro detalhe curioso é a quantidade de retardados que reclama que “o ar está desligado” (ou o equivalente: “está só na ventilação”). É incrível. O vagão foi projetado para levar, sei lá, oitenta pessoas, mas está levando, digamos, duzentas. O imbecil realmente espera que fique geladinho do mesmo jeito. Não percebe que, se ele ainda não morreu sufocado, é que o ar está ligado. Não percebe um ventinho que percorre sua cabeça, mais frio do que a sauna à sua volta. No cérebro de ervilha do hipoplausibilóide, ele está sentindo calor, portanto o ar está desligado. Dá vontade de ligar uma bomba de vácuo na boca do desgraçado e perguntar se o ar já foi ligado ou se está só na ventilação.

Enquanto isso, em cada uma das estações, vários cartazes mostram modelos sorridentes sob slogans do gênero “Metrô Rio. A vida é melhor aqui”, mais conforto, mais feliz, orgânico e sustentável. Estou convencido de que esses cartazes têm a única serventia de debochar do cliente.

Pois, não bastasse tudo isso, na estação Saenz Peña, nesse último sábado, um barulho infernal veio somar-se à tortura apavorante. Uma TV de LCD e umas caixas de som faziam propaganda da Sky exibindo um videoclip de soul music, enquanto um par de cadeiras de plástico supostamente servia como ponto de vendas, aliás desocupado. O som estava altíssimo, tomava todo o ambiente, deslocava meus pensamentos, martelava pessoas e mobília.

Será possível que a Sky realmente acredite que, torturando meus ouvidos, vá me convencer a comprar algum pacote? Se alguém me faz mal, não vou querer negociar com aquela pessoa; vou querer é distância dela. Mas fui advertido por quem estava comigo: os imbecis só se sentem confortáveis quando há barulho alto. Então, para a maioria dos imbecis (e para a infeliz que, depois eu vi, chegou para ocupar aquele posto), o barulho é agradável.

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10 dezembro 2008

Privacidade na Internet

Preciso mandar um email pra um colega do curso de Engenharia, o [name withheld by Blogger for privacy]. Joguei o nome dele no Google, joguei partes do nome, acrescentei o nome da companhia onde ele trabalha, joguei o nome e a especialidade do pai dele (vai que consigo mandar email para o pai dele redirecionar), tudo sem sucesso.

Achei-o no LinkedIn. Só que, para mandar mensagem para ele pelo LinkedIn (que não mostra o email), tenho que pagar US$ 30 de anuidade ao LinkedIn.

Até que encontrei o 123people, um saite onde você digita um nome e ele mostra tudo que achou vinculado àquele nome: belogues, comentários em belogues, mensagens no ICQ, vídeos, páginas da Web, ... Uma espécie de "Google de pessoas", mais específico. Nem assim adiantou.

Taí um cara que sabe preservar sua privacidade na Web. Não é coisa fácil por estes dias.

Mas o 123people mostrou que a Amazon tem uma wishlist do meu colega. Felizmente, alguns livros que ele quer são livros que li (ou estou lendo) e que recomendo: 1984, Fahrenheit 451, Admirável mundo novo. Então, que fiz? Comprei-lhe Fahrenheit 451 e pedi que a Amazon colocasse um recado junto com o presente, recado no qual consta meu email. Custou só US$ 17, que a informação de que preciso vale para mim. E ainda avisei que tenho um exemplar sobrando de 1984 (edição americana, não britânica como a que estou lendo), que não preciso comprar da Amazon.

Então, olha só que legal: paguei $17 em vez de $30 e ainda vou deixar meu colega feliz. E ele não precisa me dizer o email dele.

Essa foi a boa notícia de hoje.

Recém-lidas:
Green Lantern #8 (outubro de 1961);
Green Lantern #9 (dezembro de 1961).

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05 dezembro 2008

Colapso nos transportes

Ontem, o metrô parou na estação Saenz Peña. O locutor avisou, “estação terminal, todos os passageiros deverão desembarcar”.

Todo o mundo saiu rápido, enquanto as luzes eram apagadas e os seguranças já percorriam o trem para garantirem que ninguém permanecesse a bordo. Quando foi minha vez de sair, percebi a plataforma cheia de caminhantes, então esperei alguns segundos antes de aparecer um vazio na multidão, para poder pisar fora.

Imediatamente, senti um golpe atrás dos joelhos. Caí. Do chão, vi o guarda ainda brandindo o cassetete, apontando a porta e gritando, “sai! levanta do chão e sai agora!” Tentei me apoiar em um banco para me levantar, mas outro guarda me apanhou pelos ombros e me atirou para fora, onde, todo desequilibrado, não sei como não acertei ninguém.

Enquanto eu me recumpunha, ouvi mais de um transeunte comentando, “bem feito, quem mandou demorar a sair do trem?”, “é nisso que dá, ficatrapalhando asotra pessoa”, “esses aí só qué ficá dando trabaio pros guarda”.

Essa foi uma história de ficção. Mas, se você chegou a acreditar que fosse real, é que a narração, de algum modo, estava batendo com sua expectativa. Então concordamos que tem alguma coisa errada com o metrô -- e com as pessoas também, cordeirinhos obedientes em Metrópolis (de Fritz Lang, não de Siegel & Shuster). Não?

***

Agora uma história real, também acontecida ontem. Dentro do 229 parado, uma mulher berrava no celular. Todos conseguíamos ouvir detalhadamente seus planos de encontrar uma pessoa no Shopping Tijuca, onde tinha que tirar dinheiro, e depois jantar em casa da mãe.

Os gritos incomodavam, mas não foram o pior. O pior foi ouvi-la pronunciar nìtidamente “Saens PeNa”. Juro pra você: toda vez que escuto alguém dizer “Saens PeNa”, sinto um impulso homicida. Não sei o que é pior: se isso, se crase onde não pode ou se vírgula entre sujeito e predicado.

Pra quem não é do Rio, um serviço de utilidade pública: Roque e Luis Saenz Peña, pai e filho (não sei qual é qual), foram presidentes da Argentina no início do século XX. Em homenagem aos dois, a principal praça da Tijuca foi batizada Saenz PeÑa.

Recém-lidas:
Green Lantern #7 (agosto de 1961);
The Flash #123 (setembro de 1961).

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29 novembro 2008

Huguinho 2

Ontem, a caminho do trabalho no ônibus, ouvi e depois vi um helicóptero Bell "Huey" atravessar baixinho a rua Haddock Lobo (do Rio de Janeiro, não de São Paulo). O ruído era aquela característica batedeira de duas pás. Imediatamente pensei, que faz um helicóptero da FAB por aqui e tão baixo? E lembrei-me de como a FAB está desatualizada, com helicópteros obsoletos e monomotores dos anos 60, quando meio mundo já usa o Black Hawk, este mesmo também já não considerado novo.

A visão e, principalmente, o sonido me remeteram à guerra do Vietnã, chamada de "a guerra do helicóptero" no documentário Choppers, do Discovery Channel. Lembrei-me de todos aqueles filmes, Platoon, Full Metal Jacket, documentários, a indissociável imagem dos Hueys com um fundo de floresta. E fiquei pensando, puxa, aquela guerra foi séria mesmo, etc.

Qual não foi minha não-surpresa quando, vendo as manchetes dos jornais hoje, descobri que realmente era um Huey, mas não o mesmo que estávamos acostumados a ver. A Polícia Civil agora ostenta orgulhosamente sua nova aquisição: um Huey II -- novo modelo que a Bell criou há uns anos quando descobriu que muita gente tinha Hueys fiéis dos quais não queria se desfazer ao mesmo tempo em que queria modernizar a frota sem gastar dinheiro. São Hueys recondicionados, com células zeradas e reforçadas, transmissão e rotores trocados e nova aviônica. São helicópteros militares, mas não são helicópteros de combate. Já faz alguns anos que leio sobre seu lançamento na AIR International. E agora descubro que a Polícia os está usando para sua "guerra ao crime" (as if). Os jornais já apelidaram este assim-chamado Águia 3 de Caveirão do Ar, enquanto pelo menos um jornal acusa a Polícia de usar uma "carcaça do Vietnã".

Tècnicamente, o jornal está certo, mas demonstra uma certa falta de conhecimento sobre quanto se pode aproveitar uma aeronave ainda em boas condições. O material é sim obsoleto, mas não precisamos de helicópteros raiteque para combater molambos com fuzis. Isto aqui não são os campos de batalha da Europa Ocidental, onde se lutaria a abertura da III Guerra Mundial. Mais uma vez, ataco a premissa: é fácil criticar que a escolha de helicóptero está mal feita; antes, devia ver-se é se é caso de usar helicópteros com fuzis como "arma contra o crime". Assalta-me o pensamento de que tudo isso é uma futilidade, um desperdício de dinheiro público. A "guerra ao crime" é toda ela uma farsa. Aqueles que não são cínicos são iludidos que não percebem que, mais uma vez, a guerra está em outro lugar.

***

Às vezes fico refletindo sobre as ambigüidades da língua (aproveite o trema enquanto ele ainda existe). E "desconstruo" frases, constato a dependência de palavras sobre palavras e de palavras sobre contexto. Cada vez, observo que nada tem significado próprio. Que, devidamente dissecadas, as frases são todas vazias, que é o ouvinte ou leitor que as preenche. Mais concluo: que nunca estamos dizendo nada. Ninguém nunca diz nada. Então, melhor nem tentar dizer nada, que a comunicação é impossível. Todos recolhidos a seus silêncios, e sigo calado. Aproximo-me do texto de Cosmologia de Lawrence Krauss na Scientific American, onde ele demonstrava que, para viver mais, a solução seria não interagir. Toda ação só aumenta a entropia, o que é uma obviedade e, dita, também aumenta a entropia.

***

Recém-lida: Green Lantern #6 (junho de 1961).

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27 novembro 2008

Não seja prolixo

"Eu, SENHOR ATOZ, identidade 31415926-5, declaro, para os devidos fins, que fui prolixo na data de hoje, 27 de novembro de 2008."

ou

"Fui prolixo em 27/11/2008." -- (Ass) Sr Atoz

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Diálogo que acabei de ter com o Porcão

Esta foi de matar. Menos de uma hora atrás, liguei para o restaurante Porcão, no Rio de Janeiro.

-- Central de Reservas, boa tarde.

-- Boa tarde. Meu nome é João Paulo e eu quero fazer uma reserva.

-- Pois não, com quem eu falo?

E há quem tenha fé na humanidade. Alguns fé demais, outros fé de menos.

***

Já não lembro quem me disse isto, mas concordo plenamente: se alguém lhe disser (sem estar brincando) que, "na prática, a teoria é outra", é que não estudou a teoria.

Recém-lida: Green Lantern # 5, abril de 1961.

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24 novembro 2008

Resenha: Nineteen Eighty-Four

No ar, minha resenha de Nineteen Eighty-Four, de George Orwell.

Recém-lidos:
Foundation, de Isaac Asimov;
The Hobbit, de J.R.R. Tolkien;
Superman #1 (junho de 1939), trecho;
Detective Comics #33 (novembro de 1939), primeira história, trecho;
Look (fevereiro de 1940), trecho;
Batman #5 (primavera de 1941), terceira história;
Sensation Comics #1 (janeiro de 1942), primeira história;
Superman #30 (setembro de 1944), quarta história;
Flash Comics #86 (agosto de 1947), primeira história;
Wonder Woman #28 (março de 1948), primeira história;
Flash Comics #104 (fevereiro de 1949), segunda história;
Superman #65 (julho de 1950), terceira história;
Batman #62 (dezembro de 1950), primeira história;
Wonder Woman #99 (julho de 1958), segunda história;
Wonder Woman #108 (agosto de 1959), primeira história;
Showcase #22 (outubro de 1959);
Superman #132 (outubro de 1959);
Showcase #23 (dezembro de 1959);
Showcase #24 (fevereiro de 1960);
Green Lantern #1 (agosto de 1960);
Green Lantern #2 (outubro de 1960);
Superman #141 (novembro de 1960);
Green Lantern #3 (dezembro de 1960);
Green Lantern #4 (fevereiro de 1961).

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23 novembro 2008

Queda de avião em Pernambuco

O bimotor que caiu em Pernambuco hoje à tarde (notícia com mais detalhes neste jornal do Piauí do que em qualquer outro lugar até agora) era um Beech 200 Super King Air. Isso dá para descobrir bastando ver a matrícula do avião (terminada em OSR) nas fotos do pós-desastre e, depois, clicando aqui.

Impressionante como nenhum jornalista descobriu isso sozinho até agora.

21 novembro 2008

Retorno a Krypton

Conforme é do seu conhecimento, estou lendo quadrinhos antigos da DC. Duas edições que li há pouco são Superman #132 (outubro de 1959) e #141 (novembro de 1960), republicadas em Superman 70 anos #1: as grandes aventuras do Superman (setembro de 2008).

Eu julgava que, durante a Era de Prata (1956-aprox. 1970), não houvesse muitas histórias ambientadas em Krypton. Descobri que provavelmente estava enganado. Superman #132 apresenta a vida alternativa que Kal-El teria tido se aquele planeta não houvesse explodido; e, em Superman #141, uma viagem no tempo leva o Super-homem a viver nos últimos dias de seu mundo natal.

Quando John Byrne restabeleceu o Super-homem em 1986 e em particular nas minisséries Man of Steel e The World of Krypton, ele representou Krypton de uma forma bastante inovadora, que é a oficial desde então: um planeta árido, com grandes extensões inóspitas entre cidades feitas de torres de vidro. A tecnologia supria todas as necessidades dos habitantes, que podiam dedicar-se à Filosofia, Artes e Ciências como naquele ideal grego reproduzido no episódio “The Cloud Minders”, de Jornada nas Estrelas. Ao mesmo tempo, esses habitantes haviam se tornado pessoas tão estéreis quanto seu planeta. Seguindo o mesmo padrão dos vulcanos, os kryptonianos foram retratados como racionalistas reclusos organizados em clãs, restringindo ao mínimo o contato entre si e a nada o contato com a Natureza, e mantendo costumes anacrônicos com uma devoção religiosa.

Eu já sabia que essa representação diferia bastante de tudo que viera antes, mas não imaginava seu radicalismo. Nas edições de 1959 e 1960, Krypton é uma repetição da idéia, que então se fazia, do que viria a ser a América do futuro. Tal como em tantas histórias de ficção científica barata do período, o planeta de Kal-El era uma versão futurista da pujante e deslumbrada sociedade americana do pós-guerra, onde os recursos pareciam ilimitados e o progresso, destinado a continuar melhorando a vida e sustentando a estrutura social vigente. Tudo continuaria sendo feito como era, apenas com mais conforto.

Assim, a família kryptoniana era constituída pelo Pai, que ia trabalhar de manhã e voltava à noite com sua pastinha; pela Mãe, dirigindo o trabalho dos robôs domésticos; e pelos 2.3 filhos, freqüentadores da escola e acompanhados de seu cãozinho. Os homens e crianças vestiam aqueles trajes típicos de quadrinhos futuristas da época, com peças monocromáticas de cores berrantes: p.ex. camisa amarela, calça vermelha, mangas verdes e um triângulo azul no peito; e sempre aquele arco em volta de cada ombro. E botas, claro. As mulheres usavam sempre penteados, vestidos caros e brincos discretos, todos conforme a moda dos anos 50.

Exceto por algumas curvas bizarras, os edifícios e suas funções eram iguais aos das cidades da Terra. As atividades econômicas eram aquelas de maior prestígio ao tempo do Presidente Eisenhower: tudo que envolvesse a Engenharia, motor do progresso continuado. A escola baseava-se no mesmo paternalismo que conhecemos, com turmas de obedientes escoteiros repetindo as técnicas expostas em quadros-de-giz por seus doutrinadores, sem pensamento crítico. Jor-El era cientista em uma base de mísseis (e eu pergunto por que Krypton teria uma base de mísseis, já que as guerras estavam abolidas e a tecnologia espacial era incipiente).

Quando o Super-homem chegou a Krypton em Superman #141, deparou-se com uma filmagem de ficção científica local, onde o diretor, as câmeras e a técnica eram idênticos aos estereótipos de Hollywood. As poucas diferenças em relação ao mundo do leitor eram apenas as mesmas extrapolações tecnológicas de sempre: carros voadores, comida em pílulas, materiais inquebráveis; e alguns exotismos alienígenas, como vulcões jorrando ouro e animais que comiam metal. O trabalho da dona-de-casa era diminuído por uma cozinha onde bastaria apertar um botão e a comida viria pronta da parede — mas não de graça.

De certo modo, esse cenário ingênuo era inevitável. Na sociedade americana do início dos anos 60, a DC não teria conseguido vender quadrinhos que não tranqüilizassem o jovem leitor espelhando o mesmo referencial que ele tinha à sua volta. Não poderia estimular a imaginação para fora do ideal positivista necessário a se construir uma América dominadora onde se valorizava o conhecimento técnico. Além disso, quadrinhos eram considerados uma leitura exclusivamente infantil, que não poderia provocar questionamentos sobre a sociedade que retratavam, sob pena de trazer sobre si os aldeões com suas tochas e forcados. Ideològicamente, as histórias de super-heróis tinham que inserir-se no processo pedagógico validando a estrutura social desde cedo ao demonstrar seu triunfo em um mundo seguro onde todos seriam felizes e super-heróis benfeitores poderiam voar.

***

Ao ler histórias de super-heróis dos anos 50 e 60, minha primeira reação foi de tédio. Por tanto tempo eu as quisera ler, idealizando-as por não conhecê-las, mas, finalmente me deparando com elas, a ilusão desfez-se em desapontamento. Apesar disso, comecei a analisar sua estrutura e descobri um discurso subjacente à ação e ao suspense: os vilões eram pessoas maliciosas com planos de subverter a ordem, ora cometendo crimes patrimoniais, ora dominando uma população, ora espionando segredos militares. Os heróis atuavam no sentido de proteger essa ordem, interrompendo atos criminosos e entregando os malfeitores às autoridades. Em nenhum momento essas autoridades eram questionadas, nem os superpoderes eram empregados de forma a desrespeitá-las.

Portanto, não é de espantar que o público tenha sido sacudido de seu entorpecimento quando, em 1970, Dennis O’Neil lançou uma seqüência de histórias onde o Lanterna e o Arqueiro Verde percorriam os Estados Unidos revelando injustiças que aquela nação preferia não enxergar. Racismo, miséria, poluição, superpopulação, drogas e pedofilia, tudo isso foi apontado em meia dúzia de edições da revista Green Lantern que, até hoje, são lembradas como clássicas. Ali se discutia como, ao manter a Ordem, o Lanterna Verde contrariava a Justiça, em um debate que a Filosofia do Direito propõe desde Aristóteles, ou mesmo antes.

Para a maioria dos comentadores na Web, o fim dos anos 60 marca o começo da Era de Bronze dos quadrinhos, que, para a minoria (eu incluído), melhor deveria ser chamada de segunda metade da Era de Prata. O momento já era outro: a sociedade americana tinha sido confrontada com sua segregação racial, tinha visto os assassinatos de Kennedy e Martin Luther King e pedia o fim do massacre de seus filhos no Vietnã; as feministas queimavam sutiãs; e a fumaça de Woodstock desafiava o sistema. Os quadrinhos, sempre fruto de sua época, tornavam-se mais um canal de questionamento, incorporando um realismo agressivo que se maximizaria no cinzento final dos anos 80.
***
E a você sugiro este vídeo, que demonstra do que a criatividade ainda é capaz na Web. Por favor, não redimensione a tela! É um filme bobinho, mas deixou-me intrigado: como é que fizeram? Acho que foi com um pouquinho só de programação em Java (ou algum script similar). Considerando que o vídeo deve rodar em plataformas Linux e Mac tanto quanto em Windows, imagino que nem passe pelas DLLs.

19 novembro 2008

Pergunta 1: glicose e frutose

A Bárbara Axt propôs que fizéssemos [pelo menos] uma pergunta por dia. A minha de hoje é a seguinte: se glicose e frutose são isômeros, por que uma é reputada menos calórica do que a outra? Pergunta derivada (que, portanto, não conta): por que diabético pode comer frutose mas não pode comer glicose?

***

Recebi um panfleto de uma academia de ginástica. Falava em estimulação russa, mas não dizia o que era isso. Então, estou autorizado a imaginar:

- Estimulação russa é vodka?

- Estimulação russa é uma técnica de interrogatório inventada pela KGB, envolvendo porões e choques elétricos?

***

Apidêite do apedeuta

Acabo de verificar (onde mais?) que a frutose não é menos calórica.

03 novembro 2008

Estou por conta

Prometo a você unilateralmente: nunca vou usar a expressão "por conta" com o significado de "por causa". Já estou farto: agora, todo o mundo só quer dizer "por conta"; ninguém mais diz "por causa". "Por conta das minhas férias, passo a tarefa para você", "... o trânsito ficou lento por conta da chuva".

Chega. Não eu. Esteja tranqüilo: não vou cobrar de você. Mas comprometo-me, de hoje ao fim dos tempos, a nunca perpetuar essa prática que já vitimou famílias, trouxe fome, guerra e peste, aqueceu o planeta e causou choro e ranger de dentes.

31 outubro 2008

Síndrome da paisagem

Esta mensagem da Bárbara Axt estimulou-me a vir repetir um tema antigo que me é muito caro. Existem livros demais, filmes demais, quadrinhos, artigos de revistas, da Web, coisas demais para ver, e não dá tempo de aproveitar tudo no tempo de uma só vida. Chamo a isso de síndrome da paisagem: sou como um cego, sabendo que está diante de uma paisagem mas incapaz de admirá-la. Posso ler um zero vírgula por cento de tudo quanto há, mas quase tudo vai escapar.

Como se isso não bastasse, cada obra que você consome também o estimula a pensar, comparar, correlacionar e, se tiver disposição, escrever mais. Então, só acumula, acumula, acumula. A produção vai ficando gigante, bola de neve mesmo. Em Engenharia, a gente diz que é um caso de retroalimentação positiva: o resultado do processo contribui para ampliar a causa do mesmo processo. (Na retroalimentação negativa, o resultado diminui a causa.)

Um problema é onde e como armazenar toda a produção, que, em princípio, é o legado da humanidade, com tudo que tem de bom e de ruim. Escolher o que preservar, e o que não, é basicamente uma questão ideológica, então presumo guardar tudo. Outro problema é como indexar para recuperação: não adianta você ter a informação e não conseguir chegar até ela, porque isso equivale a não tê-la.

Um terceiro problema, este pessoal mais do que institucional mas comentado pela Bárbara, é você ter tempo de organizar seus pensamentos e deitar a pena ao papel. No meio da azáfama, acabamos sufocados e não conseguimos sequer terminar as tarefinhas que começamos. Ela está em busca de uma solução e eu, que compartilho a dor, desejo-lhe sucesso.

***

Mudando de assunto, hoje eu caminhava em frente ao Centro Cultural da Justiça Federal quando vi a placa em (suposto) inglês para benefício de turistas. Só olhei de relance, mas sei qual é o conteúdo: a placa comenta o próprio prédio, que, històricamente, foi a sede do Supremo Tribunal Federal. No meio do texto, meu olho bateu em "... The Hearing Room was..." e pensei, "hearing room"? Sala de ouvir? Traduzindo de volta, entendi que é a sala de audiências, courtroom ou, sendo benevolente com o tradutor, audience room. Fico pensando no pobre turista, deparando-se com uma sala que escuta. Sabe como é, as paredes têm ouvidos.

28 outubro 2008

Mão-de-obra não especializada

Eu na Barnes & Noble, fechando uma compra de US$ 125. A moça do caixa anuncia que, se eu tiver um cartão da loja, tenho 10% de desconto, pergunta se tenho um (não tenho) e se quero fazer. Quanto tem que pagar? pergunto. 25 dólares. Aí eu disse (deveria ter só pensado, mas cometi o erro de falar em voz alta), pago 25 para ter um desconto de pouco mais de 12...

Ao que ela me interrompeu: -- Não sei, não sou boa com Matemática.

Então, como vocês estão vendo, não é só aqui que eles põem as pessoas mais desqualificadas para atender no balcão. Em Nova Iorque também. Fico pensando se não é um requisito para assumir o emprego.

Em tempo, e é claro que isto não tem nada a ver: naquela grande metrópole judaico-cristã ocidental, constatei que os motoristas de táxi, engraxates, arrumadeiras de hotel, vendedores e balconistas em geral são todos oriundos ou da América Latina, ou do Extremo Oriente (China, Vietnã, Filipinas), ou do Subcontinente Indiano (Índia, Paquistão), ou da África Meridional (Quênia, África do Sul). Os nativos estão todos em ocupações que rendem mais dinheiro. Você pode não acreditar, mas falei mais portunhol do que inglês na Grande Maçã.

16 outubro 2008

Cada um tem os alienígenas que merece

Segundo a manchete do jornal popular Expresso de hoje, ontem à noite houve uma assustadora visão no Rio de Janeiro. Moradores da zona Norte teriam visto um enorme objeto redondo e iluminado flutuando no céu, acima do Engenhão, e depois desaparecendo. O jornal traz a sugestão de que tenha sido uma visita de alienígenas.

Mas que coincidência! Ontem à noite, eu também vi um enorme objeto redondo e iluminado no céu. Era a Lua cheia, belíssima, que a neblina tornava amarela. Depois, com a ventania, as nuvens encobriram o céu do Rio e a Lua desapareceu.

Acho que era um OOI: objeto orbitante identificado.

14 outubro 2008

Em brancas nuvens

Ontem à noite me dei conta: nove dias atrás, a Constituição de 1988 fez vinte anos de promulgada e ninguém parece ter reparado nisso.

10 outubro 2008

Frustrações urbanas variadas

Uma das formas de se escrever um belogue é o fluxo de consciência. Muitos Autores de vanguarda escreveram assim no século XX; talvez a mais famosa no Brasil seja Clarice Lispector. Faz muito tempo que venho querendo imitar esse estilo, e o belogue pretendeu ser uma tentativa, que, na verdade, acabou nunca tendo início. E ainda não vai ser desta vez, mas hoje os pensamentos serão quase tão desconexos quanto.

Estou lendo 1984 (que, na verdade, chama-se Nineteen Eighty-Four, por extenso). Para minha agradável surpresa, logo no início do livro o protagonista tenta escrever um diário, e o que sai é mais ou menos o que eu imaginava que fosse sair quando também eu tentasse: diante da página em branco, ele simplesmente deixa jorrar um conjunto impulsivo e atropelado de sensações sem pontuação.

Talvez eu seja apenas ansioso. Tenho andado muito pensativo porque insatisfeito, especialmente por causa de meu mau gerenciamento do tempo. Mas equilibro meu desconforto com um otimismo calculado e deliberado: de que, a cada dia, na verdade a cada instante, renova-se meu propósito de fazer certo daquele momento em diante. Assim: errei até as 19:48 h, mas às 19:49 farei direito, farei certo.

***
Tem chovido todo dia no Rio de Janeiro. Todo dia a chuva é fraca mas longa e fria. Gosto dos dias chuvosos, introspectivos, mais calmos; mas não do chão molhado, do óculos molhado, do guarda-chuva desajeitado importando água para onde ainda estaria seco.
Quando esfria no Rio de Janeiro, mais ainda quando chove, existe um aspectozinho mesquinho e nefasto da rotina que piora a vida de todo o mundo: a primeira coisa que povão faz é fechar as janelas do ônibus, a de cima e a de baixo. Fica aquela estufa móvel cheia de gente tossindo, você quase consegue ver as doenças respiratórias trafegando no ar graciosamente parado dentro do veículo. Como povão não foi à escola, perdeu aquela noção sanitária básica segundo a qual tem que haver renovação do ar. Sim, vai entrar um pouco de vento, mas a chuva nunca entra nem vai dar pra sentir frio. Ainda que desse, é muito melhor do que a tuberculose, pneumonia, gripe ou resfriado que virá voando na última tossida do infeliz que dorme a seu lado.

***
Exame de saúde periódico, exigido por meu empregador. A moça preparava a seringa quando viu o livro no meu colo (1984) e o adesivo na capa, “3 for 2 -- bargain price -- only if marked”.

-- Esse livro é de inglês?

-- Não, não é de inglês. Mas está em inglês.

-- Ahn.

Enquanto ela me espetava o braço (e eu dava meu sangue pela Companhia), senti que eu estava dizendo pouco. Se, por um lado, ela estava sendo discreta e respeitosa ao não perguntar mais nada (ou, o que é mais provável, apenas odiosamente desinteressada, para que perder tempo com livros, não é mesmo?), por outro lado senti que não era possível que eu não comentasse mais sobre a obra, o mínimo que fosse. Sim, eu sei, ela não queria ouvir, mas, pombas, tinha que ir até o fim, ainda que o fim fosse próximo. Então, enchido o segundo tubinho de plasma e tudo que nele vai em suspensão, complementei:

-- É um dos livros mais importantes que já foram escritos.

-- Ah, é?

... Ao que, como se eu não tivesse dito nada, o resultado sai em cinco dias úteis, a senha está no protocolo, se quiser ali tem biscoito. Tenha um bom dia.

Tenho certeza de que, desta vez, provoquei uma inversão: o chato insistente fui eu. Mas não deixo de sentir que algo não está bem. Provavelmente a moça adora assistir ao Big Brother Brasil -- Big Brother, marque minhas palavras -- e nunca ouviu falar de 1984. A ironia é gritante, entende? a verdade está implorando para nos libertar, eu tinha que fazer alguma coisa. So much for minha evangelização.

***
Por falar no quê, tenho vagarosamente desenvolvido um tema que discuti recentemente com o Filósofo. Olhe só: a gente lê nos jornais que o tráfico está matando transeuntes lá pro lado do Alemão. A gente lê que determinado bandido foi preso, vê a fotografia do sujeito de cabeça baixa na delegacia, vê imagem do blindado da polícia em algum acesso à favela. Todas essas evidências trazem um tom de palpável, inquestionável realidade.

E se Benny Cemoli não existisse?* E se fosse tudo falso? A realidade da qual tenho certeza (e nem desta tenho certeza) é apenas a que vejo entre casa e trabalho, por onde passa o ônibus, e onde mais trafego. O que o jornal me traz são abstrações, não tenho provas de nada. Meu ônibus não é assaltado, não pega desvio por causa de algum tiroteio, aquela notícia não se relaciona a meu mundo. Mais do que não me afetar: é irrelevante seu caráter de verdadeira ou falsa, tal como uma obra de ficção. O jornal passa a ser como uma novela ou folhetim, cujo próximo capítulo leio no dia seguinte.

E assim com tudo: a crise das bolsas e a montanha-russa do dólar; a estatização do petróleo no Equador; o resultado das eleições municipais. Tudo abstrações. Agora mesmo, que estou há três meses sem ver televisão, percebo que não preciso dela, meu mundo não muda, está só dentro de casa, dos lugares aonde vou e dos livros que leio (onde tenho a certeza da ficção). Meu mundo sempre esteve circunscrito a apenas isso, e o dinheiro no banco é apenas questão de crédito: eles me dizem que tenho tanto, então tenho.

Faça o teste. Imagine ler as notícias como se estivessem acontecendo em outro planeta, outro universo, e você vai ver que, de fato, o imediato a sua volta não é afetado por elas.

Qualquer dia me oferecem uma pílula azul e outra vermelha e descubro que estou flutuando dentro de uma gosma rosada e que não tenho nenhum pêlo no corpo.

* Título de um conto de Philip K. Dick, onde um exército descobre que seu inimigo era apenas uma ficção de jornais que, aliás, estavam sendo editados por um computador descontrolado.

21 julho 2008

Destaques do Velho Mundo

Se um dia eu estiver a fim, conto mais coisas. Hoje vou contar só algumas coisas que me chamaram a atenção.

1. Biblioteca Britânica
Ali havia uma exposição de manuscritos e de impressos do início da imprensa. Uma das primeiras coisas impressas na Europa era, imagine só, um formulário de indulgência. Porque a Igreja vendia centenas, milhares de indulgências por dia, por mês, por ano, gastava-se muito tempo escrevendo os documentos, e os escribas não davam vazão. Então, inventou-se um formulário igual a esses de DARF que você compra em papelaria, ou igual a esses de diploma: o texto do perdão vem todo pronto, só falta você preencher o nome. Então, o mortal ia lá, comprava o formulário, preenchia (ou, mais provàvelmente, pedia para alguém preencher a rogo) e levava para o padre como comprovante.

Como você vê, à Igreja não faltava pragmatismo. Eu pensei outras coisas engraçadas na hora, mas não lembro mais.

2. Museu do Prado
Você está lá, cercado de obras-primas de Bosch, Ticiano, Caravaggio, Goya, Velásquez. Passa um grupo de velhos acompanhando um guia. Nenhum deles olha sequer de relance para as paredes. Simplesmente se ocupam de seguir o guia e não dedicam um segundo pensamento a olhar em volta, como se não estivessem em um museu, como se não houvesse nada para ver. Pra fazer isso, é melhor nem viajar, né não? Igual àquela gente que viaja e diz que não tinha nada pra comer, "tive que comer no McDonald's, porque eles não tinham arroz com feijão".

3. B-17 Pink Lady
Aconteceu comigo aquilo que havia acontecido com Hiro e o Lancaster (veja aqui, em Junho 16, 2007). Estava trocando de roupa no quarto de hotel quando ouvi um ruído de avião diferente lá fora. Corri à janela a tempo de ver uma B-17, seus quatro motores girando, sobrevoando Londres, tal como sessenta anos atrás.

22 maio 2008

As utopias realmente me perseguem

A esta altura, deve ter dado para notar um fato que não me incomodo em confessar: um de meus interesses atuais é a Wikipedia. Desejo entender sua estrutura, critérios de qualidade de texto, normas de edição, etiqueta, conteúdo, estilo e formato. Desejo contribuir escrevendo artigos inteiros e adequando outros a esses padrões. Já descobri as várias páginas, aliás bastante didáticas, que explicam esses tópicos exaustivamente. Fascinam-me as possibilidades de páginas sobre os próprios editores, de convivência em torno de projetos e de listas de tarefas para crescimento desses projetos.

Estou bem certo de estar infelizmente abrindo uma caixa de Pandora e potencialmente embarcando em um monstruoso desperdício de um tempo que não tenho. Quanto mais não seja, porém, há de valer-me um grande aprendizado sobre edição de texto e ambientes compartilhados, a mim, que abraço conhecimento como a mariposa circunda a lâmpada.

Provavelmente não farei nada disso. De antemão, desencoraja-me saber que, muitas vezes, os editores são pessoas sem a noção profissional, apaixonada pela enciclopédia mas desapaixonada das idéias, de manter um distanciamento impessoal naquilo que escrevem. Por mais que se tente manter a neutralidade, os editores sempre acabam por derramar seus preconceitos, suas visões ideológicas, religiosas, políticas, controversas.

Assim, por exemplo, descobri que há um editor que se projeta bastante nas páginas sobre aviação, com vasto conhecimento e, tenho certeza, correspondente boa fé. Descobri, também, que esse mesmo sujeito é um daqueles típicos comedores de milho do Meio-Oeste dos Estados Unidos, religiosos extremados que acreditam no Destino Manifesto da América como senhora do mundo e para quem o aquecimento global não tem relação com a indústria humana. Imagine o estrago que um camarada desses pode fazer em páginas sobre temas um pouco mais polêmicos do que a história da tecnologia aeronáutica.

Se eu afinal me juntar com intensidade a esse esforço, estou convicto de que ficarei frustrado com a falta de isenção e com noções peculiares quanto à relevância de certos tópicos obscuros dentro de páginas de conteúdo universalista. Por tudo isso, hesito.

Entretanto, não posso deixar de reconhecer que as ferramentas Wiki são a materialização de mais uma de minhas antigas utopias. Pela minha impressão, elas também vêm ao encontro dos objetivos mais puros de certos idealistas do conhecimento cujo exemplo mais vigoroso são os enciclopedistas do século XVIII, liderados por Diderot. É a mesma noção que orientou a criação da biblioteca de Alexandria e das bibliotecas nacionais, é o mesmo sonho que estimulou os criadores primeiros da Internet e os gravadores do disco da Voyager. E é o seguinte: faz tempo que também concebo a possibilidade de uma grande, gigantesca, incomensurável, descomunal base de dados que reúna todo o conhecimento humano de forma consolidada e isenta (oquei, essa parte é impossível, a ideologia está por toda parte, especialmente quando não a percebemos), nos níveis ilustrativo, introdutório e profundo, destilando o conhecimento dos especialistas e acessível ao digitar das palavras-chaves.

Percebe? A atração é forte demais, não posso ficar inerte. Agora que sei que a Wikipedia existe e que tem padrões de excelência, não posso não fazer nada. Existem assuntos demais sobre os quais me dá comichão escrever: Brasil, Física, Astronomia, aviação, Direito, literatura, bibliofilia, Jornada nas Estrelas, Richard Bach, rock, quadrinhos, Astérix, Tintin, super-heróis...

'Ver no que isso vai dar.

Clarke, Leiber e Lavoisier

Na semana passada, acabei de ler The Wanderer. Afinal o Autor não me decepcionou: acabou explicando a natureza do planeta Errante, o porquê de seus habitantes vagarem pelo hiperespaço e o que ele queria na órbita da Terra. Infelizmente, o livro só foi ficar bom quando três quartos já haviam ficado para trás.

Para trazer parte da explicação, Leiber lança mão de um recurso tão misterioso quanto útil. O astronauta Don Merriam escapa à destruição da Lua embarcando em uma nave auxiliar, que entra em órbita do misterioso planeta Errante e é capturada para dentro dele por um raio trator. Lá dentro, Merriam é convidado a sair de sua nave, encontrando uma atmosfera respirável e sendo levado a um quarto onde suas necessidades básicas são atendidas e onde, antes de pegar no sono, percebe que sua mente está sendo lida. Ao acordar, o astronauta descobre que está fora de seu corpo enquanto uma força desconhecida arrasta sua consciência descarnada através dos corredores do planeta. A visita é compulsória: a sensação é de que ele poderia controlar para onde vai, mas sempre percebendo uma urgência que o compele a passar a outro ambiente, ao mesmo tempo em que percebe presenças invisíveis. O passeio lhe mostra seres com uma grande variedade de estruturas e vivendo em ecossistemas os mais diversos, até que ele retorna a sua acomodação e volta a dormir.

Mais uma vez: se a seqüência lhe parece familiar, é porque é. The Wanderer é de 1964. No final do livro 2001 (que Arthur Clarke publicou em 1968) e lá pelo meio de 2010 (que saiu em 1982), esses são os exatos eventos que sucedem ao astronauta David Bowman. As diferenças são o objeto destruído (a Discovery em vez da Lua), o objeto misterioso orbitado (o Monolito em vez do planeta Errante), a localização dos ecossistemas (Júpiter e seus satélites em vez do planeta Errante) e o retorno ao próprio corpo, que não acontece na obra de Clarke.

Comentário ao belogue dos quadrinhos

Aqui, em 23/04/2008, o Dr. Paulo Ramos comentou histórias em quadrinhos que usaram o contorno de modo inovador. Através de metalinguagem, os personagens mostram quase saber que foram apenas desenhados sobre o papel.

Tive que lhe deixar este comentário:

"Sobre o uso dramático do contorno: Mauricio de Sousa tem pelo menos mais um exemplo brilhante. Lembro-me de uma história do Cascão dos anos 80 onde ele era atirado sobre um rio. Para não cair na água, o único lugar onde pôde se agarrar foi o contorno."

Recém-lidos:
The Wanderer, de Fritz Leiber;
Justice League America #62 (maio de 1992);
Superman #67 (maio de 1992);
Hellblazer #53 (maio de 1992);
Armageddon: Inferno #2 (maio de 1992);
Action Comics #677 (maio de 1992);
Flash #63 (fim de maio de 1992);
Flash #64 (início de junho de 1992);
Justice League America #63 (junho de 1992);
The Sandman #38 (junho de 1992).

08 maio 2008

V-E Day

Hoje é Dia da Vitória.

Nesta data, há 63 anos, cessou aquela que foi talvez a maior carnificina na História da humanidade. Estima-se que mais de 60 milhões de pessoas tenham morrido em um conflito que moldou a geopolítica do mundo inteiro e sobre o qual já se escreveram milhares de livros.

Hoje, voltávamos do almoço eu e o Filósofo. Tínhamos acabado de atravessar a rua da Assembléia quando ouvi um barulhão. Imediatamente olhei para cima e vi quatro AMX em formação diamante, cruzando o céu do meio-dia em alta velocidade e a baixo nível -- tão baixo que ele não teve tempo de ver. Comentei: hoje é Dia da Vitória, o monumento aos mortos é ali na frente. Deve estar acontecendo algum evento. (O telejornal da Record disse que eram "caças supersônicos" da Força Aérea. Não sei de onde tiram isso, é nossa imprensa chutando novamente o que não quer ter trabalho de pesquisar. Não eram caças nem supersônicos!)

Por alguns momentos, dediquei meu pensamento aos que se sacrificaram, aos que morreram à toa, aos que acreditavam, às vítimas sem escolha, à juventude perdida de toda uma geração e aos sobreviventes, feridos e orgulhosos.

É impossível não ter reação, alguma reação, diante da Segunda Guerra Mundial. Documentários abundam, consciências nacionais foram alteradas por ela, marcas profundas permanecem, há monumentos e cemitérios por toda parte. Depoimentos aos milhares, iconografia, ideologia.

Talvez nenhuma comemoração tenha sido tão apropriada quanto a do fim da guerra, a felicidade de que ninguém mais ia ter que morrer. E, no entanto, a Europa estava destruída, famílias desfeitas, e era uma alegria amarga, estragada, triste. E o conflito no Oriente ainda ia durar três sofridos meses, terminando com o calor do Sol na Terra e a chuva negra que trazia câncer.

A data não pode passar em branco. 63 anos hoje, para escarmento das gerações futuras, até nos esquecermos e começarmos tudo de novo.

01 maio 2008

Anotações: Swamp Thing #87

Acabo de enviar isto a Jonathan Woodward. É uma contribuição a seu saite sobre a Crise nas infinitas Terras, onde há uma página sobre textos relacionados.

"(...) In Swamp Thing #87 (June 1989), the green plantman goes to Camelot. In page 8, there is this dialogue between him and Merlin:

"'That Knight [the Shining Knight] that drew me out of the wormhole... HE is able to travel through time?'

"'Sort of. First let me explain that time is a complicated thing. In fact, what many think to be time travel is merely the exploration of ALTERNATE worlds.

"'But at some point during YOUR era, a sort of CONVERGENCE of the worlds seems to have occurred.

"'And all the endless possibilities were boiled down into a single reality, which is MUCH easier to set up a direct channel to.'

"'HMMM. An interesting theory. Others I have encountered... have espoused it as well. But if there were... a CRISIS on such a scale... I'm sure I would REMEMBER it.' (...)"

28 abril 2008

Maré de tranqüilidade

Conforme já comentei aqui, estou lendo The Wanderer, de Fritz Leiber. A idéia do livro é simples: de repente, não mais que de repente, oriundo do hiperespaço durante um eclipse lunar, surge um planeta bem junto da Terra, logo além da órbita da Lua. O Autor demonstra os fenômenos que decorrem daí e as diferentes reações das pessoas.

Foi por causa dessa premissa que comecei a ler o livro. O que eu não sabia era isto: que a narrativa é arrastada e que está fragmentada em (que eu lembre agora) doze perspectivas, cada uma com seus protagonistas tendo uma visão parcial do fenômeno. Bem, tendo eu lido metade do livro, ele melhorou da chatice e, apesar dela, persisto porque estou muito curioso em saber o que o Autor propõe.

A propósito, é sintomático que, quando fui pesquisar sobre The Wanderer na Internet, eu tenha encontrado várias resenhas repetindo a mesma crítica que fiz acima: há personagens demais e a narrativa fica toda entrecortada. Com isso, o próprio Autor revela-se incapaz de uma caracterização adequada, patinando e cansando o leitor.

Mas não foi pra falar disso que entrei no assunto. É o seguinte: o planeta tem massa semelhante à da Terra. Sua proximidade causa tremendos efeitos de maré sobre a Terra e, mais importante, sobre a Lua. Na primeira, o mar sobe muito além do que a civilização consegue tolerar, e a segunda é toda deformada e partida em pedacinhos. Vai daí que, em certa passagem, um cientista lembra que a força de maré decai com o cubo da distância.

Na hora, parei a leitura e pensei: tem algo errado. A força de maré é uma decorrência da gravidade, e esta decai com o quadrado da distância, não o cubo. Mas o Autor insistiu no parágrafo seguinte e ainda deu um exemplo. Além do mais, não escreveu o algarismo 3, mas pôs “cube” por extenso.

Nesse ponto, vocês sabem o que eu tinha que fazer: consultar minha nova amiga, a Wikipedia. Para meu espanto, o verbete sobre a força de maré não só confirma que ela decai com o cubo da distância como ainda mostra a dedução da equação.

(Incidentalmente, se você precisa saber, grosso modo é o seguinte: a força de maré é um diferencial da força da gravidade. Expandindo a gravidade em uma série polinomial, a força de maré aparece no segundo termo e é por isso que sua potência é –3 em vez de –2. Mas isso não interessa.)

O enfoque aqui é o seguinte: senti placidez ao ver a dedução da equação.

É preciso entender que, durante todo o curso de Matemática do segundo grau e, depois, durante todo o curso de Engenharia, você aprende a nunca aceitar uma equação pelo valor de face. Todas as equações que expressam leis naturais devem ser provadas através de dedução. Isso faz todo o sentido, porque a carreira do engenheiro será construída sobre o pressuposto de que as equações são válidas, e não haverá tempo para ficar verificando se estão corretas. Então, você deduz uma por uma, penosamente, para prová-las para si mesmo, uma única e sólida vez, não ter mais que olhar para trás depois e poder consultá-las sempre que quiser, sabendo que é território já conhecido e provado. Desse ponto em diante, elas podem ser consideradas verdadeiras, e você saberá todos os pressupostos que vão implícitos, todas as premissas e, a partir delas, os limites até os quais se pode acreditar em cada equação.

Então, ao longo da minha vida, toda vez que me deparei com uma equação, tornou-se uma reação quase instintiva verificar se realmente ela estava correta, se nenhum termo estava faltando, quais eram as premissas. É verificar se posso acreditar no que estou lendo, do mesmo modo como você confere a retórica de qualquer texto, verificando se os argumentos são válidos, se o Autor não omitiu nada, se seus exemplos se aplicam. Porque uma equação é um argumento como qualquer outro, sujeito a verificação para o Autor te convencer com base na credibilidade que adquiriu junto a você. Isso é importante, porque às vezes eles erram mesmo, e as conclusões passam a estar furadas. Minha própria dissertação de mestrado nasceu de um erro de sinal cometido por um conceituado pesquisador ao deduzir uma equação. Levei meses para aceitar que o cara realmente tinha errado, mas a oportunidade de fazer do jeito certo foi uma das grandes motivações do trabalho.

Assim, quando a Wikipedia mostrou a dedução da equação da força de maré, senti uma tremenda segurança: eu já tinha passado por tudo aquilo, todas as grandezas físicas eram minhas conhecidas. Especìficamente, nunca havia estudado a força de maré, mas isso não importava, porque eu tinha a certeza de que, com o conhecimento de que a escola me munira, a qualquer tempo seria (e sou) capaz de conferir se a dedução está correta.

E o melhor de tudo é que não tenho que. Eu não estava interessado na fórmula exata, nem queria verificar se estava correta, nem seria obrigado a isso: bastava-me confirmar se o denominador tinha um raio ao cubo, e passei a ser o responsável por minha própria certeza e meu eventual e irrelevante erro. Há uma demonstração para acompanhar, e sempre existe o argumento de autoridade de que, se o digitador se deu ao trabalho de demonstrar (e com isso deu a cara a tapa, porque qualquer um pode conferir), então provavelmente está certo. E não abro mão do poder de verificar a correção. É só que não tem importância nenhuma, não estou projetando nenhum satélite para estar proibido de errar a conta.

Então, vejam: eu procurava a confirmação de uma declaração que encontrei em um livro. O Autor não é nenhum tolo. Se sua ficção científica é respeitada, é que ele tomou certos cuidados e não ia cometer um erro desses. Aí, fui investigar e encontrei demonstração de que a força realmente decai com o cubo da distância, qualquer que seja a fórmula completa. É quanto basta, e me senti totalmente por cima daquilo tudo, território já dominado, onde tàcitamente sei tudo que preciso saber para me convencer da correção do aprendizado novo. As equações apareciam desnudadas para mim, sem possibilidade de se imporem, de eu ter que ficar quebrando a cabeça com alguma realidade física desconhecida.

A propósito, meu exemplar é tão velho e está tão seco que vai se fragmentando à medida em que vou lendo. As páginas vão quebrando quando são abertas e acabam caindo, de modo que, por mais que eu leia, não muda o número de páginas entre a primeira e o ponto onde estou. O negócio é ler mais rápido do que o livro se desfaz antes que ele me alcance, feito Tom Hanks subindo a escadaria em Um Dia a Casa Cai.

Recém-lidas:
Justice League America #61 (abril de 1992);
Justice League Europe #37 (abril de 1992), apenas as primeiras páginas;
Flash #62 (início de maio de 1992);
The Sandman #37 (maio de 1992).

23 abril 2008

O Evangelho do Coiote

Recentemente, terminei de ler Animal Man #5, do inverno de 1988. A história chama-se “The Coyote Gospel” e foi escrita por Grant Morrison e desenhada por Chas Truog e Doug Hazlewood, com capa de Brian Bolland. O motivo de eu ter procurado essa edição de AM é a grande quantidade de elogios que li na Internet, principalmente os que dizem que a história é perturbadora e inovadora, usando a simbologia cristã para trazer uma interpretação de seu Autor sobre o significado e as intenções de Deus.

ATENÇÃO: VOU CONTAR A HISTÓRIA E SEU FINAL. Você foi avisado.

Tudo começa com um caminhão atropelando e matando um coiote, que em seguida ressuscita. Um ano depois, o motorista volta ao local, acreditando que sua vítima seja um demônio que prejudicou sua vida de lá pra cá e determinado a matá-lo de uma vez por todas. Ele atira no coiote, que vemos cair no abismo e ficar pequenininho, cada vez menor, até virar uma fumacinha lá embaixo. E uma pedra cai em cima dele.

Isso lhe parece familiar?

Mas o coiote sobe de volta e o sujeito explode uma bomba que o deixa mutilado. Nisso, chega o Homem-Animal, que, apesar de teòricamente ser o protagonista, é um mero espectador nesta história. Aí, o animal ferido lhe estende um papel enrolado: o Evangelho do Coiote, que o leitor tem chance de saber o que contém.

O Evangelho é a história de como, no mundo dos bichinhos, tudo era violência e eles passavam o dia se matando uns aos outros em atos de crueldade fútil: bombas explodindo na cara, bigornas caindo, rolos compressores atropelando-os etc. Os bichinhos sempre ressuscitavam para serem mortos de novo em um ciclo de carnificina sem fim.

Um dia, o coiote Crafty (Engenhoso em português) estava preparando uma armadilha para o pássaro que corria -- e agora, reconheceu? --, quando a passagem súbita do corredor fez a armadilha reverter e ele levou um tiro de canhão na cara. Para Crafty, isso foi a gota d'água. Ele foi se queixar a Deus, que lhe respondeu que essa era a ordem natural das coisas e mais: a inconformidade de Crafty foi um desafio à autoridade divina, e ele devia ser punido. Mas Deus era misericordioso e permitiu que a punição tivesse um propósito. Então, Crafty pediu que seu suplício servisse para que não houvesse mais violência no mundo dos bichinhos. Em resposta, Deus condenou-o a morrer sucessivas e trágicas vezes no mundo real, sempre sentindo as dores. Enquanto isso continuasse acontecendo, os bichinhos seriam poupados. Assim, Crafty tornou-se um mártir, que aceitou sobre si todo o sofrimento do mundo para que outros pudessem viver em paz.

Infelizmente, o Homem-Animal não consegue ler a escrita e devolve o papel sem ter tido acesso a seus ensinamentos. Ato contínuo, o motorista do caminhão atira em Crafty com uma bala de prata e ele morre pela última vez, estatelado com braços e pernas abertos sobre o asfalto, o corpo na mesma atitude que vemos nos crucifixos. Fim.

Em primeiro lugar, confirma-se o que li na Internet: história perturbadora, inovadora, chocante e, definitivamente, não o tipo da coisa que se costumava ver em quadrinhos. Eu nunca vi temas dessa seriedade serem discutidos assim, ainda mais misturando seu conteúdo com o de desenhos animados considerados infantis.

Em segundo lugar, existe a admissão aberta de que os desenhos da Warner são violentos sim, o que chama atenção diante do fato de que a DC já pertencia ao grupo Time Warner na época da edição. Reconhece-se abertamente que seus personagens sofrem crueldades que matariam qualquer um. A única explicação possível é que, em seu mundo surreal, as mortes seqüenciais são sucedidas por imediatas ressurreições, e também o absurdo dessa situação é abordado de frente, escancarando que as leis físicas dos desenhos animados são diferentes das de nosso mundo.

Em terceiro lugar, a história é um vislumbre da visão que Grant Morrison deixaria mais clara entre as edições 23 e 26 de Animal Man: a de que o universo dos quadrinhos (e também o dos desenhos animados) não é mais nem menos real do que o nosso, e de que cada um tem suas próprias regras. A "realidade" dos desenhos não é absurda, apenas funciona de outro modo.

Em quarto lugar, existe aí um tema bastante grave e que exige reflexão. É a possibilidade, intuída e apontada por Morrison, de que nós, criaturas, não passemos de joguetes nas mãos de um Deus que nos usa apenas para Seu próprio divertimento. Assim como não dedicamos um segundo pensamento a formigas ou bactérias, da mesma forma talvez estejamos sendo tratados sem a menor consideração por um criador que não poderia sequer ser chamado de cruel. A própria Bíblia autoriza essa interpretação quando traz a idéia de termos sido criados para servi-Lo. Assim como Morrison se importa com personagens que considera bastante reais, também demonstra preocupação com seu poder de manipular esses personagens, como seu criador que é. Na qualidade de autor, ele teria uma responsabilidade, que ficaria mais evidente nas edições 23-26 da revista. Não por coincidência, o rosto de Deus não aparece, mas Ele é representado usando roupas como as nossas e portando lápis e pincéis.

Finalmente, a noção de um coiote como o Cordeiro de Deus, como o redentor que se oferece a livrar o mundo de seu sofrimento absorvendo o padecimento sobre si mesmo, é dolorosamente familiar e, por isso mesmo, há de ser considerada sacrílega por quem não tiver o poder de generalizar. Afinal, por que somente os homens teriam a possibilidade de uma tal salvação? A história é totalmente coerente com a visão ecológica de que a raça humana não tem a importância que atribui a si mesma e de que os animais têm tanto direito a este planeta (e universo) quanto nós.

Ao mesmo tempo, “The Coyote Gospel” é uma subversão da visão tradicional da figura de J.C., na medida em que retrata Deus como um tirano que exige sacrifício. Nessa óptica, J.C. não seria Deus encarnado, mas uma vítima da autoridade sanguinária. É até de se estranhar que a história não tenha levado multidões com archotes a apedrejar o prédio da DC nem o escocês Morrison a ser banido de escrever nos puritanos Estados Unidos.

Incidentalmente, “The Coyote Gospel” foi publicada no Brasil em DC 2000 no. 7, de julho de 1990, e republicada nos Estados Unidos no encadernado Animal Man, de 1991.



Recém-lida: Armageddon: Inferno #1 (abril de 1992).

Aqui como lá

Alguns dias atrás, o Strange Maps mostrou a curiosa situação da cidade alemã de Büsingen am Hochrhein: existe um pedaço de Suíça entre essa cidade e o resto da Alemanha. Então, o mapa da Suíça tem um olho, ou um buraco, onde fica Büsingen; e o mapa completo da Alemanha tem um pedaço destacado do principal, tal como o Alaska dos Estados Unidos.

Essa anomalia territorial tem algumas conseqüências curiosas, como o fato de o único posto de gasolina de Büsingen afirmar (aparentemente com razão) ter a gasolina mais barata do país, em decorrência de acordos alfandegários que a cidade mantém com a Suíça.

Comentei essa situação com o Filósofo, que me lembrou: temos isso no Brasil também. Como assim? perguntei. É em Brasília: a sede do STF, com seus Onze Alemães.

(Em tempo, cabe um esclarecimento. Habitualmente, nosso Supremo Tribunal profere julgamentos academicamente impecáveis, bem fundamentados etc. Infelizmente, conforme eu e o Filósofo já havíamos conversado, na maioria desses julgamentos os Ministros do Supremo têm a tendência de imaginar que estão na Alemanha, onde há dinheiro para tudo, onde ninguém tem fome, onde a polícia não bate nas pessoas, onde o cidadão acompanha a política e vota conforme uma convicção formada independentemente, onde todos são alfabetizados e conservadores e os vizinhos se respeitam. Apesar de mim, não vai aí uma crítica. Realmente devemos nos esforçar para este País se converter naquela espécie de paraíso dos direitos, e os julgamentos devem ser emitidos no sentido de realizar aquela utopia. É só que, na visão que os Senhores Ministros deixam transparecer, parece que aquilo tudo já é real. Com isso, às vezes os julgamentos se distanciam da realidade e seu conteúdo acaba perdendo efetividade.)

Recém-lidas:
Swamp Thing #98 (agosto de 1990);
Hellblazer # 52 (abril de 1992).

18 abril 2008

A Bíblia é metal total

Hoje à tarde, comentei com o Filósofo que a Bíblia é um livro bem heavy metal. Com isso, dizia que é genocídio, ciúme doentio, radicalismo, guerra total, muito sangue, violência gráfica, cadáveres putrefatos aqui e ali, etc.

Não é à toa que é o livro preferido do Alex Castro, porque tem tudo que um bom livro deve ter: intriga, romance, traições, corrupção, incesto, conflitos familiares, vingança, conflitos morais. Também contém conselhos sensatos (Sabedoria, Provérbios, Eclesiastes), poemas belíssimos (Salmos), recomendações para uma boa dieta (Daniel), Direito (Levítico, Deuteronômio), mitologia e arquétipos junguianos (Gênese), delírios insanos e geniais (Ezequiel, Apocalipse -- vai dizer que as capas dos discos do Iron Maiden não vieram de lá?), épicos (Êxodo, também conhecido pela atuação de Charlton Heston), regras simples mas eficazes de boa convivência (os quatro evangelhos), a lista é longa.

Aí, cliquei no Janer Cristaldo e li seu post sobre liberdade, ateísmo e religião (datado de 13 de abril). Tive que comentar por email:

“Há umas semanas, também comentei em meu belogue: toda vez que a Igreja se mete em política (o que, aliás, é direito dela), é SEMPRE para dizer NÃOPODE. SEMPRE para PROIBIR crentes e incréus de fazer alguma coisa, nunca para permitir.

“Tremenda inimiga da liberdade, essa Igreja. Entre os dela, não me importo (estão lá porque querem. Já estive lá, sei disso). O problema é que querem que EU me sujeite a seus mandamentos, eu, que não escolhi segui-los, não lhes pedi nada nem, em teoria, vou para o Céu.”

Eu poderia ser levado para o Céu contra minha vontade? "Muito bem, Atoz, você agiu com retidão e piedade. Vem pra cá." "Não quero, quero ir para o Inferno." "Veja bem, Atoz, você não tem escolha, tem que vir para onde Eu quero." "Pô. Até aqui? Já não basta antes, estou condenado pela eternidade?!"

***

Vocês sabem a opinião que tenho das pessoas que trabalham em determinada lanchonete de festifúdi. Abaixo deles, o único degrau na escala das qualificações profissionais são os malditos distribuidores de filipetas que abundam em calçadas do Centro. Mas ontem eles se superaram. Sério. Conseguiram me surpreender mesmo.

É uma venda na porta do Metrô da Carioca, só duas moças atendendo. Uma no caixa, outra no balcão. Paguei à primeira, fui à segunda.

Eu: “Boa tarde. Um Chicabon quinhentos, por favor.”

Moça do balcão (com olhar morto e beiço pendurado): “O que que é Chicabon quinhentos?”

Moça do caixa, aflita: “É um milkshake sabor Chicabon. É médio.”

Em seguida, a moça do caixa largou a cliente que estava sendo atendida e foi fazer o milkshake pra mim enquanto a moça do balcão só olhava.

***

Já esta foi no caixa eletrônico, menos de dez minutos depois. A máquina tinha cinco opções de valores para saque: R$ 10 -- R$ 60 -- R$ 110 -- R$ 180 -- R$ 330. Escolhi a terceira: cento e dez reais.

Deu mensagem de erro: “VALOR INVÁLIDO -- VALOR DEVE SER MÚLTIPLO DE R$ 50”

Sou eu?

Recém-lidas:
Swamp Thing #96 (junho de 1990);
Swamp Thing #97 (julho de 1990).

16 abril 2008

Anotações: Swamp Thing #70 e #74

Enviado a Greg Plantamura em dois momentos diferentes:

"Greetings.

"First, let me compliment you on your Annotations for Swamp Thing. One cannot do it enough. Also, I should thank you for the help they provide.

"But then, may I contribute? I have found a minor detail in issue 70, page 22, panel 3. As Swamp Thing is forming, we can read the usual "shlep plep blup"sounds, but this time they are different and appear as "SHLOEL BSSTTE TTLBN". I do not know who "Shloel" is, but do you not recognize the other two names?...

"Once I found this tidbit, I felt I had to share it with you so you could choose whether or not to put it up. Thanks for bearing with me so far.

"Keep up the good work,

"João Paulo Cursino
"Recent fan of Moore and Veitch's Swamp Thing"

"Greetings. Me again.

"In your annotations for Swamp Thing #74, you mention that the cops in page 24 are the same as in #31, page20. Indeed. I realize that you have noticed what follows, but I thought you might like to make explicit mention to this: that #74, page 24, panels 4 to 7 are a precise mirror of #31, page 21, panels 1 to 4.

"Still using your annotations as reference,
"J.P. Cursino"

Deep Space Nine: Jornada em tons de cinza

Em fevereiro de 2007, Alex Castro comentou como Jornada nas Estrelas defende a ideologia do modo de vida americano. De modo geral, concordo com ele. Mas tenho uma contestação a fazer, que fiz por correio eletrônico e que repito abaixo.

"Alex, sou trekker há 17 anos e há 17 anos analiso Star Trek com o mesmo olhar crítico, em busca de ideologias, significados, referências. Você está certo. A Terra do século 24 é a canonização da Nova Ordem Mundial, arauteada por Bush Pai.

"Mas --

"Talvez você gostasse de assistir a Deep Space Nine a partir da terceira temporada (ignore as duas primeiras). Mostra como os humanos/a Federação são egocêntricos e acham que sempre têm razão. O comandante da estação Nove é obrigado a aceitar que existem outros modos de vida (OK, isso as outras séries também tinham, "mas o nosso é melhor") -- E QUE O DELE PODE ESTAR PODRE. Critica-se como é fácil ser santo no paraíso (i.e. Terra) [aqui eu me referia ao magnífico monólogo de Sisko em "The Maquis, Part II"], como os oprimidos podem preferir a opressão, como uma vida mais simples pode ser preferível etc. Os melhores episódios são justamente os que criticam a Federação e lhe fazem um contraponto [p.ex. o discurso de Quark em "The Jem'Hadar"].

"Aliás, não é verdade o que você disse: que nunca há rebelião na Terra do século 24. O par de episódios "Homefront" e "Paradise Lost" mostra justamente um GOLPE DE ESTADO dos almirantes que queriam um Estado policial, usando o medo para manipular a população. Infelizmente, são episódios mal conduzidos, mas é uma grande premissa.

"A série é muito mais madura do que a NG: os personagens cínicos ganham destaque [aqui eu me referia ao Garak mais do que tudo, mas também aos lampejos de cinismo de Quark e Odo e a Sloane, de "Inquisition"], ninguém nunca mais é bonzinho puro nem mauzinho até o fim [q.v. Dukat e Damar], joga-se muita Realpolitik, engana-se, mente-se, trapaceia-se, manipula-se direto.

"A propósito: você disse que Roddenberry transformou a série Clássica em uma conservadora NG. Na verdade, Roddenberry era conservador, fã de Lincoln etc. O que a série Clássica teve de bom no caráter dos personagens é devido unicamente aos *outros* produtores e editores: John D.F. Black, D.C. Fontana e, principalmente, Gene L. Coon. Roddenberry deu só a estrutura e as premissas, mas nunca teve o talento de desenvolver. Isso está fartamente documentado, embora não tenha ampla divulgação fora do círculo trekker. Já na NG, os produtores foram mormente Rick Berman e Michael Piller (especialmente o primeiro), que não tinham as mesmas motivações nem queriam mexer muito com uma série que dava dinheiro porque dizia o que as pessoas queriam ouvir.

"Isso não me impede de ser fã das três, mas é que eu gostaria de pôr tudo em perspectiva.

"Valeu.

"Seu continuado leitor,
João Paulo".

Recém-lida: Swamp Thing #87, de Rick Veitch e Tom Yeates (junho de 1989).

15 abril 2008

Make war not love

Esta notícia mostra alguma coisa sobre a população americana e sua moral. Aparentemente, as pessoas consideram mais tolerável uma agressão extrema do que uma demonstração de afeto.

Na verdade, não deveríamos nos surpreender: o puritanismo está na raiz histórica daquela cultura. Acontece que se pode fazer também outra leitura: há uma cultura da agressividade, do individualismo; da tomada, por um cão, do pedaço de carne que está na boca de outro cão. É uma cultura da supressão da vontade e da existência do outro em nome da satisfação das necessidades próprias imediatas. Não é sem motivo que a atitude genérica dos britânicos em relação aos americanos é considerar imaturos estes últimos, como um bando de adolescentes mimados com excesso de testosterona e de recursos.

Dirão que o problema está nos vidiuguêimes e criarão leis para suprimir jogos sensuais ou violentos. Feliz ou infelizmente, o capitalismo e a cultura de massa não devem ser encarados como causas dessas tendências. São apenas ambientes que as revelam, que as escancaram.

Acho que o próximo passo vai ser nos amarrarem nas cadeiras e nos forçarem a assistir três dias seguidos de cenas violentas. Então sairemos cantarolando Beethoven e reencontraremos nossos amigos Pete, Georgie e Dim. Videe well.

14 abril 2008

Uma coisa que me irrita e outra que me diverte

Irrita-me a expressão "e nem". São duas conjunções aditivas juntas e, por isso, a expressão está errada. "Não pode sentar na grama, cuspir no chão e nem jogar papel na rua." Está errado.

Por favor, nunca escreva "e nem". "Não pode sentar na grama, cuspir no chão nem jogar papel na rua", por piedade.

Minha última conta de luz traz a lista dos sorteados na promoção do débito automático. É assim: você inscreve sua conta no débito automático e entra na promoção. Se for sorteado, ganha uma televisão de plasma de 42 polegadas! Legal, não?

Muito. Pense comigo: deve haver um bom motivo para a companhia de luz sortear cinco televisões de plasma por mês em troca de sua inscrição no débito automático. Alguma coisa muito importante está acontecendo a ponto de a companhia me acenar com tamanha isca. E tudo que preciso fazer para ganhar uma televisão de plasma é permitir que, todo mês, tirem da minha conta bancária o valor do pagamento da luz, sem me dar a opção de discordar dele: vou pagar, querendo ou não. Se houver algum erro, não é mais possível exigir uma fatura corrigida; primeiro pago, depois discuto.

É o seguinte: se fosse bom pra mim, eles não estavam me oferecendo cinco televisões de plasma por mês, é ou não? Se o débito automático fosse bom para mim, eles estariam é escondendo, não estimulando; eu ia ter que pagar pra fazer. Então, quanto mais eles querem me subornar com o sorteio -- aliás, não é nem com o sorteio: é só com a perspectiva dele, porque não tenho qualquer garantia. É uma promessa vazia --, quanto mais querem me seduzir com o sorteio, mais me convenço de que é uma roubada. Então, estou fora; podem sortear televisões de plasma à vontade, podem sortear coleções completas de Asimov e Clarke e todos os DVDs de Futurama, que só vão me convencer a fugir disso.

Ninharias em troca de minha escravidão eterna. Deparamo-nos com essa escolha todos os dias. Não, obrigado; prefiro eu mesmo trabalhar para comprar a tal televisão. No final, é mesmo a única forma de adquiri-la; todas as outras são ilusão.

Recém-lida: Swamp Thing #84, de Rick Veitch e Tom Mandrake (março de 1989).

13 abril 2008

Você é aquilo que aprova

Na semana passada, acabei de ler Preceitos para uso do pessoal doméstico. Trata-se de uma tradução portuguesa (de João Fonseca Amaral, Lisboa: Editorial Estampa, 1970) que inclui quatro obras de Jonathan Swift: Directions to Servants, A Letter of Advice to a Young Poet, A Modest Proposal e When I Come to Be Old. A edição conta com uma introdução ao Autor, escrita por André Breton, da qual extraio a seguinte passagem:

"Opõe-no a Voltaire (...) a forma de reagir ao espectáculo da vida (...): um, disposto à perpétua chacota, o de um homem que tomou as coisas pelo lado da razão, nunca pelo do sentimento, e que se encerrou no cepticismo; o outro, impassível, glacial, o de um homem que as tomou de maneira inversa, e por isso se indignou com o mundo. Alguém observou que Swift ‘provoca o riso sem dele participar’. (...) Em toda a sua existência, apenas a misantropia é a disposição que não encontra qualquer correctivo e que os factos não desmentem. Ele disse um dia, mostrando uma árvore fulminada por um raio: ‘sou como esta árvore, morrerei pelo cimo’. Como por ter desejado alcançar ‘este grau de felicidade sublime que se chama a faculdade de ser bem enganado, o estado plácido e sereno que consiste em ser louco entre patifes’ (...)."

Assim, Preceitos contém três casos típicos do talento corrosivamente cínico de Swift (a última obra traduzida não segue o mesmo estilo). Permito-me destacar alguns exemplos que bem ilustrarão o senso do gênio. Um deles é justamente o primeiro parágrafo da obra:

"Quando o senhor ou a senhora chamarem um criado pelo nome e ele não estiver presente, que ninguém responda, pois de outro modo não se acabarão os trabalhos (...).

"Não se sujeitem a mexer um dedo seja para que trabalho for, diferente daquele para que foram contratados. Por exemplo, se o moço de estrebaria estiver embriagado, ou ausente, e o mordomo receber ordem de fechar a cavalariça, a resposta imediata deve ser esta: 'Salvo o devido respeito por Vossa Senhoria, nada percebo de cavalos' (...).

"Para ficar a conhecer os segredos das outras casas, conte à confraria os da sua; tornar-se-á, assim, um favorito, dentro e fora de portas, e será tido por pessoa importante."

E por aí vai. Há recomendações para que os empregados não peçam permissão antes de se ausentarem, para não aborrecerem seus senhores: em lugar disso, saiam sorrateiramente para que sua falta não seja notada e, se chamados ao retorno, sempre possam dizer que saíram há coisa de um minuto.

(O conteúdo desta mensagem foi cortado pelo próprio autor. Motivado por considerações políticas, tirei dois parágrafos que estavam aqui.)

Recém-lida: Animal Man #5, de Grant Morrison e Chas Truog, inverno de 1988.

12 abril 2008

Correndo atrás

Não brinco nem exagero quando digo que gostaria muito de um dia ter lido todos os livros de e sobre Jornada nas Estrelas. São várias centenas. Confira aqui.

Se você não é um trekker, é difícil que entenda ou sinta o prazer de ler livros de ficção ambientados no universo criado por Gene Roddenberry. Esses livros só podem ser mesmo apreciados por quem ama essas séries e conhece seus personagens a fundo. De modo geral, descrevem um universo ainda mais rico do que aquele mostrado na televisão, porque não se submetem aos limites do filmável e apelam à imaginação de quem os lê. Também são recheados de referências, que só podem ser compreendidas por quem tem intimidade com as séries. Ao que consta, isso é especialmente verdadeiro nos livros publicados de uns quinze anos para cá.

Faz muito tempo que não leio ficção de Jornada. Especialmente, nunca li nada mais recente do que a quarta temporada da NG, de 1991. Não há mal nisso, porque, se a opinião dos trekkers dos anos 70 bater com a minha, os livros dos anos 80 parecem os melhores. Foram escritos por verdadeiros fãs e vêm do coração. Já os mais recentes também são escritos por fãs, mas têm três desvantagens: (1) os Autores são profissionais; (2) dependem de muitas referências de episódios recentes, que não vi; (3) os Autores parecem fãs mais novos, de um tipo que nutre menos afeto por personagens e histórias e mais por mistério e ação.

Mesmo apesar disso, sinto falta de ler o abundante material publicado desde o final dos anos 90. Tantas obras de ficção, situadas em um ambiente tão familiar a mim, seriam um confortável retorno a uma versão mais simples de minha vida.

Nos últimos minutos, estive visitando as atualizações dos saites de Steven Roby, que lhes havia acrescentado as capas de sua enorme coleção de fanzines dos anos 80. Lá estavam nomes como o de Jean Lorrah, autora de Kobayashi Maru, e desenhos de pessoas que òbviamente os extraíam de seus sentimentos.

A nostalgia é forte. Sinto saudade de um movimento trekker do qual só pude testemunhar o final, no momento em que despontava uma nova juventude, que já não se importava. Perdi a melhor parte: os amadores e apaixonados anos 70 e 80.

No fone de ouvido: Nightwish, End of an Era, ao vivo, incluindo Nemo e Wish I Had an Angel. Há poucos dias, Pink Floyd, Comfortably Numb.

11 abril 2008

Gravidez

Eu não sou trekker porque gosto destas coisas. Eu gosto destas coisas porque sou trekker.

Com atraso de três meses, acabei de ver o teaser de Star Trek XI.

Coisas que me deixam arrepiado:

- as vozes de Kennedy prometendo os anéis de Saturno em 1961, do controlador se despedindo de John Glenn, da Águia pousando, de Tio Neil dando um pequeno passo, e de Spock, “espaço, a fronteira final...”;

- conseguirmos saber qual é a nave antes de o nome aparecer;

- o tema original de Alexander Courage quando vemos o nome da nave;

- a ponte de comando como era na época de “The Cage”;

- as letras “Enterprise” como eram antes de “The Cage”.

Posso fazer uma autocrítica: toda a nostalgia da Era Espacial é voltada para o público americano. Só que convenhamos: aqui no Ocidente, durante a Guerra Fria, a Era Espacial era um produto americano. Foram eles que fizeram aquilo tudo. Se quiser apelar para essa lembrança coletiva, não tem jeito, é americanóide mesmo. Então embarquemos.

O apelo à herança da Era Espacial não é novidade. A lamentável e esquecível série Enterprise tinha essa virtude em sua abertura.

Estou tão descrente quanto a maioria: temo (e considero provável) que o filme não respeite o cânone, não seja um bom filme nem uma boa homenagem. Mas, se corresponder ao teaser, contrariará maravilhosamente essa expectativa cinzenta. 

04 abril 2008

Andando sobre esteiras

Quando estive em viagem no Exterior, tive uma impressão marcante que agora divido com você. É uma impressão que também me vem quando vejo fotografias desses lugares e anúncios em revistas, na Web e na televisão, mas ao vivo é bem mais forte.

Eu olho para fora do veículo na estrada e vejo aqueles enormes cartazes (no Brasil são chamados de outdoors, o que é uma obviedade; lá são billboards). Se estiverem em inglês, eu até entendo as palavras, mas, qualquer que seja a língua, não entendo os cartazes. Nem em português, quando viajo para qualquer outro Estado do Brasil.

O primeiro choque é que não sei do que estão falando. Anunciam empresas das quais nunca ouvi falar, produtos que não conheço, nem sei com que facilidade estão presentes no mercado local. Não sei o quanto deveria ser óbvio eu conhecê-las quando estou ali. Não fazem parte da minha vida, não tenho um referencial nem qualquer familiaridade; não há aquele conforto do reencontro com as coisas conhecidas. Faltam-me parâmetros para orientação e avaliação do que estou lendo. São cartazes vazios de significado para mim e meramente fazem poluição visual na paisagem.

O segundo choque é que não importa o que estão falando. É sempre a mesma baboseira, com as mesmas frases prontas e genéricas: "a vida na sua mão", "com você em todos os momentos", "pensando sempre em você", "você pode esperar mais". Então, na verdade eu sei, sim, o que está escrito, porque nunca é diferente disso.

O terceiro choque é ver como fui capaz de decifrar o código. É ver como é trágico que não haja tanta identidade cultural nos lugares aonde vou. É ver como, em qualquer lugar do mundo, os anúncios são iguais, porque o capitalismo é absolutamente homogêneo, as empresas se comportam da mesma forma, os padrões e sistemas são os mesmos. Com a Nova Ordem Mundial e a globalização, o mundo ficou mais pasteurizado.

Olhem esta fotografia, por exemplo. Isso poderia ser o que eu estivesse vendo de dentro de um ônibus, é a típica foto que eu poderia tirar em viagem. Na verdade, baixei-a do saite de um banco holandês chamado ING e não entendo o que está escrito no cartaz. Mas preciso? O banco poderia ser qualquer banco no mundo, o aeroporto poderia ser qualquer aeroporto do mundo (provavelmente é Schiphol, mas isso não faz diferença). Os anúncios são todos iguais, os cartazes são os mesmos da estrada do Galeão. Provavelmente está escrito algo como "o ING quer falar com você".

Às vezes me incomoda visitar o país dos outros e encontrar as mesmas coisas que vejo em casa.

Recém-lidas:
Swamp Thing #75 (agosto de 1988);
Swamp Thing #76 (setembro de 1988);
Swamp Thing #79 (dezembro de 1988).

03 abril 2008

Estranhas compulsões

Na última terça-feira, entrei na estação do Metrô da Saenz Peña, cerca de uma da tarde. Bilheteria com quatro guichês. Dois com fila, um fechado. Diante do primeiro, uma linha de cinco ou seis pessoas; diante do segundo, outra com três ou quatro. Eu ia entrar na fila de três ou quatro quando fiz o que sempre faço: procurei algum guichê aberto e disponível.

Tinha! Atrás do vidro, a moça estava sòzinha, olhando para fora meio desolada. Imediatamente, em vez de me enfiar atrás dos outros, fui ali, fui o primeiro a ser atendido.

O detalhe é que ela não estava abrindo naquela hora, não. Simplesmente ninguém a procurou! Até perguntei, por que que não tem fila? Mais intrigada do que eu, retrucou, sei lá, vai ver que não vão com a minha cara.

É mesmo muito engraçado: diante de uma fila, as pessoas logo procuram garantir o seu e vão entrando sem questionar. Como em tudo na vida, sempre acaba custando mais caro a miopia de só enxergar o que está na sua frente e de se contentar com o que se consegue sem ter que ter muito trabalho. A *primeira* coisa que faço antes de entrar em uma fila é me certificar de aonde ela vai dar, e se não tem outra mais curta. Só depois me torno o último.

Do alto de meus recalques, fantasio e festejo que as pessoas da fila menor, bem ao meu lado, ficaram revoltadas ao me ver ser atendido antes delas, ofendidas ao me ver furar.

30 março 2008

Conversas furtadas

O título deste post é uma referência a este belogue. Quando estou empacotado no metrô, mal podendo me mexer entre braços e bolsas, não tenho o que ler nem em que me concentrar. Então, perdoem-me se acabo ouvindo a conversa alheia (de todo modo, não deviam falar tão alto).

Algumas semanas atrás, ouvi um camarada explicar a outro que nem sempre houve Internet. Mais que isso: o ouvinte parecia não saber, então o falante explicava, que o Google não nasceu junto com a Internet e que, alguns anos atrás, havia vários outros mecanismos de busca, hoje desconhecidos.

Essa conversa me chocou levemente por várias razões. Uma delas é a mais óbvia, que a memória do mundo é curta e a juventude realmente nasceu ontem. Ainda me lembro de quando o Yahoo! era um mecanismo de busca dos mais importantes e de quando o Altavista se tornou o mais popular. Lembro que havia vários saites disputando a preferência dos internautas: Lycos, Hotbot, Askjeeves... Já um indício de que estou ficando senil é que não lembro qual era meu mecanismo favorito antes de o Altavista ganhar essa importância.

Na época em que a Internet se comercializou (1996), os mecanismos de busca não eram equipados com spiders nem crawlers, e ainda me lembro de quando cadastrei a página do JETCOM no Yahoo! -- porque era assim que você ganhava visibilidade nesses buscadores.

Mas outra razão que me chocou está fora da Rede. Quando fiz primeiro e segundo graus, não havia Internet. Então, a gente ia à biblioteca da escola (tive muita sorte de estudar em um colégio que tinha uma biblioteca enorme à disposição dos alunos), ou usava os livros que tinha em casa, buscava o conhecimento em livros, revistas e enciclopédias e fazia resumos do que havia lido. Não havia "controlcê-controlvê"; então, até mesmo quem, desonestamente, copiava ipsis litteris também estava aprendendo.

Já hoje, o que vemos? O jovem tem que pesquisar um assunto. Então, ele vai lá no Google, joga a palavra-chave e copia o primeiro saite que aparece, não se dando ao trabalho de sequer ler. Como todo velho resmungão, cabe-me reprovar o procedimento dos mais novos e dizer que a juventude está perdida.

A terceira lição que me fica é sobre mim mesmo. Foi só em 2003 que passei a usar a Internet como principal meio de pesquisa, o que mostra meu retardo em aderir às novas tecnologias. Em compensação, assim que isso aconteceu, pràticamente tudo eu procuro na Internet primeiro, e só vou à literatura quando realmente preciso verificar alguma coisa mais importante. A primeira coisa que faço é ir ao Google e jogar o conjunto adequado de palavras-chaves: não só a primeira e mais óbvia mas, também, mais uma ou duas para contextualizar.

(De certo modo, buscar produtivamente no Google é uma arte: você tem que saber o que jogar para ter um retorno rápido e correspondente ao que procura. Para isso, o ideal é jogar palavras que (1) com certeza têm que aparecer em qualquer texto que trate do assunto e (2) com certeza não vão aparecer em textos que não tratem do assunto. A próxima coisa é pegar a relação de saites que vem como resposta, dizer logo de cara quais servem e quais não servem, e já escolher o saite onde o sucesso é mais provável, tudo isso antes mesmo de entrar em qualquer um deles.)

Hoje em dia, quando alguém tem acesso à Internet mas mesmo assim vem me perguntar alguma coisa, fico escandalizado que essa pessoa não tenha pensado, antes de tudo, em fazer uma busca no Google ou até na Wikipedia. (Bom, na verdade, muitas vezes pensaram sim. É só que é bem mais fácil gastar o meu esforço do que o próprio. O que mais se vê é gente fazendo perguntas que já estão na FAQ ou que a primeira googlada já mostra em meio segundo.)