30 dezembro 2008

Homenagem maior não há

Existe um escritor de quadrinhos chamado Marv Wolfman. Junto com o desenhista George Pérez, Wolfman foi o criador de uma série em doze capítulos publicada pela DC Comics em 1985 e chamada Crise nas Infinitas Terras. Passados 23 anos, essa série ainda é unanimemente reconhecida como o momento de maior impacto em todos os títulos da editora. Com todos os defeitos que lhe atribuem, os leitores ainda a comentam, ainda a analisam, ainda a tomam como referência.

Existe um website que é uma referência valiosa sobre a Crise. Chama-se The Annotated Crisis on Infinite Earths, é mantido por Jonathan Woodward e disseca as edições da série, esclarecendo referências e comparando passagens.

Dia desses, eu estava lendo o belogue de Wolfman quando vi que ali havia um linque para a Annotated Crisis. De um ponto de vista objetivo, trata-se de um Autor apontando para uma obra de referência útil para se ler a dele próprio, o que beneficia a divulgação dessa obra e, portanto, do artista.

Mas a primeira leitura que fiz foi outra. Coloque-se no lugar de Woodward: o criador da obra comentada está mostrando seu reconhecimento pela qualidade do trabalho do comentarista. Está dizendo: em toda a Internet, não há maior (ou melhor) autoridade sobre o que eu fiz do que este sujeito.

Eu não conheço homenagem maior. Se Woodward souber disso, estará plenamente justificado em se sentir o máximo.

Recém-lida: Superman #90 (junho de 1954), terceira história.

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29 dezembro 2008

Intimações do Ministério Público da Justiça

Eu ia escrever sobre outra coisa hoje, mas fica para amanhã. Hoje quero comentar um spam recebido por meu colega Ismaga (não é seu verdadeiro nome).

Começa dizendo que é intimação. Neste país de otoridades e abusos, intimação assusta qualquer um. Aí, o remetente se identifica como "Procuradoria Regional da Justiça".

Vamos analisar:

1 - Se é de Justiça, já é estadual, então nunca teria o nome de "Regional".
2 - "Da" Justiça não: "de" Justiça. O idiota que escreveu não sabe a diferença, pra ele é tudo Justiça, Poder Judiciário, otoridade. Mas Ministério Público nunca é "da" Justiça. Só pra você saber: a justiça do nome das procuradorias não é o Poder Judiciário ("a" Justiça), mas o valor moral, sem artigo. Procurador = pro curador, ou seja, alguém a favor de tomar os cuidados com. Eles cuidam da justiça, é o que diz o nome.

Em outras versões, o texto diz que é do "Ministério Público da Justiça" -- órgão que, aliás, NÃO EXISTE.

O texto prossegue, dizendo ser do Ministério Público do Trabalho e exigindo seu comparecimento a depor em Brasília.

Continuemos:

3 - Ministério Público estadual ou do Trabalho? Se é Procuradoria de Justiça, é estadual.
4 - Brasília??? Mas a Procuradoria era Regional. E como é que Ismaga, estando no Rio, seria chamado a depor em Brasília? Pra isso eles mandam carta precatória, e o procurador daqui é que te ouve, não o de lá.

Diz o email que tem fundamento nos artigos 137 e 119, VI, da Constituição federal.

Prossigamos:

5 - O artigo 137 versa sobre estado de sítio. BASTA OLHAR. Será que o Ministério Público quer ouvir Ismaga antes de pedir ao presidente da República que decrete estado de sítio?
6 - O artigo 119 versa sobre Justiça Eleitoral, não do Trabalho. E não tem inciso VI; pára no II.

Finalmente, quando o assunto é sério, o Poder Público NUNCA manda email. É sempre pelo correio ou até pessoalmente. Pela simples razão de que a mentalidade ainda é a do papel.

Claro que termina dizendo "clique aqui".

E tem também aqueles emails onde um banco supostamente ameaça tirar seu acesso à Internet (sim, isso mesmo: você vai ser desconectado), todos escritos em miguxês. Essa é uma fraude primária, em que já não cai uma criança de três anos. Ainda mais que, quando você desliza o mouse em cima do "clique aqui", aparece o endereçamento real: saites obscuros e escusos de roubo de senha. Normalmente eu recebo esses de bancos onde não tenho conta, então estou ca*ando se eles tirarem meu Internet banking.

Se alguém ainda cai, e depois tem sua senha roubada, sinceramente, eu acho que é BEM FEITO. Bem feito pela preguiça de pensar, pela ignorância voluntária, por achar que comparecimentos a audiências se resolvem com um mero clique -- preguiça de ir até lá também --, por serem analfabetos no uso da Internet, que não é para crianças.

Recém-lidas:
Action Comics #23 (abril de 1940), primeira história;
Green Lantern #16 (outubro de 1962).

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23 dezembro 2008

Quem vigia os vigilantes

Fui ver Body of Lies (Rede de Mentiras) no sábado. Fiquei decepcionado. Eu esperava que fosse uma história onde todo o mundo mentisse para todo o mundo, onde não se pudesse confiar em ninguém, onde o DiCaprio fosse traído justo quando estivesse no meio da lama e depois tivesse que se virar sozinho -- e não foi nada disso. Bem, foi um pouco disso, mas pouco. Permita-me colocar do seguinte modo: eu esperava certos clichés conforme os últimos quinze anos de cinema nos têm levado a esperar, mas os clichés foram os de cinqüenta anos atrás (oito dias para a queda do trema, e contando). -- [Apidêite em 07/01/2009: a versão original desta mensagem dizia "queda da crase". É que eu sou tão obcecado com crase que confundi as inguinoranças. Foi mal aí.]

Também esperava mais helicópteros, várias cenas de helicópteros, como sugeria o trailer -- e só teve uma. Além disso, o mocinho cometeu um erro grave e tinha que pagar por ele, mas, mesmo assim, acabou sendo ajudado quando não merecia. Estou profundamente decepcionado. Se soubesse, não teria pago os R$ 17 do ingresso no Cinemark. O lado bom foi ter tido a oportunidade de escolher lugar, já marcado antes de entrar, igual a avião.

O lado ainda melhor foi o que veio antes do filme: trailer de Watchmen! Assim que apareceu a primeira cena, antes de o Dr. Manhattan explodir em pedacinhos, eu já tinha reconhecido que era ele. Está muito igual ao quadrinho! Várias cenas estão perfeitamente reconhecíveis! O clima está igual ao do original! Os personagens estão iguais! Maneiríssimo! Tenho que ir ver! Urru!

Recém-lida: Green Lantern #15 (setembro de 1962).

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22 dezembro 2008

Resmungo sortido de Natal (4): diplomas escusos

Voltando à filipeta que já comentei aqui, tem mais uma coisa. Dizia ali que a academia estava sob a responsabilidade de uma certa profissional, “Dra. Fulana de Tal -- formada em Educação Física, especializada em...”. Peraí. Formada onde? Só diz em quê. Se a faculdade fosse boa (ou, pelo menos, conhecida), ela diria qual foi. A conclusão que tiro é que a “doutora” tenha se formado em alguma faculdade obscura, cujo nome prefere esconder por vergonha. Então, seu anúncio funcionou ao contrário: ali é que não quero mais ir.

Recém-lida: Green Lantern #14 (julho de 1962).

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19 dezembro 2008

Resmungo sortido de Natal (3): metodologias

Sem sacanagem: o que significa a palavra metodologia? Logia, logos, discurso. Então, metodologia é o discurso, o estudo, a ciência que estuda o método. Você pega um método e começa a analisá-lo, interpretá-lo, avaliá-lo. Essa atividade é a metodologia.

Quando você está descrevendo um método a alguém, você está descrevendo o método, não a metodologia. Metodologia é o que você faz, é o que você está fazendo; método é a coisa que você está expondo, explicando, é a coisa que você está trazendo.

Estou de saco cheio dos acadêmicos tecnocratas cujas monografias começam com o seguinte resumo: “... expondo uma metodologia de classificação da produção tecnológica...”. Não. Vampará com isso. O que está sendo exposto é o método de classificação, não a metodologia. As frases estão sendo alongadas desnecessariamente.

Mais um centavo para o Tal Shiar.

Recém-lida: Green Lantern # 13 (junho de 1962).

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18 dezembro 2008

Resmungo sortido de Natal (2): neogramática

Existem algumas campanhas por aí, “doe dinheiro para o abrigo dos cegos”, “faça uma doação para as vítimas da enchente”, “clique aqui e doe um prato de comida”.

Pois pode escrever aí: a partir de agora, pra cada crase proibida que eu encontrar, cada há-do-verbo-haver que eu encontrar escrito como “à”, cada vírgula entre sujeito e verbo, cada erro de concordância com que eu me deparar, vou doar um centavo pràlguma ditadura bem maligna, ou pros fundamentalistas islâmicos, pro IRA, pro Tal Shiar, sei lá pra quem. Eles vão ficar milionários.

Recém-lida: Green Lantern #12 (abril de 1962).

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16 dezembro 2008

Resmungo sortido de Natal (1): o trem do Inferno

Qualquer um que ande de metrô no Rio de Janeiro sabe o suplício que é. Um aperto desgraçado, você não consegue entrar no vagão. Outro dia, quando cheguei ao Estácio e aquele mundo de gente saiu por um lado, pelo outro entrou uma moça que quase caiu pra trás com -- palavras dela -- o cheiro de suor que havia ficado no ambiente. Verdade. Até eu, que estivera imerso ali, estava sentindo.

Outro detalhe curioso é a quantidade de retardados que reclama que “o ar está desligado” (ou o equivalente: “está só na ventilação”). É incrível. O vagão foi projetado para levar, sei lá, oitenta pessoas, mas está levando, digamos, duzentas. O imbecil realmente espera que fique geladinho do mesmo jeito. Não percebe que, se ele ainda não morreu sufocado, é que o ar está ligado. Não percebe um ventinho que percorre sua cabeça, mais frio do que a sauna à sua volta. No cérebro de ervilha do hipoplausibilóide, ele está sentindo calor, portanto o ar está desligado. Dá vontade de ligar uma bomba de vácuo na boca do desgraçado e perguntar se o ar já foi ligado ou se está só na ventilação.

Enquanto isso, em cada uma das estações, vários cartazes mostram modelos sorridentes sob slogans do gênero “Metrô Rio. A vida é melhor aqui”, mais conforto, mais feliz, orgânico e sustentável. Estou convencido de que esses cartazes têm a única serventia de debochar do cliente.

Pois, não bastasse tudo isso, na estação Saenz Peña, nesse último sábado, um barulho infernal veio somar-se à tortura apavorante. Uma TV de LCD e umas caixas de som faziam propaganda da Sky exibindo um videoclip de soul music, enquanto um par de cadeiras de plástico supostamente servia como ponto de vendas, aliás desocupado. O som estava altíssimo, tomava todo o ambiente, deslocava meus pensamentos, martelava pessoas e mobília.

Será possível que a Sky realmente acredite que, torturando meus ouvidos, vá me convencer a comprar algum pacote? Se alguém me faz mal, não vou querer negociar com aquela pessoa; vou querer é distância dela. Mas fui advertido por quem estava comigo: os imbecis só se sentem confortáveis quando há barulho alto. Então, para a maioria dos imbecis (e para a infeliz que, depois eu vi, chegou para ocupar aquele posto), o barulho é agradável.

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10 dezembro 2008

Privacidade na Internet

Preciso mandar um email pra um colega do curso de Engenharia, o [name withheld by Blogger for privacy]. Joguei o nome dele no Google, joguei partes do nome, acrescentei o nome da companhia onde ele trabalha, joguei o nome e a especialidade do pai dele (vai que consigo mandar email para o pai dele redirecionar), tudo sem sucesso.

Achei-o no LinkedIn. Só que, para mandar mensagem para ele pelo LinkedIn (que não mostra o email), tenho que pagar US$ 30 de anuidade ao LinkedIn.

Até que encontrei o 123people, um saite onde você digita um nome e ele mostra tudo que achou vinculado àquele nome: belogues, comentários em belogues, mensagens no ICQ, vídeos, páginas da Web, ... Uma espécie de "Google de pessoas", mais específico. Nem assim adiantou.

Taí um cara que sabe preservar sua privacidade na Web. Não é coisa fácil por estes dias.

Mas o 123people mostrou que a Amazon tem uma wishlist do meu colega. Felizmente, alguns livros que ele quer são livros que li (ou estou lendo) e que recomendo: 1984, Fahrenheit 451, Admirável mundo novo. Então, que fiz? Comprei-lhe Fahrenheit 451 e pedi que a Amazon colocasse um recado junto com o presente, recado no qual consta meu email. Custou só US$ 17, que a informação de que preciso vale para mim. E ainda avisei que tenho um exemplar sobrando de 1984 (edição americana, não britânica como a que estou lendo), que não preciso comprar da Amazon.

Então, olha só que legal: paguei $17 em vez de $30 e ainda vou deixar meu colega feliz. E ele não precisa me dizer o email dele.

Essa foi a boa notícia de hoje.

Recém-lidas:
Green Lantern #8 (outubro de 1961);
Green Lantern #9 (dezembro de 1961).

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05 dezembro 2008

Colapso nos transportes

Ontem, o metrô parou na estação Saenz Peña. O locutor avisou, “estação terminal, todos os passageiros deverão desembarcar”.

Todo o mundo saiu rápido, enquanto as luzes eram apagadas e os seguranças já percorriam o trem para garantirem que ninguém permanecesse a bordo. Quando foi minha vez de sair, percebi a plataforma cheia de caminhantes, então esperei alguns segundos antes de aparecer um vazio na multidão, para poder pisar fora.

Imediatamente, senti um golpe atrás dos joelhos. Caí. Do chão, vi o guarda ainda brandindo o cassetete, apontando a porta e gritando, “sai! levanta do chão e sai agora!” Tentei me apoiar em um banco para me levantar, mas outro guarda me apanhou pelos ombros e me atirou para fora, onde, todo desequilibrado, não sei como não acertei ninguém.

Enquanto eu me recumpunha, ouvi mais de um transeunte comentando, “bem feito, quem mandou demorar a sair do trem?”, “é nisso que dá, ficatrapalhando asotra pessoa”, “esses aí só qué ficá dando trabaio pros guarda”.

Essa foi uma história de ficção. Mas, se você chegou a acreditar que fosse real, é que a narração, de algum modo, estava batendo com sua expectativa. Então concordamos que tem alguma coisa errada com o metrô -- e com as pessoas também, cordeirinhos obedientes em Metrópolis (de Fritz Lang, não de Siegel & Shuster). Não?

***

Agora uma história real, também acontecida ontem. Dentro do 229 parado, uma mulher berrava no celular. Todos conseguíamos ouvir detalhadamente seus planos de encontrar uma pessoa no Shopping Tijuca, onde tinha que tirar dinheiro, e depois jantar em casa da mãe.

Os gritos incomodavam, mas não foram o pior. O pior foi ouvi-la pronunciar nìtidamente “Saens PeNa”. Juro pra você: toda vez que escuto alguém dizer “Saens PeNa”, sinto um impulso homicida. Não sei o que é pior: se isso, se crase onde não pode ou se vírgula entre sujeito e predicado.

Pra quem não é do Rio, um serviço de utilidade pública: Roque e Luis Saenz Peña, pai e filho (não sei qual é qual), foram presidentes da Argentina no início do século XX. Em homenagem aos dois, a principal praça da Tijuca foi batizada Saenz PeÑa.

Recém-lidas:
Green Lantern #7 (agosto de 1961);
The Flash #123 (setembro de 1961).

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29 novembro 2008

Huguinho 2

Ontem, a caminho do trabalho no ônibus, ouvi e depois vi um helicóptero Bell "Huey" atravessar baixinho a rua Haddock Lobo (do Rio de Janeiro, não de São Paulo). O ruído era aquela característica batedeira de duas pás. Imediatamente pensei, que faz um helicóptero da FAB por aqui e tão baixo? E lembrei-me de como a FAB está desatualizada, com helicópteros obsoletos e monomotores dos anos 60, quando meio mundo já usa o Black Hawk, este mesmo também já não considerado novo.

A visão e, principalmente, o sonido me remeteram à guerra do Vietnã, chamada de "a guerra do helicóptero" no documentário Choppers, do Discovery Channel. Lembrei-me de todos aqueles filmes, Platoon, Full Metal Jacket, documentários, a indissociável imagem dos Hueys com um fundo de floresta. E fiquei pensando, puxa, aquela guerra foi séria mesmo, etc.

Qual não foi minha não-surpresa quando, vendo as manchetes dos jornais hoje, descobri que realmente era um Huey, mas não o mesmo que estávamos acostumados a ver. A Polícia Civil agora ostenta orgulhosamente sua nova aquisição: um Huey II -- novo modelo que a Bell criou há uns anos quando descobriu que muita gente tinha Hueys fiéis dos quais não queria se desfazer ao mesmo tempo em que queria modernizar a frota sem gastar dinheiro. São Hueys recondicionados, com células zeradas e reforçadas, transmissão e rotores trocados e nova aviônica. São helicópteros militares, mas não são helicópteros de combate. Já faz alguns anos que leio sobre seu lançamento na AIR International. E agora descubro que a Polícia os está usando para sua "guerra ao crime" (as if). Os jornais já apelidaram este assim-chamado Águia 3 de Caveirão do Ar, enquanto pelo menos um jornal acusa a Polícia de usar uma "carcaça do Vietnã".

Tècnicamente, o jornal está certo, mas demonstra uma certa falta de conhecimento sobre quanto se pode aproveitar uma aeronave ainda em boas condições. O material é sim obsoleto, mas não precisamos de helicópteros raiteque para combater molambos com fuzis. Isto aqui não são os campos de batalha da Europa Ocidental, onde se lutaria a abertura da III Guerra Mundial. Mais uma vez, ataco a premissa: é fácil criticar que a escolha de helicóptero está mal feita; antes, devia ver-se é se é caso de usar helicópteros com fuzis como "arma contra o crime". Assalta-me o pensamento de que tudo isso é uma futilidade, um desperdício de dinheiro público. A "guerra ao crime" é toda ela uma farsa. Aqueles que não são cínicos são iludidos que não percebem que, mais uma vez, a guerra está em outro lugar.

***

Às vezes fico refletindo sobre as ambigüidades da língua (aproveite o trema enquanto ele ainda existe). E "desconstruo" frases, constato a dependência de palavras sobre palavras e de palavras sobre contexto. Cada vez, observo que nada tem significado próprio. Que, devidamente dissecadas, as frases são todas vazias, que é o ouvinte ou leitor que as preenche. Mais concluo: que nunca estamos dizendo nada. Ninguém nunca diz nada. Então, melhor nem tentar dizer nada, que a comunicação é impossível. Todos recolhidos a seus silêncios, e sigo calado. Aproximo-me do texto de Cosmologia de Lawrence Krauss na Scientific American, onde ele demonstrava que, para viver mais, a solução seria não interagir. Toda ação só aumenta a entropia, o que é uma obviedade e, dita, também aumenta a entropia.

***

Recém-lida: Green Lantern #6 (junho de 1961).

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27 novembro 2008

Não seja prolixo

"Eu, SENHOR ATOZ, identidade 31415926-5, declaro, para os devidos fins, que fui prolixo na data de hoje, 27 de novembro de 2008."

ou

"Fui prolixo em 27/11/2008." -- (Ass) Sr Atoz

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Diálogo que acabei de ter com o Porcão

Esta foi de matar. Menos de uma hora atrás, liguei para o restaurante Porcão, no Rio de Janeiro.

-- Central de Reservas, boa tarde.

-- Boa tarde. Meu nome é João Paulo e eu quero fazer uma reserva.

-- Pois não, com quem eu falo?

E há quem tenha fé na humanidade. Alguns fé demais, outros fé de menos.

***

Já não lembro quem me disse isto, mas concordo plenamente: se alguém lhe disser (sem estar brincando) que, "na prática, a teoria é outra", é que não estudou a teoria.

Recém-lida: Green Lantern # 5, abril de 1961.

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24 novembro 2008

Resenha: Nineteen Eighty-Four

No ar, minha resenha de Nineteen Eighty-Four, de George Orwell.

Recém-lidos:
Foundation, de Isaac Asimov;
The Hobbit, de J.R.R. Tolkien;
Superman #1 (junho de 1939), trecho;
Detective Comics #33 (novembro de 1939), primeira história, trecho;
Look (fevereiro de 1940), trecho;
Batman #5 (primavera de 1941), terceira história;
Sensation Comics #1 (janeiro de 1942), primeira história;
Superman #30 (setembro de 1944), quarta história;
Flash Comics #86 (agosto de 1947), primeira história;
Wonder Woman #28 (março de 1948), primeira história;
Flash Comics #104 (fevereiro de 1949), segunda história;
Superman #65 (julho de 1950), terceira história;
Batman #62 (dezembro de 1950), primeira história;
Wonder Woman #99 (julho de 1958), segunda história;
Wonder Woman #108 (agosto de 1959), primeira história;
Showcase #22 (outubro de 1959);
Superman #132 (outubro de 1959);
Showcase #23 (dezembro de 1959);
Showcase #24 (fevereiro de 1960);
Green Lantern #1 (agosto de 1960);
Green Lantern #2 (outubro de 1960);
Superman #141 (novembro de 1960);
Green Lantern #3 (dezembro de 1960);
Green Lantern #4 (fevereiro de 1961).

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23 novembro 2008

Queda de avião em Pernambuco

O bimotor que caiu em Pernambuco hoje à tarde (notícia com mais detalhes neste jornal do Piauí do que em qualquer outro lugar até agora) era um Beech 200 Super King Air. Isso dá para descobrir bastando ver a matrícula do avião (terminada em OSR) nas fotos do pós-desastre e, depois, clicando aqui.

Impressionante como nenhum jornalista descobriu isso sozinho até agora.

21 novembro 2008

Retorno a Krypton

Conforme é do seu conhecimento, estou lendo quadrinhos antigos da DC. Duas edições que li há pouco são Superman #132 (outubro de 1959) e #141 (novembro de 1960), republicadas em Superman 70 anos #1: as grandes aventuras do Superman (setembro de 2008).

Eu julgava que, durante a Era de Prata (1956-aprox. 1970), não houvesse muitas histórias ambientadas em Krypton. Descobri que provavelmente estava enganado. Superman #132 apresenta a vida alternativa que Kal-El teria tido se aquele planeta não houvesse explodido; e, em Superman #141, uma viagem no tempo leva o Super-homem a viver nos últimos dias de seu mundo natal.

Quando John Byrne restabeleceu o Super-homem em 1986 e em particular nas minisséries Man of Steel e The World of Krypton, ele representou Krypton de uma forma bastante inovadora, que é a oficial desde então: um planeta árido, com grandes extensões inóspitas entre cidades feitas de torres de vidro. A tecnologia supria todas as necessidades dos habitantes, que podiam dedicar-se à Filosofia, Artes e Ciências como naquele ideal grego reproduzido no episódio “The Cloud Minders”, de Jornada nas Estrelas. Ao mesmo tempo, esses habitantes haviam se tornado pessoas tão estéreis quanto seu planeta. Seguindo o mesmo padrão dos vulcanos, os kryptonianos foram retratados como racionalistas reclusos organizados em clãs, restringindo ao mínimo o contato entre si e a nada o contato com a Natureza, e mantendo costumes anacrônicos com uma devoção religiosa.

Eu já sabia que essa representação diferia bastante de tudo que viera antes, mas não imaginava seu radicalismo. Nas edições de 1959 e 1960, Krypton é uma repetição da idéia, que então se fazia, do que viria a ser a América do futuro. Tal como em tantas histórias de ficção científica barata do período, o planeta de Kal-El era uma versão futurista da pujante e deslumbrada sociedade americana do pós-guerra, onde os recursos pareciam ilimitados e o progresso, destinado a continuar melhorando a vida e sustentando a estrutura social vigente. Tudo continuaria sendo feito como era, apenas com mais conforto.

Assim, a família kryptoniana era constituída pelo Pai, que ia trabalhar de manhã e voltava à noite com sua pastinha; pela Mãe, dirigindo o trabalho dos robôs domésticos; e pelos 2.3 filhos, freqüentadores da escola e acompanhados de seu cãozinho. Os homens e crianças vestiam aqueles trajes típicos de quadrinhos futuristas da época, com peças monocromáticas de cores berrantes: p.ex. camisa amarela, calça vermelha, mangas verdes e um triângulo azul no peito; e sempre aquele arco em volta de cada ombro. E botas, claro. As mulheres usavam sempre penteados, vestidos caros e brincos discretos, todos conforme a moda dos anos 50.

Exceto por algumas curvas bizarras, os edifícios e suas funções eram iguais aos das cidades da Terra. As atividades econômicas eram aquelas de maior prestígio ao tempo do Presidente Eisenhower: tudo que envolvesse a Engenharia, motor do progresso continuado. A escola baseava-se no mesmo paternalismo que conhecemos, com turmas de obedientes escoteiros repetindo as técnicas expostas em quadros-de-giz por seus doutrinadores, sem pensamento crítico. Jor-El era cientista em uma base de mísseis (e eu pergunto por que Krypton teria uma base de mísseis, já que as guerras estavam abolidas e a tecnologia espacial era incipiente).

Quando o Super-homem chegou a Krypton em Superman #141, deparou-se com uma filmagem de ficção científica local, onde o diretor, as câmeras e a técnica eram idênticos aos estereótipos de Hollywood. As poucas diferenças em relação ao mundo do leitor eram apenas as mesmas extrapolações tecnológicas de sempre: carros voadores, comida em pílulas, materiais inquebráveis; e alguns exotismos alienígenas, como vulcões jorrando ouro e animais que comiam metal. O trabalho da dona-de-casa era diminuído por uma cozinha onde bastaria apertar um botão e a comida viria pronta da parede — mas não de graça.

De certo modo, esse cenário ingênuo era inevitável. Na sociedade americana do início dos anos 60, a DC não teria conseguido vender quadrinhos que não tranqüilizassem o jovem leitor espelhando o mesmo referencial que ele tinha à sua volta. Não poderia estimular a imaginação para fora do ideal positivista necessário a se construir uma América dominadora onde se valorizava o conhecimento técnico. Além disso, quadrinhos eram considerados uma leitura exclusivamente infantil, que não poderia provocar questionamentos sobre a sociedade que retratavam, sob pena de trazer sobre si os aldeões com suas tochas e forcados. Ideològicamente, as histórias de super-heróis tinham que inserir-se no processo pedagógico validando a estrutura social desde cedo ao demonstrar seu triunfo em um mundo seguro onde todos seriam felizes e super-heróis benfeitores poderiam voar.

***

Ao ler histórias de super-heróis dos anos 50 e 60, minha primeira reação foi de tédio. Por tanto tempo eu as quisera ler, idealizando-as por não conhecê-las, mas, finalmente me deparando com elas, a ilusão desfez-se em desapontamento. Apesar disso, comecei a analisar sua estrutura e descobri um discurso subjacente à ação e ao suspense: os vilões eram pessoas maliciosas com planos de subverter a ordem, ora cometendo crimes patrimoniais, ora dominando uma população, ora espionando segredos militares. Os heróis atuavam no sentido de proteger essa ordem, interrompendo atos criminosos e entregando os malfeitores às autoridades. Em nenhum momento essas autoridades eram questionadas, nem os superpoderes eram empregados de forma a desrespeitá-las.

Portanto, não é de espantar que o público tenha sido sacudido de seu entorpecimento quando, em 1970, Dennis O’Neil lançou uma seqüência de histórias onde o Lanterna e o Arqueiro Verde percorriam os Estados Unidos revelando injustiças que aquela nação preferia não enxergar. Racismo, miséria, poluição, superpopulação, drogas e pedofilia, tudo isso foi apontado em meia dúzia de edições da revista Green Lantern que, até hoje, são lembradas como clássicas. Ali se discutia como, ao manter a Ordem, o Lanterna Verde contrariava a Justiça, em um debate que a Filosofia do Direito propõe desde Aristóteles, ou mesmo antes.

Para a maioria dos comentadores na Web, o fim dos anos 60 marca o começo da Era de Bronze dos quadrinhos, que, para a minoria (eu incluído), melhor deveria ser chamada de segunda metade da Era de Prata. O momento já era outro: a sociedade americana tinha sido confrontada com sua segregação racial, tinha visto os assassinatos de Kennedy e Martin Luther King e pedia o fim do massacre de seus filhos no Vietnã; as feministas queimavam sutiãs; e a fumaça de Woodstock desafiava o sistema. Os quadrinhos, sempre fruto de sua época, tornavam-se mais um canal de questionamento, incorporando um realismo agressivo que se maximizaria no cinzento final dos anos 80.
***
E a você sugiro este vídeo, que demonstra do que a criatividade ainda é capaz na Web. Por favor, não redimensione a tela! É um filme bobinho, mas deixou-me intrigado: como é que fizeram? Acho que foi com um pouquinho só de programação em Java (ou algum script similar). Considerando que o vídeo deve rodar em plataformas Linux e Mac tanto quanto em Windows, imagino que nem passe pelas DLLs.

19 novembro 2008

Pergunta 1: glicose e frutose

A Bárbara Axt propôs que fizéssemos [pelo menos] uma pergunta por dia. A minha de hoje é a seguinte: se glicose e frutose são isômeros, por que uma é reputada menos calórica do que a outra? Pergunta derivada (que, portanto, não conta): por que diabético pode comer frutose mas não pode comer glicose?

***

Recebi um panfleto de uma academia de ginástica. Falava em estimulação russa, mas não dizia o que era isso. Então, estou autorizado a imaginar:

- Estimulação russa é vodka?

- Estimulação russa é uma técnica de interrogatório inventada pela KGB, envolvendo porões e choques elétricos?

***

Apidêite do apedeuta

Acabo de verificar (onde mais?) que a frutose não é menos calórica.

03 novembro 2008

Estou por conta

Prometo a você unilateralmente: nunca vou usar a expressão "por conta" com o significado de "por causa". Já estou farto: agora, todo o mundo só quer dizer "por conta"; ninguém mais diz "por causa". "Por conta das minhas férias, passo a tarefa para você", "... o trânsito ficou lento por conta da chuva".

Chega. Não eu. Esteja tranqüilo: não vou cobrar de você. Mas comprometo-me, de hoje ao fim dos tempos, a nunca perpetuar essa prática que já vitimou famílias, trouxe fome, guerra e peste, aqueceu o planeta e causou choro e ranger de dentes.

31 outubro 2008

Síndrome da paisagem

Esta mensagem da Bárbara Axt estimulou-me a vir repetir um tema antigo que me é muito caro. Existem livros demais, filmes demais, quadrinhos, artigos de revistas, da Web, coisas demais para ver, e não dá tempo de aproveitar tudo no tempo de uma só vida. Chamo a isso de síndrome da paisagem: sou como um cego, sabendo que está diante de uma paisagem mas incapaz de admirá-la. Posso ler um zero vírgula por cento de tudo quanto há, mas quase tudo vai escapar.

Como se isso não bastasse, cada obra que você consome também o estimula a pensar, comparar, correlacionar e, se tiver disposição, escrever mais. Então, só acumula, acumula, acumula. A produção vai ficando gigante, bola de neve mesmo. Em Engenharia, a gente diz que é um caso de retroalimentação positiva: o resultado do processo contribui para ampliar a causa do mesmo processo. (Na retroalimentação negativa, o resultado diminui a causa.)

Um problema é onde e como armazenar toda a produção, que, em princípio, é o legado da humanidade, com tudo que tem de bom e de ruim. Escolher o que preservar, e o que não, é basicamente uma questão ideológica, então presumo guardar tudo. Outro problema é como indexar para recuperação: não adianta você ter a informação e não conseguir chegar até ela, porque isso equivale a não tê-la.

Um terceiro problema, este pessoal mais do que institucional mas comentado pela Bárbara, é você ter tempo de organizar seus pensamentos e deitar a pena ao papel. No meio da azáfama, acabamos sufocados e não conseguimos sequer terminar as tarefinhas que começamos. Ela está em busca de uma solução e eu, que compartilho a dor, desejo-lhe sucesso.

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Mudando de assunto, hoje eu caminhava em frente ao Centro Cultural da Justiça Federal quando vi a placa em (suposto) inglês para benefício de turistas. Só olhei de relance, mas sei qual é o conteúdo: a placa comenta o próprio prédio, que, històricamente, foi a sede do Supremo Tribunal Federal. No meio do texto, meu olho bateu em "... The Hearing Room was..." e pensei, "hearing room"? Sala de ouvir? Traduzindo de volta, entendi que é a sala de audiências, courtroom ou, sendo benevolente com o tradutor, audience room. Fico pensando no pobre turista, deparando-se com uma sala que escuta. Sabe como é, as paredes têm ouvidos.

28 outubro 2008

Mão-de-obra não especializada

Eu na Barnes & Noble, fechando uma compra de US$ 125. A moça do caixa anuncia que, se eu tiver um cartão da loja, tenho 10% de desconto, pergunta se tenho um (não tenho) e se quero fazer. Quanto tem que pagar? pergunto. 25 dólares. Aí eu disse (deveria ter só pensado, mas cometi o erro de falar em voz alta), pago 25 para ter um desconto de pouco mais de 12...

Ao que ela me interrompeu: -- Não sei, não sou boa com Matemática.

Então, como vocês estão vendo, não é só aqui que eles põem as pessoas mais desqualificadas para atender no balcão. Em Nova Iorque também. Fico pensando se não é um requisito para assumir o emprego.

Em tempo, e é claro que isto não tem nada a ver: naquela grande metrópole judaico-cristã ocidental, constatei que os motoristas de táxi, engraxates, arrumadeiras de hotel, vendedores e balconistas em geral são todos oriundos ou da América Latina, ou do Extremo Oriente (China, Vietnã, Filipinas), ou do Subcontinente Indiano (Índia, Paquistão), ou da África Meridional (Quênia, África do Sul). Os nativos estão todos em ocupações que rendem mais dinheiro. Você pode não acreditar, mas falei mais portunhol do que inglês na Grande Maçã.