Meses atrás, comentei com meu colega filósofo uma interessante história de Neil Gaiman, que eu disse a ele que havia sido publicada em Sandman apresenta: tudo o que você sempre quis saber sobre sonhos... mas tinha medo de perguntar (Brain Store, março de 2002). A história mostrava uma biblioteca de livros imaginários, cujo guardião era Lucien, um dos servos de Sandman, o rei dos sonhos. Naturalmente, a biblioteca ficava no Sonhar, aonde você só tem acesso quando dorme. Ao pesquisar para escrever isto aqui, descobri que me havia confundido: a biblioteca efetivamente aparece na edição acima, porém só vemos os títulos dos livros em The Sandman #22, que foi publicada muito antes.
A biblioteca contém obras inéditas de Lewis Carroll, Raymond Chandler e outros. Presumìvelmente, são livros que esses Autores escreveram enquanto dormiam e que você tem oportunidade de conhecer se for procurá-los no Sonhar. A idéia fascina-me, inclusive porque, de vez em quando, costumo sonhar que leio um determinado livro do Tintim que não existe. Não é o inacabado Tintim e o Alfa-arte, e só me lembro de uma cena: o Capitão Haddock causando tumulto em um mercado situado em um país primitivo e montanhoso que não é o Peru (de O templo do Sol) nem o Nepal (de Tintim no Tibete).
Quando contei sobre a biblioteca de livros imaginários, o Filósofo perguntou-me de quando era a história. Respondi-lhe 2001 porque eu tinha a referência errada; a resposta correta é 1990. De todo modo, a réplica de meu pensativo colega foi que Gaiman poderia ter tido conhecimento de um conto publicado em 1941 e reproduzido na coletânea Contos fantásticos no labirinto de Borges, organizada por Bráulio Tavares, onde figuram histórias que, de algum modo, relacionam-se à obra do Autor argentino.
Alguns dias atrás, o Filósofo presenteou-me com uma xerox da história de que falava. Trata-se de A livraria, de Nelson Bond (mas o título desta mensagem de hoje é sem vírgula). Deu pra ler em uma viagem de metrô: é bem curtinho e vou resumi-lo ainda mais (e contar o final, portanto tenha cuidado).
Um escritor sai à rua, frustrado em não conseguir passar do terceiro capítulo de seu novo romance. Entra em uma livraria que havia visto apenas um ano antes. Lá dentro, em um ambiente muito escuro, abafado e recendendo a antigüidade, depara-se com várias obras inéditas de Autores clássicos: Agamenon, de Shakespeare, As novas aventuras de Sherlock Holmes, de Conan Doyle, etc. O livreiro informa que todos esses livros são obras que só existiram nas mentes de seus Autores e que, por serem perfeitas, jamais poderiam ir para o papel. Em síntese, a livraria só tem obras impossíveis, que existem somente ali. No auge da excitação, o protagonista descobre seu próprio livro, completo e correspondendo exatamente ao que tentava escrever sem sucesso. Tentando evitar o previsível desfecho, foge com o exemplar, mas òbviamente é atropelado.
Na última cena, o escritor fujão está agonizando no asfalto enquanto ouvimos o motorista explicar ao guarda que não teve tempo de frear. Uma testemunha diz que viu o sujeito falando sòzinho em um terreno vazio e sair correndo para a rua. Tentando identificar a vítima, o guarda apanha o livro e descobre que só tem três capítulos, com o resto em branco.
Agora me diga: você ouviu ou não ouviu a familiar musiquinha de Além da Imaginação? Quando terminei, tive a exata sensação de ter lido um episódio da série colorida dos anos 80. Já ao digitar isto, imaginei a série em preto e branco dos anos 50, com aqueles closes dramáticos e aquelas cenas lentas, luzes e sombras bizarras e opressões medonhas. Entram o pianinho e a voz de Rod Serling (dublada, com aquele eco das dublagens da época): “Robert Marston: um homem encurralado por seu destino. Um escritor em busca da perfeição, que descobriu que só poderia ver seu sonho realizado em uma livraria localizada... além da imaginação.”
Recém-lidas:
Swamp Thing #62 (julho de 1987);
Swamp Thing #63 (agosto de 1987);
Swamp Thing #64 (setembro de 1987);
Swamp Thing #71 (abril de 1988);
Swamp Thing #72 (maio de 1988);
Swamp Thing #73 (junho de 1988).
29 março 2008
28 março 2008
Ainda o mestre
O texto que está aqui embaixo é reprodução do comentário que acabei de fazer aqui.
"Desonesto dizer 'qual o melhor' [livro de Arthur Clarke] quando li poucos. Então, vamos definir de que universo estou falando (quais li): 2001, 2010, 2061, 3001, As canções da Terra distante, Childhood's End, The Sentinel (conto), Encounter in the Dawn (conto) e Disque F para Frankenstein (conto) [-- e lembrei-me deste depois: O homem e o espaço, de não-ficção].
"Desses, o de que gostei mais foi 2010, pelas descrições do espaço, pelo sentimento de imensidão desconhecida, de ordem perfeita e de balé cósmico. No espaço, tudo é matematicamente calculável com toda a precisão e a Natureza é tão previsível e, mesmo assim, cheia de mistérios. Para navegar, basta aplicar um foguetinho no momento certo e a gravitação faz todo o resto, por maior que seja sua inércia e por mais que o efeito só se faça sentir meses depois. Gostei também das descrições minuciosas e realistas do ambiente das naves espaciais.
"Mas o que mais me marcou foi As canções da Terra distante, que me trouxe uma preocupação clássica: durante milênios, a humanidade acumulou história, cultura, Ciência e arte. Esse patrimônio é o que temos de mais valioso. Se um dia a Terra se acabar, o que faremos para não perdê-lo? Como selecionar os livros corretos para serem salvos? E isso acontece nas primeiras páginas. O resto do romance é o choque entre os últimos homens nascidos na Terra e os primeiros filhos de uma nave colonizadora do espaço, que tiveram de começar tudo quase do zero e nada sabem de sua herança. É de uma melancolia, de uma tristeza sobre o inevitável, como só vemos (e tanto vemos) na ficção científica em geral e em Clarke em particular."
"Desonesto dizer 'qual o melhor' [livro de Arthur Clarke] quando li poucos. Então, vamos definir de que universo estou falando (quais li): 2001, 2010, 2061, 3001, As canções da Terra distante, Childhood's End, The Sentinel (conto), Encounter in the Dawn (conto) e Disque F para Frankenstein (conto) [-- e lembrei-me deste depois: O homem e o espaço, de não-ficção].
"Desses, o de que gostei mais foi 2010, pelas descrições do espaço, pelo sentimento de imensidão desconhecida, de ordem perfeita e de balé cósmico. No espaço, tudo é matematicamente calculável com toda a precisão e a Natureza é tão previsível e, mesmo assim, cheia de mistérios. Para navegar, basta aplicar um foguetinho no momento certo e a gravitação faz todo o resto, por maior que seja sua inércia e por mais que o efeito só se faça sentir meses depois. Gostei também das descrições minuciosas e realistas do ambiente das naves espaciais.
"Mas o que mais me marcou foi As canções da Terra distante, que me trouxe uma preocupação clássica: durante milênios, a humanidade acumulou história, cultura, Ciência e arte. Esse patrimônio é o que temos de mais valioso. Se um dia a Terra se acabar, o que faremos para não perdê-lo? Como selecionar os livros corretos para serem salvos? E isso acontece nas primeiras páginas. O resto do romance é o choque entre os últimos homens nascidos na Terra e os primeiros filhos de uma nave colonizadora do espaço, que tiveram de começar tudo quase do zero e nada sabem de sua herança. É de uma melancolia, de uma tristeza sobre o inevitável, como só vemos (e tanto vemos) na ficção científica em geral e em Clarke em particular."
24 março 2008
Tele-inquisição
Hoje foi assim: o telemarketing apanhou-me em casa e saiu falando sobre o serviço. Interrompi a moça dizendo que não queria. Imediatamente, ela questionou o motivo.
Tive que dizer que a pergunta dela era grosseira e que, com isso, ela estava dizendo que eu era obrigado a contratar o serviço. Não vou discutir filosofia com uma pobre telemarqueteira que pronuncia gratuÍto, mas, ora bolas, ela liga para minha casa, oferece-me o que não pedi e eu é que tenho que explicar por que não quero! Observe bem: a pergunta que ela me fez tem o pressuposto de que a regra, o normal, é eu querer o serviço. Suponho que, se o motivo apresentado para a recusa não for bom o bastante, serei forçado a contratar o serviço por falta de justificativa.
Não contente, a moça pôs-se a discutir comigo, violando uma das regras básicas do bom vendedor: não discutir com o cliente. O vendedor tem que ganhar o cliente na simpatia. Se começa a brigar com o cliente, este vai simplesmente embora, retornando a seu estado neutro original; não vou participar de uma discussão que não pedi e onde nada tenho a ganhar. Ao telefone, então, o poder do cliente é supremo, e fiz questão de exercê-lo: disse à moça que seu problema era fácil de se resolver, "quer ver só? Preste atenção", e desliguei na cara dela.
Ah, como eu sou recalcado. Mas isso fez um bem...
***
Falando em grosseria, parece até que eu adivinho. Ontem, conversava em casa sobre preferir ficar em pé no Metrô para não ter que ceder lugar. Pois hoje aconteceu na minha frente.
Para quem não é do Rio, lembro que o Metrô tem assentos preferenciais para idosos, grávidas e estropiados em geral. Se um chega, você tem que levantar. Quando entrei no vagão, havia uma mulher (estimados 45-50 anos) ocupando um dos tais assentos. Perdi o começo da discussão, mas, se entendi direito, um idoso (estimados 65-70) pedia a ela que desse lugar ao velhinho (estimados 80) que ela fingira não ver (o fingimento foi ilação minha, não sei se houve a acusação mesmo). A mulher começou a discutir com o cara, dizendo que ele tinha que ter educação, e foi levantando a voz enquanto ele só respondia em voz baixa. Não contente, a mulher usou algumas palavras coloridas para dizer que o idoso 6570 era um aposentado imprestável, burro, grosso ("tá precisando trocar a ferradura"), e continuava a falar alto, e dizia que tinha direito de estar ali porque tinha embarcado na primeira estação.
Olha, quanto a ele ser imprestável, burro ou grosso, só tenho certeza de uma coisa: fui testemunha de crime de injúria qualificada (Código Penal, art 140, caput c/c § 3o.), um a três mais multa. Não que eu fosse à delegacia para depor: só mediante coação, que ninguém é obrigado a ir lá voluntariamente dizer o que viu e eu não ganharia nada gastando meu tempo para dizer que vi os outros cometerem crime. Sim, falta-me todo senso cívico etc. (E não, nessa frase o correto não é "todo o senso cívico", é sem o artigo mesmo.) Nem por isso mereço ser acusado de ser uma daquelas pessoas que contribuem para a corrupção no País. Uma coisa é não obter vantagem ilícita. Outra coisa bem diferente é assumir a função do Estado policial, apontando dedos onde quem tinha que estar de olho era a vigilância de quem é pago para isso. Mas divirjo.
Voltando à historieta, o detalhe é que ela, a errada, é que ia perdendo a calma e reclamando de falta de educação. Outro detalhe é que a filha dela (estimados 12-14) também estava muito bem sentadinha enquanto os idosos permaneciam de pé.
Enquanto isso, inùtilmente eu tentava me concentrar em Swamp Thing #60.
***
Recém-lidas:
Secret Origins #10 (janeiro de 1987);
Swamp Thing #57 (fevereiro de 1987);
Swamp Thing #58 (março de 1987);
Swamp Thing #59 (abril de 1987);
Swamp Thing #60 (maio de 1987);
Swamp Thing #61 (junho de 1987).
Tive que dizer que a pergunta dela era grosseira e que, com isso, ela estava dizendo que eu era obrigado a contratar o serviço. Não vou discutir filosofia com uma pobre telemarqueteira que pronuncia gratuÍto, mas, ora bolas, ela liga para minha casa, oferece-me o que não pedi e eu é que tenho que explicar por que não quero! Observe bem: a pergunta que ela me fez tem o pressuposto de que a regra, o normal, é eu querer o serviço. Suponho que, se o motivo apresentado para a recusa não for bom o bastante, serei forçado a contratar o serviço por falta de justificativa.
Não contente, a moça pôs-se a discutir comigo, violando uma das regras básicas do bom vendedor: não discutir com o cliente. O vendedor tem que ganhar o cliente na simpatia. Se começa a brigar com o cliente, este vai simplesmente embora, retornando a seu estado neutro original; não vou participar de uma discussão que não pedi e onde nada tenho a ganhar. Ao telefone, então, o poder do cliente é supremo, e fiz questão de exercê-lo: disse à moça que seu problema era fácil de se resolver, "quer ver só? Preste atenção", e desliguei na cara dela.
Ah, como eu sou recalcado. Mas isso fez um bem...
***
Falando em grosseria, parece até que eu adivinho. Ontem, conversava em casa sobre preferir ficar em pé no Metrô para não ter que ceder lugar. Pois hoje aconteceu na minha frente.
Para quem não é do Rio, lembro que o Metrô tem assentos preferenciais para idosos, grávidas e estropiados em geral. Se um chega, você tem que levantar. Quando entrei no vagão, havia uma mulher (estimados 45-50 anos) ocupando um dos tais assentos. Perdi o começo da discussão, mas, se entendi direito, um idoso (estimados 65-70) pedia a ela que desse lugar ao velhinho (estimados 80) que ela fingira não ver (o fingimento foi ilação minha, não sei se houve a acusação mesmo). A mulher começou a discutir com o cara, dizendo que ele tinha que ter educação, e foi levantando a voz enquanto ele só respondia em voz baixa. Não contente, a mulher usou algumas palavras coloridas para dizer que o idoso 6570 era um aposentado imprestável, burro, grosso ("tá precisando trocar a ferradura"), e continuava a falar alto, e dizia que tinha direito de estar ali porque tinha embarcado na primeira estação.
Olha, quanto a ele ser imprestável, burro ou grosso, só tenho certeza de uma coisa: fui testemunha de crime de injúria qualificada (Código Penal, art 140, caput c/c § 3o.), um a três mais multa. Não que eu fosse à delegacia para depor: só mediante coação, que ninguém é obrigado a ir lá voluntariamente dizer o que viu e eu não ganharia nada gastando meu tempo para dizer que vi os outros cometerem crime. Sim, falta-me todo senso cívico etc. (E não, nessa frase o correto não é "todo o senso cívico", é sem o artigo mesmo.) Nem por isso mereço ser acusado de ser uma daquelas pessoas que contribuem para a corrupção no País. Uma coisa é não obter vantagem ilícita. Outra coisa bem diferente é assumir a função do Estado policial, apontando dedos onde quem tinha que estar de olho era a vigilância de quem é pago para isso. Mas divirjo.
Voltando à historieta, o detalhe é que ela, a errada, é que ia perdendo a calma e reclamando de falta de educação. Outro detalhe é que a filha dela (estimados 12-14) também estava muito bem sentadinha enquanto os idosos permaneciam de pé.
Enquanto isso, inùtilmente eu tentava me concentrar em Swamp Thing #60.
***
Recém-lidas:
Secret Origins #10 (janeiro de 1987);
Swamp Thing #57 (fevereiro de 1987);
Swamp Thing #58 (março de 1987);
Swamp Thing #59 (abril de 1987);
Swamp Thing #60 (maio de 1987);
Swamp Thing #61 (junho de 1987).
Epílogos da Crise
Acabei de enviar isto para Jonathan Woodward.
"Dear Sir,
"I cannot compliment you enough on your Crisis pages. After some (don't know how many: is it six?) years, they continue to be my prevalent source for research on CoIE.
"... But I have a minor addition to make on your "related texts" page.
"In Swamp Thing #62 (Jul'87), "Wavelength", Swamp Thing serves as a vehicle for Metron to enter the Source. Therein, Metron sees the whole reality in one gulp. Page 15, panel 8, shows a depiction of the multiverse (many Earths converging as in the classic Pérez representation) with the words, ""I witnessed a multitude of universes collapsing upon each other, attempting unification into a single coherent cosmology...". Then panel 9 shows people in their dollar-a-day routine and the words ""... leaving innumerable sentient beings unaware of what happened... living their lives as if all were normal...". Finally, panel 10 shows a roundish, crimson eddy and the words ""... as if the great wheel of Creation hadn't been thrown crazily out of balance...".
"Anyway, just thought I might throw in my 2 cents worth.
"Keep up the wonderful pages.
"Yours truly,
"[...]
"Brazilian DC fan"
"Dear Sir,
"I cannot compliment you enough on your Crisis pages. After some (don't know how many: is it six?) years, they continue to be my prevalent source for research on CoIE.
"... But I have a minor addition to make on your "related texts" page.
"In Swamp Thing #62 (Jul'87), "Wavelength", Swamp Thing serves as a vehicle for Metron to enter the Source. Therein, Metron sees the whole reality in one gulp. Page 15, panel 8, shows a depiction of the multiverse (many Earths converging as in the classic Pérez representation) with the words, ""I witnessed a multitude of universes collapsing upon each other, attempting unification into a single coherent cosmology...". Then panel 9 shows people in their dollar-a-day routine and the words ""... leaving innumerable sentient beings unaware of what happened... living their lives as if all were normal...". Finally, panel 10 shows a roundish, crimson eddy and the words ""... as if the great wheel of Creation hadn't been thrown crazily out of balance...".
"Anyway, just thought I might throw in my 2 cents worth.
"Keep up the wonderful pages.
"Yours truly,
"[...]
"Brazilian DC fan"
20 março 2008
Falar bem é falar pouco
1. Fordismo
Fordismo é uma corrente de pensamento segundo a qual não se pode perder nenhum dos filmes da série Indiana Jones.
2. Procissões
Ontem, houve duas procissões no Centro do Rio. Dizia o jornal que se encontrariam em frente ao convento no largo da Carioca, onde haveria o Sermão das Sete Palavras.
Puxa, isso deve ser ótimo. Um sermão com só sete palavras! "Sejam todos bem-vindos. Obrigado. Boa noite."
Recém-lido: Arthur: uma epopéia celta, de David Chauvel e Jérôme Lereculey, v. 2.
Fordismo é uma corrente de pensamento segundo a qual não se pode perder nenhum dos filmes da série Indiana Jones.
2. Procissões
Ontem, houve duas procissões no Centro do Rio. Dizia o jornal que se encontrariam em frente ao convento no largo da Carioca, onde haveria o Sermão das Sete Palavras.
Puxa, isso deve ser ótimo. Um sermão com só sete palavras! "Sejam todos bem-vindos. Obrigado. Boa noite."
Recém-lido: Arthur: uma epopéia celta, de David Chauvel e Jérôme Lereculey, v. 2.
18 março 2008
Sir Arthur is cleared for departure (reprise)
Há cerca de uma hora, eu comentei que, hoje, o segundo maior escritor de Ciência do mundo chegou ao fim de sua infância.
Agora, neste fórum, lembraram-me uma coisa: quando ele faleceu, era dia 19 no Sri Lanka, mas a notícia logo se espalhou aqui para o Ocidente, onde ainda era dia 18. Quer dizer: o maior escritor de ficção científica do mundo vivia no futuro. Coerente na morte com a vida que levou, Clarke até mesmo morreu no futuro.
Agora, neste fórum, lembraram-me uma coisa: quando ele faleceu, era dia 19 no Sri Lanka, mas a notícia logo se espalhou aqui para o Ocidente, onde ainda era dia 18. Quer dizer: o maior escritor de ficção científica do mundo vivia no futuro. Coerente na morte com a vida que levou, Clarke até mesmo morreu no futuro.
A vida está lá fora
Minha vida tem sido assim: acordo, me arrumo, vou trabalhar, passo o dia trabalhando, volto pra casa no ônibus cheio, banho, janta, computador, cama. Nisso, o melhor do dia acaba desperdiçado: duas horas são gastas no trânsito e nove, dez ou mais, no trabalho. Toda a luz do dia vai embora, e a parte de minha vida que fica para mim, mesmo, está toda no escuro. Isso está me frustrando, sinto que não estou aproveitando o tempo. Que não estou realmente tendo minha vida para mim.
Essa preocupação foi ressaltada pela leitura de October the First Is Too Late (que comentei ontem). Quando o protagonista visita a Grécia Antiga, constata que todos vão dormir assim que o Sol se põe, mas que as horas do dia são todas aproveitadas. Isso me fez refletir sobre como o uso da luz artificial permitiu que a sociedade moderna deslocasse o aproveitamento do tempo para o turno da noite. Trabalhamos a mesma quantidade de horas (ou menos até do que naquele tempo), mas ficamos acordados até mais tarde. Não somos mais aqueles escravos, que *só* trabalhavam, mas tampouco somos aqueles patrícios, que viviam no ócio. Antigamente, ou você era um ou era outro, não tinha meio termo, e quem trabalhava trabalhava o dia inteiro. Hoje, sendo classe média, fazemos um esforço para conciliar: trabalhamos feito escravos durante o dia e tentamos recuperar umas migalhas à noite, no esforço de retomar algum tempo para nós mesmos feito aqueles cidadãos livres (ou trabalhamos de dia e de noite, o que é pior ainda).
Mas são mesmo apenas migalhas. Quando anoitece, a parte boa do dia já foi toda embora, já estamos cansados e a luz não é a mesma. Fica uma impressão de que é preciso correr para aproveitar o pouco tempo, como quem toma banho com pouca água.
Esta semana, eu estava conversando com um colega de trabalho cuja opinião muito respeito. Comentei com ele uma sensação que tenho freqüentemente e que funciona assim: um Autor, que nem lembro mais qual é, disse certa vez que “a vida está em outro lugar” (foi Clarice Lispector?). É uma frase que me impressiona muito. Apropriando-me dela à luz do que comentei aí em cima, adaptei-a para “minha vida está lá fora”: vou trabalhando, vendendo meu tempo, fazendo coisas que não são nem de longe tão divertidas como todas as outras que eu poderia estar fazendo lá fora do local de trabalho. Estou me privando de minha vida e de todas as atividades (mesmo as tarefas administrativas, como ir ao banco, ao cartório, ao supermercado) que poderia estar fazendo se não tivesse que passar as horas ali dentro.
Esse meu colega é um filósofo. Disse que poderia generalizar a frase de que eu me apropriara e dizer que “a vida está lá fora”. Nosso local de trabalho é um pequeno mundo recluso, separado do verdadeiro mundo lá de fora, com regras próprias, jargão próprio, preocupações e prioridades próprias, distintas das do mundo real. Quando vamos embora, tudo lá se torna mais distante, irrelevante, e voltamos a lembrar quem somos, nossos gostos e prioridades.
Uma conclusão já se pode tirar de tudo isso. Das cerca de onze horas que passo em casa, seis -- ou seja, metade -- eu passo dormindo. Então, tenho que aproveitar bem essas horas de sono. Tenho que escolher bem meus sonhos, aproveitá-los bem: em sonhos, só ler bons livros, ter bons diálogos, praticar boas atividades. Porque são as horas que tenho.
Essa preocupação foi ressaltada pela leitura de October the First Is Too Late (que comentei ontem). Quando o protagonista visita a Grécia Antiga, constata que todos vão dormir assim que o Sol se põe, mas que as horas do dia são todas aproveitadas. Isso me fez refletir sobre como o uso da luz artificial permitiu que a sociedade moderna deslocasse o aproveitamento do tempo para o turno da noite. Trabalhamos a mesma quantidade de horas (ou menos até do que naquele tempo), mas ficamos acordados até mais tarde. Não somos mais aqueles escravos, que *só* trabalhavam, mas tampouco somos aqueles patrícios, que viviam no ócio. Antigamente, ou você era um ou era outro, não tinha meio termo, e quem trabalhava trabalhava o dia inteiro. Hoje, sendo classe média, fazemos um esforço para conciliar: trabalhamos feito escravos durante o dia e tentamos recuperar umas migalhas à noite, no esforço de retomar algum tempo para nós mesmos feito aqueles cidadãos livres (ou trabalhamos de dia e de noite, o que é pior ainda).
Mas são mesmo apenas migalhas. Quando anoitece, a parte boa do dia já foi toda embora, já estamos cansados e a luz não é a mesma. Fica uma impressão de que é preciso correr para aproveitar o pouco tempo, como quem toma banho com pouca água.
Esta semana, eu estava conversando com um colega de trabalho cuja opinião muito respeito. Comentei com ele uma sensação que tenho freqüentemente e que funciona assim: um Autor, que nem lembro mais qual é, disse certa vez que “a vida está em outro lugar” (foi Clarice Lispector?). É uma frase que me impressiona muito. Apropriando-me dela à luz do que comentei aí em cima, adaptei-a para “minha vida está lá fora”: vou trabalhando, vendendo meu tempo, fazendo coisas que não são nem de longe tão divertidas como todas as outras que eu poderia estar fazendo lá fora do local de trabalho. Estou me privando de minha vida e de todas as atividades (mesmo as tarefas administrativas, como ir ao banco, ao cartório, ao supermercado) que poderia estar fazendo se não tivesse que passar as horas ali dentro.
Esse meu colega é um filósofo. Disse que poderia generalizar a frase de que eu me apropriara e dizer que “a vida está lá fora”. Nosso local de trabalho é um pequeno mundo recluso, separado do verdadeiro mundo lá de fora, com regras próprias, jargão próprio, preocupações e prioridades próprias, distintas das do mundo real. Quando vamos embora, tudo lá se torna mais distante, irrelevante, e voltamos a lembrar quem somos, nossos gostos e prioridades.
Uma conclusão já se pode tirar de tudo isso. Das cerca de onze horas que passo em casa, seis -- ou seja, metade -- eu passo dormindo. Então, tenho que aproveitar bem essas horas de sono. Tenho que escolher bem meus sonhos, aproveitá-los bem: em sonhos, só ler bons livros, ter bons diálogos, praticar boas atividades. Porque são as horas que tenho.
Sir Arthur is cleared for departure
Hoje, o segundo maior escritor de Ciência do mundo chegou ao fim de sua infância.
Nosso planeta acaba de ficar mais pobre.
Nosso planeta acaba de ficar mais pobre.
17 março 2008
Foro privilegiado, Igreja na política, Primeiro de Outubro, liftofe e Gol contra
1. Fôra privilegiado
Outro dia, o jornal da noite contou que o Ministério Público havia descoberto um esquema de desvio de dinheiro no município de Campos, RJ. Estavam cautelarmente presos alguns servidores comissionados, e o prefeito havia sido afastado. O repórter dizia (as palavras foram exatamente estas): “... o Tribunal está decidindo se o prefeito deve responder em liberdade, porque tem foro privilegiado.”
É engraçado, né. Você ouve isso e fica logo pensando, “que absurdo! Só porque tem foro privilegiado não vai preso?” Só que não é nada disso. O fato de o prefeito ter foro privilegiado não tem impacto nenhum sobre ser preso ou não. Acontece que quem mandou prender os secretários foi um juiz, e juiz não tem competência para mandar prender o prefeito. Só quem tem competência para mandar prender o prefeito é o Tribunal de Justiça (ou talvez seja o TRF? Confesso que não sei), e é isso que significa dizer que ele tenha foro privilegiado. Então, quem decide se ele vai ser preso é o Tribunal, e a ênfase da frase deveria ser nele, no fato de a competência ser dele. Infelizmente, da maneira como a notícia foi veiculada, fica parecendo que o foro privilegiado seja alguma causa de livrar o prefeito da cadeia.
O primeiro pensamento vai para o despreparo do repórter, que não sabe o que está repetindo. Deveria, sim, fazer alguma crítica, ver se está certo o que diz. Mas, pensando melhor, vemos que o problema está em quem escreveu. Veja que não há a relação de causa e efeito que está sendo transmitida. Mais uma vez, o que falta nas pessoas é clareza; é saber entender o que leu e não simplesmente repetir feito papagaio ou autômato. Provàvelmente algum dos policiais envolvidos disse à imprensa que o foro privilegiado fazia com que a prisão tivesse de ser decidida pelo Tribunal (ou seja: não pelo juiz), e o que acabou entendido foi que o foro privilegiado fazia com que o Poder Judiciário tivesse que decidir com especial cuidado sobre a prisão. Implìcitamente, fica a sugestão de que o cargo do prefeito leve o Poder Judiciário a julgar em bases políticas. Fica sempre a idéia de conchavos, de pressõezinhas de um grupo sobre outro em troca de favores. Acaba-se transmitindo a idéia de que juízes são políticos e, portanto, corruptos como “todos os outros”.
Um dos problemas que leva a essa comunicação falha é a falta de conhecimento popular sobre a competência dos órgãos da Justiça. Não só da Justiça: falta de conhecimento sobre as competências e atribuições dos vários órgãos públicos. As pessoas não sabem o que fazem, o que podem fazer ou o que compete ao presidente da República, aos senadores, aos deputados federais, aos ministros de Estado, aos ministros dos tribunais superiores, juízes, desembargadores, governadores, secretários de Estado, deputados estaduais, procuradores da República, dos Estados e municípios etc. Não sabem a diferença entre um tribunal e um juiz, acham que tribunal é o prédio onde o juiz trabalha. Não sabem como funcionam as diversas formas de acesso aos cargos (voto popular, comissão, concurso público). É uma ignorância generalizada sobre a estrutura do Poder Público.
Isso deveria ser ensinado na escola, mas não é. Faz sentido: um povo que entende as estruturas e limitações do poder é um povo que pode criticar quando alguém abusa. É um povo menos manipulável.
2. Na raiz do debate sobre células-tronco, a flor do discurso nas folhas dos jornais
E, já que estou falando de imprensa e política, trago um lembrete. A meu ver, todo grupo social tem legitimidade para externar suas opiniões e procurar influenciar o entendimento dos parlamentares. Com isso, podem ter alguma ingerência sobre as leis e os rumos que a sociedade adota. Isso me parece corretíssimo; é a essência do debate político, que os antigos gregos viam como dever cívico de todo cidadão, mais do que direito. Por exemplo, os ambientalistas podem querer frear o desmatamento; vão lá no Congresso, procuram alguns deputados, convencem-nos de sua causa e conseguem aprovação de uma lei contra o desmatamento. E assim vai.
Sob essa óptica, a Igreja é uma instituição tão legítima quanto qualquer outra para expor sua visão ética de como se deve conduzir a vida. A meu ver, está correto que ela se faça representar na qualidade de amicus curiae quando o STF está para decidir sobre a constitucionalidade da pesquisa com células-tronco embrionárias.
Mesmo assim, vocês já notaram? Toda vez que a Igreja (ou cristãos de modo geral, agindo em grupo) interfere na política, é SEMPRE no sentido de proibir alguma coisa. Polìticamente, a Igreja SEMPRE atua no sentido de TIRAR liberdade, não de dá-la. O sujeito tem lá seu modo de vida onde tudo é pecado, e ele se proíbe uma porção de coisas. Muito bem, essa foi a conduta que ele resolveu adotar, por um sentido ético. Compreendo isso. Mas o que acontece é que, não contente, ele quer que todas as demais pessoas, inclusive as que não partilham de sua crença, também sejam limitadas por essas mesmas regras que ele tomou para si! Ora, pombas, imaginem vocês: eu, que não acho necessário usar, por exemplo, um cilício, sùbitamente tenho que usá-lo porque algumas pessoas acham que eu tenho que usá-lo.
Na minha percepção, isso é uma tirania injusta. Imaginem se, recìprocamente, eu quiser impor meu padrão de vida aos outros.
3. Primeiro de Outubro É Muito Tarde
Semana passada, terminei de ler October the First Is Too Late, de Fred Hoyle. Sinceramente, não gostei. Muito fraco. O protagonista-narrador é um compositor e pianista que, ao lado de um amigo físico (quero dizer: pesquisador de Física), descobre que, de uma hora para outra, o mundo se transformou em um retalho de pedaços que estão em diferentes épocas. A Inglaterra está na época do livro (1966), o resto da Europa Ocidental está em 1917; a Grécia, no século V a.C.; a Ásia, a bilhões de anos no futuro. Então, eles exploram o mundo.
O romance tem várias e longas digressões sobre as emoções vertidas na música ou despertadas por ela, que em nada contribuem para a história. (Todos os capítulos são batizados como movimentos de um concerto: andante, allegro etc.) Logo no começo, há uma longa viagem pelas Highlands escocesas onde se perde muito tempo sem se ir a lugar nenhum. Aí, explora-se a Califórnia na seqüência mais inútil de todas, volta-se à Inglaterra e muda-se o curso da I Guerra Mundial, desperdiçando-se uma excelente oportunidade para se desenvolver o choque entre culturas separadas por meros cinqüenta anos.
A porção passada na Grécia Antiga até que é interessante. Há um trecho particularmente divertido, onde os viajantes expõem à ágora ateniense a jornada que fizeram pelo mar desde a Inglaterra. São ovacionados e depois hospedados pelos cidadãos ricos da cidade. Aí, começam a contar que, na sua terra, não há escravos; e sugerem que Atenas desista da guerra que estava então movendo contra Esparta (e onde ainda estava ganhando). Nesse ponto, são essencialmente expulsos; os gregos lhes dão uma casa e meia dúzia de escravos para seu sustento e não querem mais conversa com eles. Quando os ex-hóspedes libertam esses escravos, os patrícios vêm exigir indenização pela desfeita.
Mesmo em um livro ruim, sempre se aproveita algo de bom. Há duas idéias para as quais o Autor parece ter feito todo o livro apenas como um pretexto -- se bem que sua introdução diga que não, que a história tem mérito próprio e que a Ciência só está ali para servir de andaime. A primeira idéia é a natureza da própria realidade, conforme percebida pela consciência. Os instantes no tempo não estariam realmente em ordem, nem haveria qualquer preferência entre diferentes mundos separados por diferentes estados quânticos; tudo seria uma questão de como a consciência prefere perceber o mundo arbitràriamente. A rigor, a experiência de todas as pessoas poderia estar sendo vivida por uma única consciência, como se fosse um ator que desempenha vários diferentes papéis em uma única peça. É algo parecido com o que se vê no excelente One, de Richard Bach, só que ainda mais abrangente.
A outra idéia é uma espécie de melancólica constatação do inevitável: de como a raça humana parece presa em um ciclo de euforia, expansão, crise, aniquilação e renascimento, sempre sem a memória da tragédia anterior. Em teoria, já passamos por isso antes e voltaremos a sofrer tudo de novo. Nesse ponto, não deixa de ser profético, já que, passados quarenta anos, é exatamente o que parecemos estar vendo no mundo à nossa volta, com globalização, ressurgimento de epidemias e ameaça de afogamento em massa.
Apesar dessas duas relevantes e profundas discussões, a maior parte do livro só se arrasta sem que nada aconteça. Os personagens secundários entram e saem da narrativa sem explicação nem destino, e os protagonistas sùbitamente perdem a importância no final, que é apenas um corte abrupto, sem dar qualquer satisfação ao leitor.
Em síntese, uma obra dispensável. Agora peguei The Wanderer, de Fritz Leiber. Esse também não começou bem, mas espero que avance e termine melhor. Em síntese: como a humanidade reagiria diante da súbita entrada de outra estrela no Sistema Solar?
4. Levantamento completo
Eu não sei se acontece com vocês -- sei que acontece com o Leandro Pinto e comigo. Às vezes, a televisão mostra o lançamento de um ônibus espacial. A câmera fecha nos bocais e suas fagulhas, você ouve a contagem regressiva, e aí entra a voz original, “... two, one -- LIFTOFF”, e é aquela fumaceira danada que se expande imediatamente para os lados quando eles acendem os boosters, e é uma gloriosa coluna de fogo enquanto a nave vai saindo devagarinho mas dando aquela impressão de potência, e quem presta atenção ainda consegue ver os jatos dos motores da própria nave, deixando anéis azuis de choque sônico...
Uma visão impressionante. Sei que não tenho nada com isso: não trabalho para a NASA, não faço parte dessa indústria, nem americano eu sou, não tenho nenhum envolvimento. Mesmo assim, dá-me um arrepio qualquer, é uma realização da espécie humana. Tecnologia que nem é das mais modernas, e difìcilmente seria motivo de orgulho em uma civilização verdadeiramente avançada, mas é o que conseguimos fazer.
5. Gol contra
Quando tem o hábito de olhar para o céu, você às vezes estranha certas coisas. Outro dia, eu estava no ônibus a caminho do trabalho, percorrendo a avenida Chile no sentido Oeste-Leste, ou zona Norte-Centro, se preferir. Olhei pela janela, e lá estava um 737 da Gol voando baixo sobre o Centro no sentido inverso ao meu, aliás indo um pouco para o Norte e já curvando a bombordo.
Isso pode não significar muito para você, mas, quando o avião sumiu atrás de um prédio, fiquei olhando para ver se não estava enganado. Porque, naquela altura do Centro, os aviões que vão para o Santos-Dumont sempre voam no mesmo sentido do ônibus, apenas um pouco mais para o Sul, e não justamente ao contrário, que era o que eu estava vendo.
Afinal ele se endireitou, e você logo pensa que devia estar ajustando a rota ou cumprindo algum comando diferente da torre do aeroporto, mas não deixa de parar um pouco o que faz para prestar atenção. Eu páro.
Recém-lido: Aquablue no. 3, de Thierry Cailleteau e Olivier Vatine, traduzido com galicismos.
Outro dia, o jornal da noite contou que o Ministério Público havia descoberto um esquema de desvio de dinheiro no município de Campos, RJ. Estavam cautelarmente presos alguns servidores comissionados, e o prefeito havia sido afastado. O repórter dizia (as palavras foram exatamente estas): “... o Tribunal está decidindo se o prefeito deve responder em liberdade, porque tem foro privilegiado.”
É engraçado, né. Você ouve isso e fica logo pensando, “que absurdo! Só porque tem foro privilegiado não vai preso?” Só que não é nada disso. O fato de o prefeito ter foro privilegiado não tem impacto nenhum sobre ser preso ou não. Acontece que quem mandou prender os secretários foi um juiz, e juiz não tem competência para mandar prender o prefeito. Só quem tem competência para mandar prender o prefeito é o Tribunal de Justiça (ou talvez seja o TRF? Confesso que não sei), e é isso que significa dizer que ele tenha foro privilegiado. Então, quem decide se ele vai ser preso é o Tribunal, e a ênfase da frase deveria ser nele, no fato de a competência ser dele. Infelizmente, da maneira como a notícia foi veiculada, fica parecendo que o foro privilegiado seja alguma causa de livrar o prefeito da cadeia.
O primeiro pensamento vai para o despreparo do repórter, que não sabe o que está repetindo. Deveria, sim, fazer alguma crítica, ver se está certo o que diz. Mas, pensando melhor, vemos que o problema está em quem escreveu. Veja que não há a relação de causa e efeito que está sendo transmitida. Mais uma vez, o que falta nas pessoas é clareza; é saber entender o que leu e não simplesmente repetir feito papagaio ou autômato. Provàvelmente algum dos policiais envolvidos disse à imprensa que o foro privilegiado fazia com que a prisão tivesse de ser decidida pelo Tribunal (ou seja: não pelo juiz), e o que acabou entendido foi que o foro privilegiado fazia com que o Poder Judiciário tivesse que decidir com especial cuidado sobre a prisão. Implìcitamente, fica a sugestão de que o cargo do prefeito leve o Poder Judiciário a julgar em bases políticas. Fica sempre a idéia de conchavos, de pressõezinhas de um grupo sobre outro em troca de favores. Acaba-se transmitindo a idéia de que juízes são políticos e, portanto, corruptos como “todos os outros”.
Um dos problemas que leva a essa comunicação falha é a falta de conhecimento popular sobre a competência dos órgãos da Justiça. Não só da Justiça: falta de conhecimento sobre as competências e atribuições dos vários órgãos públicos. As pessoas não sabem o que fazem, o que podem fazer ou o que compete ao presidente da República, aos senadores, aos deputados federais, aos ministros de Estado, aos ministros dos tribunais superiores, juízes, desembargadores, governadores, secretários de Estado, deputados estaduais, procuradores da República, dos Estados e municípios etc. Não sabem a diferença entre um tribunal e um juiz, acham que tribunal é o prédio onde o juiz trabalha. Não sabem como funcionam as diversas formas de acesso aos cargos (voto popular, comissão, concurso público). É uma ignorância generalizada sobre a estrutura do Poder Público.
Isso deveria ser ensinado na escola, mas não é. Faz sentido: um povo que entende as estruturas e limitações do poder é um povo que pode criticar quando alguém abusa. É um povo menos manipulável.
2. Na raiz do debate sobre células-tronco, a flor do discurso nas folhas dos jornais
E, já que estou falando de imprensa e política, trago um lembrete. A meu ver, todo grupo social tem legitimidade para externar suas opiniões e procurar influenciar o entendimento dos parlamentares. Com isso, podem ter alguma ingerência sobre as leis e os rumos que a sociedade adota. Isso me parece corretíssimo; é a essência do debate político, que os antigos gregos viam como dever cívico de todo cidadão, mais do que direito. Por exemplo, os ambientalistas podem querer frear o desmatamento; vão lá no Congresso, procuram alguns deputados, convencem-nos de sua causa e conseguem aprovação de uma lei contra o desmatamento. E assim vai.
Sob essa óptica, a Igreja é uma instituição tão legítima quanto qualquer outra para expor sua visão ética de como se deve conduzir a vida. A meu ver, está correto que ela se faça representar na qualidade de amicus curiae quando o STF está para decidir sobre a constitucionalidade da pesquisa com células-tronco embrionárias.
Mesmo assim, vocês já notaram? Toda vez que a Igreja (ou cristãos de modo geral, agindo em grupo) interfere na política, é SEMPRE no sentido de proibir alguma coisa. Polìticamente, a Igreja SEMPRE atua no sentido de TIRAR liberdade, não de dá-la. O sujeito tem lá seu modo de vida onde tudo é pecado, e ele se proíbe uma porção de coisas. Muito bem, essa foi a conduta que ele resolveu adotar, por um sentido ético. Compreendo isso. Mas o que acontece é que, não contente, ele quer que todas as demais pessoas, inclusive as que não partilham de sua crença, também sejam limitadas por essas mesmas regras que ele tomou para si! Ora, pombas, imaginem vocês: eu, que não acho necessário usar, por exemplo, um cilício, sùbitamente tenho que usá-lo porque algumas pessoas acham que eu tenho que usá-lo.
Na minha percepção, isso é uma tirania injusta. Imaginem se, recìprocamente, eu quiser impor meu padrão de vida aos outros.
3. Primeiro de Outubro É Muito Tarde
Semana passada, terminei de ler October the First Is Too Late, de Fred Hoyle. Sinceramente, não gostei. Muito fraco. O protagonista-narrador é um compositor e pianista que, ao lado de um amigo físico (quero dizer: pesquisador de Física), descobre que, de uma hora para outra, o mundo se transformou em um retalho de pedaços que estão em diferentes épocas. A Inglaterra está na época do livro (1966), o resto da Europa Ocidental está em 1917; a Grécia, no século V a.C.; a Ásia, a bilhões de anos no futuro. Então, eles exploram o mundo.
O romance tem várias e longas digressões sobre as emoções vertidas na música ou despertadas por ela, que em nada contribuem para a história. (Todos os capítulos são batizados como movimentos de um concerto: andante, allegro etc.) Logo no começo, há uma longa viagem pelas Highlands escocesas onde se perde muito tempo sem se ir a lugar nenhum. Aí, explora-se a Califórnia na seqüência mais inútil de todas, volta-se à Inglaterra e muda-se o curso da I Guerra Mundial, desperdiçando-se uma excelente oportunidade para se desenvolver o choque entre culturas separadas por meros cinqüenta anos.
A porção passada na Grécia Antiga até que é interessante. Há um trecho particularmente divertido, onde os viajantes expõem à ágora ateniense a jornada que fizeram pelo mar desde a Inglaterra. São ovacionados e depois hospedados pelos cidadãos ricos da cidade. Aí, começam a contar que, na sua terra, não há escravos; e sugerem que Atenas desista da guerra que estava então movendo contra Esparta (e onde ainda estava ganhando). Nesse ponto, são essencialmente expulsos; os gregos lhes dão uma casa e meia dúzia de escravos para seu sustento e não querem mais conversa com eles. Quando os ex-hóspedes libertam esses escravos, os patrícios vêm exigir indenização pela desfeita.
Mesmo em um livro ruim, sempre se aproveita algo de bom. Há duas idéias para as quais o Autor parece ter feito todo o livro apenas como um pretexto -- se bem que sua introdução diga que não, que a história tem mérito próprio e que a Ciência só está ali para servir de andaime. A primeira idéia é a natureza da própria realidade, conforme percebida pela consciência. Os instantes no tempo não estariam realmente em ordem, nem haveria qualquer preferência entre diferentes mundos separados por diferentes estados quânticos; tudo seria uma questão de como a consciência prefere perceber o mundo arbitràriamente. A rigor, a experiência de todas as pessoas poderia estar sendo vivida por uma única consciência, como se fosse um ator que desempenha vários diferentes papéis em uma única peça. É algo parecido com o que se vê no excelente One, de Richard Bach, só que ainda mais abrangente.
A outra idéia é uma espécie de melancólica constatação do inevitável: de como a raça humana parece presa em um ciclo de euforia, expansão, crise, aniquilação e renascimento, sempre sem a memória da tragédia anterior. Em teoria, já passamos por isso antes e voltaremos a sofrer tudo de novo. Nesse ponto, não deixa de ser profético, já que, passados quarenta anos, é exatamente o que parecemos estar vendo no mundo à nossa volta, com globalização, ressurgimento de epidemias e ameaça de afogamento em massa.
Apesar dessas duas relevantes e profundas discussões, a maior parte do livro só se arrasta sem que nada aconteça. Os personagens secundários entram e saem da narrativa sem explicação nem destino, e os protagonistas sùbitamente perdem a importância no final, que é apenas um corte abrupto, sem dar qualquer satisfação ao leitor.
Em síntese, uma obra dispensável. Agora peguei The Wanderer, de Fritz Leiber. Esse também não começou bem, mas espero que avance e termine melhor. Em síntese: como a humanidade reagiria diante da súbita entrada de outra estrela no Sistema Solar?
4. Levantamento completo
Eu não sei se acontece com vocês -- sei que acontece com o Leandro Pinto e comigo. Às vezes, a televisão mostra o lançamento de um ônibus espacial. A câmera fecha nos bocais e suas fagulhas, você ouve a contagem regressiva, e aí entra a voz original, “... two, one -- LIFTOFF”, e é aquela fumaceira danada que se expande imediatamente para os lados quando eles acendem os boosters, e é uma gloriosa coluna de fogo enquanto a nave vai saindo devagarinho mas dando aquela impressão de potência, e quem presta atenção ainda consegue ver os jatos dos motores da própria nave, deixando anéis azuis de choque sônico...
Uma visão impressionante. Sei que não tenho nada com isso: não trabalho para a NASA, não faço parte dessa indústria, nem americano eu sou, não tenho nenhum envolvimento. Mesmo assim, dá-me um arrepio qualquer, é uma realização da espécie humana. Tecnologia que nem é das mais modernas, e difìcilmente seria motivo de orgulho em uma civilização verdadeiramente avançada, mas é o que conseguimos fazer.
5. Gol contra
Quando tem o hábito de olhar para o céu, você às vezes estranha certas coisas. Outro dia, eu estava no ônibus a caminho do trabalho, percorrendo a avenida Chile no sentido Oeste-Leste, ou zona Norte-Centro, se preferir. Olhei pela janela, e lá estava um 737 da Gol voando baixo sobre o Centro no sentido inverso ao meu, aliás indo um pouco para o Norte e já curvando a bombordo.
Isso pode não significar muito para você, mas, quando o avião sumiu atrás de um prédio, fiquei olhando para ver se não estava enganado. Porque, naquela altura do Centro, os aviões que vão para o Santos-Dumont sempre voam no mesmo sentido do ônibus, apenas um pouco mais para o Sul, e não justamente ao contrário, que era o que eu estava vendo.
Afinal ele se endireitou, e você logo pensa que devia estar ajustando a rota ou cumprindo algum comando diferente da torre do aeroporto, mas não deixa de parar um pouco o que faz para prestar atenção. Eu páro.
Recém-lido: Aquablue no. 3, de Thierry Cailleteau e Olivier Vatine, traduzido com galicismos.
14 março 2008
Retorno ao princípio de Lavoisier
Armageddon: the Alien Agenda (novembro de 1991 a fevereiro de 1992)
Nesta história, o Capitão Átomo salta no tempo, do presente até o período Cretáceo, de lá à Roma de Nero, dali ao Velho Oeste e, finalmente, à II Guerra Mundial. A causa de cada um desses saltos é sempre uma explosão emanada de um determinado dispositivo muito poderoso chamado simplesmente de "detonador". Sempre vem alguém e estimula o detonador, que reage projetando o herói no tempo.
Mais uma vez, se a história lhe parece familiar, é porque é. Isso foi exatamente o que aconteceu ao Super-homem na seqüência Time and Time Again, em Adventures of Superman #476-478, Action Comics #663-664 e Superman #54-55 (março a maio de 1991), publicadas no Brasil como Perdido no tempo, em Super-homem nos. 111-112 (agosto e outubro de 1993).
New Titans # 51 (inverno de 1988)
Nesta história magnìficamente desenhada pelo detalhista George Pérez, os Novos Titãs entram em uma nave espacial pouco maior do que sua mão. Só que, por dentro, a nave é gigantesca. Starfire (Estelar) comenta que só viu algo assim no planeta Tardyss (pelo menos essa é a grafia da edição brasileira, Os Novos Titãs no. 44, de novembro de 1989). A referência é uma homenagem ou uma brincadeira (ou, mais provàvelmente, as duas) à nave TARDIS, do seriado Doctor Who, que, por fora, imita uma cabine telefônica, enquanto é muito maior por dentro.
Recém-lidos:
October the First Is Too Late, de Fred Hoyle;
Justice League Spectacular #1 (março de 1992);
The Sandman #36 (abril de 1992).
Nesta história, o Capitão Átomo salta no tempo, do presente até o período Cretáceo, de lá à Roma de Nero, dali ao Velho Oeste e, finalmente, à II Guerra Mundial. A causa de cada um desses saltos é sempre uma explosão emanada de um determinado dispositivo muito poderoso chamado simplesmente de "detonador". Sempre vem alguém e estimula o detonador, que reage projetando o herói no tempo.
Mais uma vez, se a história lhe parece familiar, é porque é. Isso foi exatamente o que aconteceu ao Super-homem na seqüência Time and Time Again, em Adventures of Superman #476-478, Action Comics #663-664 e Superman #54-55 (março a maio de 1991), publicadas no Brasil como Perdido no tempo, em Super-homem nos. 111-112 (agosto e outubro de 1993).
New Titans # 51 (inverno de 1988)
Nesta história magnìficamente desenhada pelo detalhista George Pérez, os Novos Titãs entram em uma nave espacial pouco maior do que sua mão. Só que, por dentro, a nave é gigantesca. Starfire (Estelar) comenta que só viu algo assim no planeta Tardyss (pelo menos essa é a grafia da edição brasileira, Os Novos Titãs no. 44, de novembro de 1989). A referência é uma homenagem ou uma brincadeira (ou, mais provàvelmente, as duas) à nave TARDIS, do seriado Doctor Who, que, por fora, imita uma cabine telefônica, enquanto é muito maior por dentro.
Recém-lidos:
October the First Is Too Late, de Fred Hoyle;
Justice League Spectacular #1 (março de 1992);
The Sandman #36 (abril de 1992).
07 março 2008
Soberania e sandiceria
Estou muito apreensivo com essas deportações em massa que a Espanha parece vir fazendo de brasileiros que lá chegam com genuínas e comprovadas intenções de fazer não mais do que turismo. Aparentemente, brasileiros que chegam à Espanha com todos os comprovantes exigidos (dinheiro bastante conforme a norma espanhola, cartões de crédito, passagem de volta, vouchers de hotéis) têm sido tratados como cães sarnentos, sido presos por dias seguidos sem banho, comida ou água, e afinal mandados de volta. Não sei se os relatos que leio são inteiramente verídicos, mas estou preocupado.
Aí, leio na Internet que o Congresso Nacional brasileiro exigirá que o embaixador espanhol no Brasil compareça para dar explicações. Espero que o jornalista esteja enganado. Prefiro acreditar no que ouvi no jornal da noite de ontem: que o Presidente da Câmara convidará o embaixador a esclarecer o que acontece, o que é muito diferente. Porque, se a primeira hipótese se confirmar, a situação há de ser ridícula. De acordo com princípios básicos do Direito internacional, embaixadores e seus países não se sujeitam a dar explicações do que fazem a outros países. Especialmente, não se sujeitam a ter que explicar atos que praticam no exercício da soberania nacional. Por mais desagradável que seja o tratamento supostamente dispensado aos brasileiros (e, se os relatos forem verdadeiros, é realmente um tratamento indigno, sub-humano, humilhante, lastimável e que só manchará a reputação da Espanha), mesmo assim é praticado no exercício da soberania, sem que se devam explicações internacionalmente. A Espanha não deve satisfações a ninguém por sua forma de proceder neste tema, ainda quando extremamente inadequada. Soberania é exatamente isso, e um dos dogmas do Direito internacional é que cabe somente ao Estado a decisão de quem deixar ingressar em seu território. Seria risível uma intimação do embaixador para vir se explicar ao Congresso, que não tem autoridade nenhuma sobre ele.
Naturalmente, essa intransponível, insindicável e soberana atuação da Espanha é justamente o que me preocupa, porque não há nenhuma autoridade a quem recorrer. Não há como submeter o caso a um juiz brasileiro ou espanhol, não há onde registrar uma reclamação efetiva, não há onde reclamar direitos ou buscar indenizações.
Recém-lidas:
Armageddon: the Alien Agenda #4 (fevereiro de 1992);
Justice League Quarterly #6 (fevereiro de 1992), segunda história, traduzida.
Aí, leio na Internet que o Congresso Nacional brasileiro exigirá que o embaixador espanhol no Brasil compareça para dar explicações. Espero que o jornalista esteja enganado. Prefiro acreditar no que ouvi no jornal da noite de ontem: que o Presidente da Câmara convidará o embaixador a esclarecer o que acontece, o que é muito diferente. Porque, se a primeira hipótese se confirmar, a situação há de ser ridícula. De acordo com princípios básicos do Direito internacional, embaixadores e seus países não se sujeitam a dar explicações do que fazem a outros países. Especialmente, não se sujeitam a ter que explicar atos que praticam no exercício da soberania nacional. Por mais desagradável que seja o tratamento supostamente dispensado aos brasileiros (e, se os relatos forem verdadeiros, é realmente um tratamento indigno, sub-humano, humilhante, lastimável e que só manchará a reputação da Espanha), mesmo assim é praticado no exercício da soberania, sem que se devam explicações internacionalmente. A Espanha não deve satisfações a ninguém por sua forma de proceder neste tema, ainda quando extremamente inadequada. Soberania é exatamente isso, e um dos dogmas do Direito internacional é que cabe somente ao Estado a decisão de quem deixar ingressar em seu território. Seria risível uma intimação do embaixador para vir se explicar ao Congresso, que não tem autoridade nenhuma sobre ele.
Naturalmente, essa intransponível, insindicável e soberana atuação da Espanha é justamente o que me preocupa, porque não há nenhuma autoridade a quem recorrer. Não há como submeter o caso a um juiz brasileiro ou espanhol, não há onde registrar uma reclamação efetiva, não há onde reclamar direitos ou buscar indenizações.
Recém-lidas:
Armageddon: the Alien Agenda #4 (fevereiro de 1992);
Justice League Quarterly #6 (fevereiro de 1992), segunda história, traduzida.
05 março 2008
Moisés e suas guloseimas ilícitas
Dêem uma olhada nisto:
Moses was high on drugs: Israeli researcher
Segundo esse pesquisador israelense, Moisés estava sob efeito de "guloseimas ilícitas" (para usar um termo que aprendi na MTV) quando desceu do monte Sinai com as Tábuas da Lei (que qualquer um que tenha visto Mel Brooks sabe que eram três, não duas, e que os mandamentos eram doze, não dez).
Como disse DanLS no Newsvine, "a guy went up onto a mountain alone, and when he came back he had carved stone tablets that he said were carved by God..... is anyone surprised he might've been on drugs?"
Vejam bem, o problema não estaria no Moisés. Acontece é que faz uns 2700 anos que tem muita gente seguindo o que ele supostamente escreveu... Já pensou? Um sistema jurídico inteiro baseado em uma viagem?
Até que a notícia não é tão ruim, comparada à corrente segundo a qual toda a história do Êxodo é mitologia.
De todo modo, mesmo que se confirme que Moisés não passaria no antidoping, não há razão para alarme. São comuns os casos de grandes obras compostas sob efeito de substâncias que induzem estados alterados de consciência. Alguns prováveis casos célebres são os álbuns da fase clássica do Genesis (Foxtrot, The Lamb Lies Down on Broadway), tudo do Pink Floyd até Dark Side of the Moon, Wish You Were Here e The Wall, as últimas músicas dos Beatles, toda a obra de Jimi Hendrix e do The Doors, Stairway to Heaven e, a bem da verdade, praticamente todo o rock de qualidade do fim dos anos 60 e início dos 70. Quer dizer, trata-se mais de um elogio do que de uma nódoa na reputação do líder hebreu. Se a hipótese estiver correta, ele estará em excelente companhia.
Recém-lidas:
Conan #16 (maio de 2005), traduzida;
The Sandman #35 (fevereiro de 1992), traduzida.
Moses was high on drugs: Israeli researcher
Segundo esse pesquisador israelense, Moisés estava sob efeito de "guloseimas ilícitas" (para usar um termo que aprendi na MTV) quando desceu do monte Sinai com as Tábuas da Lei (que qualquer um que tenha visto Mel Brooks sabe que eram três, não duas, e que os mandamentos eram doze, não dez).
Como disse DanLS no Newsvine, "a guy went up onto a mountain alone, and when he came back he had carved stone tablets that he said were carved by God..... is anyone surprised he might've been on drugs?"
Vejam bem, o problema não estaria no Moisés. Acontece é que faz uns 2700 anos que tem muita gente seguindo o que ele supostamente escreveu... Já pensou? Um sistema jurídico inteiro baseado em uma viagem?
Até que a notícia não é tão ruim, comparada à corrente segundo a qual toda a história do Êxodo é mitologia.
De todo modo, mesmo que se confirme que Moisés não passaria no antidoping, não há razão para alarme. São comuns os casos de grandes obras compostas sob efeito de substâncias que induzem estados alterados de consciência. Alguns prováveis casos célebres são os álbuns da fase clássica do Genesis (Foxtrot, The Lamb Lies Down on Broadway), tudo do Pink Floyd até Dark Side of the Moon, Wish You Were Here e The Wall, as últimas músicas dos Beatles, toda a obra de Jimi Hendrix e do The Doors, Stairway to Heaven e, a bem da verdade, praticamente todo o rock de qualidade do fim dos anos 60 e início dos 70. Quer dizer, trata-se mais de um elogio do que de uma nódoa na reputação do líder hebreu. Se a hipótese estiver correta, ele estará em excelente companhia.
Recém-lidas:
Conan #16 (maio de 2005), traduzida;
The Sandman #35 (fevereiro de 1992), traduzida.
Retratação
Não, retratação não é o mesmo que tirar retrato.
Algumas vezes desde 2006, andei dizendo que jornalistas brasileiros não têm preparo. Permitam-me corrigir o que eu disse. O certo é dizer que alguns jornalistas brasileiros não têm preparo. Pelo menos duas das pessoas que mais admiro são jornalistas brasileiros e podem ter ficado magoadas com minha injustiça, que estou tentando reparar. De todo modo, os bons jornalistas não merecem o tratamento que lhes dei.
Editei os textos do belogue que, contra minha intenção, criticavam a categoria de modo excessivamente abrangente. Se alguém ainda encontrar alguma ofensa, por favor me avise, que eu tiro. Obrigado.
Algumas vezes desde 2006, andei dizendo que jornalistas brasileiros não têm preparo. Permitam-me corrigir o que eu disse. O certo é dizer que alguns jornalistas brasileiros não têm preparo. Pelo menos duas das pessoas que mais admiro são jornalistas brasileiros e podem ter ficado magoadas com minha injustiça, que estou tentando reparar. De todo modo, os bons jornalistas não merecem o tratamento que lhes dei.
Editei os textos do belogue que, contra minha intenção, criticavam a categoria de modo excessivamente abrangente. Se alguém ainda encontrar alguma ofensa, por favor me avise, que eu tiro. Obrigado.
04 março 2008
Especialistas
Agora é assim: se cai um monomotor na Barra da Tijuca, automàticamente o delegado de polícia da Barra se torna especialista em combustíveis de aviação. Imediatamente, vemos outros especialistas discursando sobre o correto abastecimento de monomotores Cirrus com gasolina verde versus querosene. Vemos, também, especulações sobre os motivos que levaram o falecido proprietário da aeronave a concordar com um abastecimento feito com querosene. Ouvimos Fátima Bernardes pronunciar "QAV 1" como "QA - V1", indicando sua intimidade com a matéria.
Vemos, ainda, moradores da Barra da Tijuca (que compraram seus apartamentos VINTE ANOS DEPOIS de o aeroporto estar funcionando) virem dizer na televisão que OS AVIÕES PASSAM MUITO BAIXO ALI, NAS IMEDIAÇÕES DO AEROPORTO. E a dita depoente, indefectìvelmente, previsìvelmente, termina seu discurso revoltada, perguntando, "..., 'tendeu?".
Então é assim: eu vejo a pista, eu compro uma casa bem alinhada com a reta da pista, e depois reclamo que os aviões passam muito baixo quando estão subindo e descendo. Certo? Òbviamente, vão culpar a ANAC, a Infraero e o Lula. Sim, porque já há quem fale em culpar o frentista (aeroporto tem frentista?). Já vi gente no saite dO Globo imputando o acidente até à BR Distribuidora, embora a nota fiscal de fornecimento mostrada na televisão seja de outra empresa.
Como disse minha irmã: tem sempre que terminar a frase dizendo "..., 'tendeu?".
Vemos, ainda, moradores da Barra da Tijuca (que compraram seus apartamentos VINTE ANOS DEPOIS de o aeroporto estar funcionando) virem dizer na televisão que OS AVIÕES PASSAM MUITO BAIXO ALI, NAS IMEDIAÇÕES DO AEROPORTO. E a dita depoente, indefectìvelmente, previsìvelmente, termina seu discurso revoltada, perguntando, "..., 'tendeu?".
Então é assim: eu vejo a pista, eu compro uma casa bem alinhada com a reta da pista, e depois reclamo que os aviões passam muito baixo quando estão subindo e descendo. Certo? Òbviamente, vão culpar a ANAC, a Infraero e o Lula. Sim, porque já há quem fale em culpar o frentista (aeroporto tem frentista?). Já vi gente no saite dO Globo imputando o acidente até à BR Distribuidora, embora a nota fiscal de fornecimento mostrada na televisão seja de outra empresa.
Como disse minha irmã: tem sempre que terminar a frase dizendo "..., 'tendeu?".
Recomendação de hoje: objetividade
Ontem, a caminho do trabalho, eu estava para descer do ônibus quando vi uma mulher aplicando rímel, espelhinho em punho, dentro do mesmo veículo. Sabemos que ônibus parados têm a incômoda tendência de entrarem em movimento com um arranco súbito. Lembrei-me daquele sujeito tentando fazer a barba enquanto a nave fazia um pouso forçado em Apertem os Cintos! O Piloto Sumiu... II.
Uma dica
Às vezes, na rotina diária, você precisa entrar em contato com atendentes que não são responsáveis pelo processo. Em 100% das vezes, essas pessoas não estão interessadas nos detalhes motivadores da sua necessidade e, na maioria das vezes (mas não todas), são pessoas burras. Trata-se de gente que não entende como funciona o processo, não tem domínio dele nem decidirá nada. Estão ali apenas para tomar dados e registrar seu pedido em uma tarefa roboticamente chapliniana, e qualquer informação será descartada se não estiver prevista pelo formulário que preenchem. Se você lhes fizer alguma pergunta, a resposta será um invariável "não sei".
Então, você tem que ser o mais objetivo possível, especificando exatamente o que quer, sem ambigüidades, justificativas ou digressões. Se fizerem perguntas, responda do modo mais lacônico: "sim", "não", data exata, nome exato, endereço etc.
Vou lhe dar um exemplo. Um colega meu tinha exame médico marcado para hoje. Meia hora antes, descobriu que havia esquecido a carteirinha do plano de saúde e percebeu que não seria atendido. Imediatamente, telefonou para remarcar. Mencionou o esquecimento para justificar a necessidade de remarcação. É aí que digo: para quem está no outro lado da linha, é irrelevante o motivo. Então, ele gastou tempo à toa, próprio e alheio: não deveria ter se esforçado para esclarecer o motivo, que não foi perguntado; bastava apenas pedir para remarcar.
Recém-lidas:
The Sandman #34 (janeiro de 1992), traduzida;
Armageddon: the Alien Agenda #3 (janeiro de 1992).
Uma dica
Às vezes, na rotina diária, você precisa entrar em contato com atendentes que não são responsáveis pelo processo. Em 100% das vezes, essas pessoas não estão interessadas nos detalhes motivadores da sua necessidade e, na maioria das vezes (mas não todas), são pessoas burras. Trata-se de gente que não entende como funciona o processo, não tem domínio dele nem decidirá nada. Estão ali apenas para tomar dados e registrar seu pedido em uma tarefa roboticamente chapliniana, e qualquer informação será descartada se não estiver prevista pelo formulário que preenchem. Se você lhes fizer alguma pergunta, a resposta será um invariável "não sei".
Então, você tem que ser o mais objetivo possível, especificando exatamente o que quer, sem ambigüidades, justificativas ou digressões. Se fizerem perguntas, responda do modo mais lacônico: "sim", "não", data exata, nome exato, endereço etc.
Vou lhe dar um exemplo. Um colega meu tinha exame médico marcado para hoje. Meia hora antes, descobriu que havia esquecido a carteirinha do plano de saúde e percebeu que não seria atendido. Imediatamente, telefonou para remarcar. Mencionou o esquecimento para justificar a necessidade de remarcação. É aí que digo: para quem está no outro lado da linha, é irrelevante o motivo. Então, ele gastou tempo à toa, próprio e alheio: não deveria ter se esforçado para esclarecer o motivo, que não foi perguntado; bastava apenas pedir para remarcar.
Recém-lidas:
The Sandman #34 (janeiro de 1992), traduzida;
Armageddon: the Alien Agenda #3 (janeiro de 1992).
02 março 2008
O princípio de Lavoisier aplicado aos quadrinhos
Esta entrada no belogue é mais para documentar para mim mesmo do que por outra razão qualquer.
Adventures of Superman Annual #3 (1991)
Esta edição faz parte do crossover Armageddon 2001 e, como tal, acontece em um futuro alternativo. Lady Maxima, governante de Almerac, está sendo compelida pelos sábios a se casar. Como ela não escolheu um consorte, a lei exige que eles o façam por ela. O escolhido é o Príncipe De'Cine, que ela rejeita, preferindo casar-se com o Super-homem. Para isso, ela vai procurá-lo na Terra.
Se a história lhe parece familiar, é porque é. Esse foi exatamente o roteiro básico visto em Green Lantern #45, que já comentei aqui.
Recém-lidos:
Armageddon: the Alien Agenda #2 (dezembro de 1991);
Batman: Master of the Future (1992) traduzido.
Adventures of Superman Annual #3 (1991)
Esta edição faz parte do crossover Armageddon 2001 e, como tal, acontece em um futuro alternativo. Lady Maxima, governante de Almerac, está sendo compelida pelos sábios a se casar. Como ela não escolheu um consorte, a lei exige que eles o façam por ela. O escolhido é o Príncipe De'Cine, que ela rejeita, preferindo casar-se com o Super-homem. Para isso, ela vai procurá-lo na Terra.
Se a história lhe parece familiar, é porque é. Esse foi exatamente o roteiro básico visto em Green Lantern #45, que já comentei aqui.
Recém-lidos:
Armageddon: the Alien Agenda #2 (dezembro de 1991);
Batman: Master of the Future (1992) traduzido.
24 fevereiro 2008
O Rei adormecido
Até o século V, a Bretanha era ocupada pelos celtas bretões. Do século I ao IV, a Ilha havia sido colonizada pelo Império Romano, mas, no final desse período, as legiões tiveram de retirar-se para socorrer as demais fronteiras e a capital, que eram acossadas pelos bárbaros. Com isso, a Bretanha ficou desprotegida e passou a sofrer o assédio dos saxões, que começaram a conquistá-la no século IV.
De acordo com a tradição medieval, foi no século IV ou V que um rei bretão, Arthur Pendragon, liderou os celtas na defesa contra os saxões. Freqüentemente se retrata Artur como defensor da fé cristã em face de invasores pagãos, embora eu tenha por bastante provável que essa noção tenha sido acrescentada apenas mais tarde. A origem das narrativas sobre o Rei Artur não é de todo clara, mas costuma-se aceitar a hipótese de que se baseiem na história real de um importante líder guerreiro. Conforme registrada desde a Idade Média, a lenda arturiana é, antes de tudo, um exemplo vigoroso de mitologia céltica, como célticos são os nomes envolvidos.
A confusão entre História e mitologia é explicável na medida em que são parcos os registros da Alta Idade Média, um tempo cuja memória se imiscui com o misticismo de uma Europa ainda bárbara, largamente analfabeta e atemorizada pela crise do desaparecimento do Império Romano. Não à toa, a tradição histórica desse período depende em parte da oralidade, fazendo desaparecer sua confiabilidade na bruma dos tempos e obnubilando a compreensão dos estudiosos.
Alguns importantes relatos medievais que mencionam Artur são os Annales Cambriae (coleção de crônicas britânicas), o Mabinogion (coleção de lendas célticas pré-cristãs) e a História dos Reis da Bretanha (obra de Geoffrey de Monmouth, considerada fictícia por Autores posteriores). O culto literário da lenda começou com o francês Chrétien de Troyes no século XII e, no século XV, Sir Thomas Malory compilou e interpretou tais histórias em seu Le Morte d’Arthur, considerado uma das principais fontes sobre o tema.
Artur é representado como filho do Rei Uther Pendragon, que já defendia a Bretanha de invasões com ajuda do mago Merlin. Conforme a lenda, a Espada da Bretanha (também conhecida como a Espada na Pedra) é engastada por Uther em uma rocha e somente seu sucessor seria capaz de retirá-la. Após a morte de Uther, seu filho consegue puxar a espada, demonstrando sua linhagem real. Conforme é cediço, a lenda de Artur é rica em detalhes de sua corte em Camelot e das conquistas de seus Cavaleiros da Távola Redonda.
O mago Merlin (Myrddin na grafia celta) apresenta-se com a descrição característica de um sábio druida. Sua apresentação como filho de um demônio e a atribuição de poderes mágicos que se lhe faz são indícios da interpretação que se passou a dar ao personagem após a cristianização da Europa: tudo que não fosse cristão era declarado maligno e associado a bruxaria -- inclusive o preceptor de um rei mitológico tão popular.
Outro elemento da lenda é a meia-irmã, bruxa e arquiinimiga de Artur, Morgana le Fey. Convém observar que “le Fey” possivelmente significa “a Fada” e que o nome dessa antagonista provavelmente deriva do nome da deusa celta Morrigan, naturalmente também demonizada por ser uma entidade de culto anterior ao estabelecimento do Cristianismo na Europa. Ainda como parte da narrativa, tem-se a Dama do Lago, Excalibur (distinta da Espada na Pedra), a ilha mística de Avalon, a Rainha Guinevere ou Gwenhwyfar, o filho, sobrinho e rival de Artur, Modred ou Mordred, o triângulo amoroso entre Artur, seu melhor amigo Sir Lancelot e sua rainha, e a busca do Santo Graal.
Há uma narrativa medieval, a lenda de Tristão e Isolda, que se considera anterior à lenda arturiana, mas que acabou incorporada a esta última. Assim, Tristão passou a ser o cavaleiro Sir Tristan, que, com sua amada Isolda (Iseult ou Isolde), vive uma história de paixão e adultério que viria a influenciar o triângulo de Artur, Guinevere e Lancelot. Na década de 1850, Richard Wagner adaptou a lenda como uma das óperas mais famosas do período romântico e, em 2006, o filme Tristan & Isolde, de Kevin Reynolds, utilizou seu roteiro.
Considera-se que a lenda arturiana seja ambientada em Gales e no Sudoeste da Inglaterra, o que, não por coincidência, corresponde à porção Sul do território bretão que continuou céltico após a conquista da Bretanha pelos saxões (a porção Norte é a atual Escócia, e a porção Oeste, a Irlanda). Atualmente, os locais de diversas batalhas travadas por Artur são identificados em mapas com finalidade turística.
Mesmo após a batalha final contra Modred e a queda de Camelot, a lenda arturiana considera que o Rei não está morto, mas apenas dormindo sob o solo britânico, e prevê que ele retornará para salvar a Ilha quando ela estiver em grave perigo. Essa é a idéia recorrente do mito universal do “rei na montanha” ou “herói adormecido”, aproveitada por Tolkien em O senhor dos anéis na figura do rei de Gondor e por Neil Gaiman em Os livros da magia, quando Tim Hunter encontra o próprio Rei Adormecido.
A história de Artur tem sido objeto de inúmeras obras de literatura e cinema. Esta entrada está sendo feita no belogue apenas para minha referência futura, com o objetivo de documentar os mais destacados dentre aqueles trabalhos com que me deparei em anos recentes, dos quais só li um e que são os seguintes.
A Connecticut Yankee in King Arthur’s Court (Um ianque na corte do Rei Artur), de Mark Twain (1889). Neste livro, um viajante do tempo vai parar em Camelot em uma história que pretende criticar a superstição e credulidade dos ingleses medievais.
The Once and Future King, de T.H. White (1938-1958). Esta é a reunião de quatro livros do mesmo Autor, onde a lenda é associada aos nobres ideais da cavalaria, surgidos e consolidados entre os séculos XI e XV. A melancólica trama demonstra como os erros de julgamento de um bem intencionado Artur levaram a um destino trágico e inevitável. Uma obra póstuma e posterior, The Book of Merlyn, integra o conjunto mas é publicada separadamente.
The Sword in the Stone (A espada era a lei), dos estúdios Disney (1963). Assisti a este desenho animado no cinema. É baseado no primeiro dos livros de White.
Camelot (1967). Este filme é uma adaptação da peça musical de mesmo nome, estrelando Richard Harris como Arthur e Vanessa Redgrave como Guinevere.
Monty Python and the Holy Grail (Monty Python e o Cálice Sagrado), de Terry Gilliam e Terry Jones (1975). Esta é uma das melhores comédias que você já viu. Merecem destaques o coelhinho assassino, o confronto com o Cavaleiro Negro (“It’s just a flesh wound!”) e o ataque ao castelo de Aaaaarrrrrrggghhh. Em 2005, o filme foi adaptado para a peça Spamalot, de Eric Idle, a que tive o privilégio de assistir em junho de 2007.
Excalibur, de John Boorman (1981). Este filme é fortemente baseado na mitologia céltica que fundamenta a lenda arturiana, usando Le Morte d’Arthur como fonte primária mas adaptando-a com a inserção de interpretações posteriores. Supostamente, é o filme mais fiel à formulação original da história do Rei.
Camelot 3000, de Mike W. Barr e Brian Bolland (1982-1985). Quadrinhos de ficção científica em doze capítulos publicados pela DC Comics que, no Brasil, a editora Abril lançou em 1985. No ano 3000, uma invasão alienígena ameaça todo o mundo e, cumprindo a profecia, desperta o esperado Rei, que busca o auxílio de Merlin, aprisionado sob Stonehenge. A Rainha Guinevere e os Cavaleiros da Távola Redonda estão reencarnados como outras pessoas, e o feiticeiro pratica um encantamento que os faz lembrar quem são. Embora Artur se sinta deslocado em um futuro tecnológico, sua equipe consegue mesclar o conhecimento necessário à lealdade por seu rei. Artur, Lancelot e Guinevere continuam fadados a reviver seu triângulo amoroso, velhos inimigos retornam e a saga arturiana repete-se em um cenário influenciado pela política internacional e pela reação popular ao retorno do Rei.
Uma história paralela à principal em Camelot 3000 é a de Tristão e Isolda. Acidentalmente, Sir Tristan reencarna no corpo de uma mulher e passa a continuamente ter que se impor para se fazer respeitar, ao mesmo tempo em que vive o conflito interno e a revolta por estar assim aprisionado. O personagem presta-se a uma interessante discussão sobre papéis sociais e preconceito sexual. Além disso, de um lado reluta em admitir sua paixão por Isolda e, doutro, defende-se dos ataques do policial com quem ia se casar. Este último, rejeitado, alia-se aos inimigos e retorna em sucessivos ataques motivados por um ciúme crescentemente doentio, a cada vez mais transformado em um monstro que parece impossível matar.
Na edição brasileira Arthur: uma epopéia celta (q.v. abaixo), o Editor Rodrigo Fonseca descreve Camelot 3000 como uma explosão de sensualidade sem precedentes nos quadrinhos. Embora haja algumas cenas com mulheres em trajes mínimos e representações mais ou menos explícitas (inclusive uma sugestiva e bela cena romântica envolvendo Sir Tristan e sua amada), esse colorido é apenas secundário, não tomando precedência sobre o reencontro e a revanche entre antigos rivais com um pano de fundo futurista.
Incidentalmente, cabe lembrar que Mike W. Barr foi o roteirista de Star Trek: the Mirror Universe Saga, uma elogiada história em quadrinhos, também publicada pela DC, que dá continuidade a "Mirror, Mirror" e a Star Trek III, anos antes, respectivamente, do episódio "Crossover" (continuação do primeiro) e do filme Star Trek IV (continuação do segundo).
The Mists of Avalon (As brumas de Avalon), de Marion Z. Bradley (1983). Este livro de enorme sucesso comercial, dividido em quatro partes, narra a história sob a perspectiva céltica de suas mulheres mais proeminentes.
First Knight (Lancelot: o Primeiro Cavaleiro), de Jerry Zucker (1995). Estrelando Sean Connery como o Rei, Richard Gere no papel-título e Julia Ormond como Guinevere, este romance enfatiza a história de paixão e adultério das três figuras e foi considerado sem graça por público e crítica.
The Warlord Chronicles (As crônicas de Artur), de Bernard Cornwell (1995-1997). São três livros, dos quais o primeiro é The Winter King (O rei do inverno). Misturando fatos históricos e ficção, a trilogia oferece uma visão crua de batalhas medievais com pouco espaço para o misticismo.
Arthur (Arthur: uma epopéia celta), de David Chauvel e Jérôme Lereculey (1999-2006). Esta história em quadrinhos francesa, dividida em nove volumes e publicada no Brasil em 2005 pela Ediouro, supostamente se baseia no Mabinogion, empregando conceitos e nomes celtas. Até agora, li o volume 1, que conta a história de Merlin até antes de seu primeiro encontro com Uther. Magnificamente desenhado, o roteiro é vigoroso, dramático e pleno de magia e do espírito implacável de uma civilização ocidental pré-cristã.
King Arthur (Rei Artur), de Antoine Fuqua (2004). Este filme pretende-se purista, supostamente se baseando no conteúdo histórico que deu origem à lenda mas deixando de fora as inserções posteriores que lhe deram a forma atual. Clive Owen desempenha o papel-título como o romano-bretão Artorius Castus, oficial de cavalaria que defende a Bretanha de invasões no século V.
The Last Legion, de Doug Lefler (2007), baseado no romance de Valerio M. Manfredi. Este filme apresenta uma história do último imperador romano Rômulo Augusto (Colin Firth), que, com a queda do Império, retira-se para a Muralha de Adriano, onde se reúne com a desaparecida Nona Legião e a transforma nos Cavaleiros da Távola Redonda (aproveitando para explicar a equivocada versão de que a Nona teria sido exterminada naquela área). Seu tutor, Ambrosinus (Ben Kingsley), é identificado com Merlin, e o próprio Rômulo Augusto é apresentado como o pai de Arthur Pendragon, originando a lenda arturiana.
A lenda também aparece incidentalmente em diversas histórias da Marvel e da DC. No caso da segunda, o principal destaque é para o demônio Etrigan, um personagem recorrente criado por Jack Kirby em 1972. Convocado por Merlin para defender Camelot, Etrigan foi, em seguida, aprisionado pelo mago no corpo de Jason Blood, que, assim, tornou-se imortal. Blood e Etrigan aparecem tanto em séries próprias (normalmente intituladas The Demon) como, numerosas vezes, em histórias de outros personagens. Desde sua aparição em Swamp Thing quando Alan Moore escrevia esse título, Etrigan é caracterizado por só se expressar mediante rimas.
Uma história de pouco significado é Batman: Dark Knight of the Round Table, de Bob Layton e Dick Giordano (1998), publicada no Brasil em DC Millennium, números 7 a 9, da editora Brain Store. Aqui, Bruce Wayne força sua entrada na corte de Artur para se vingar de uma injustiça que atribui ao Rei. No final da história, torna-se o Herói Adormecido e seu descendente atua em defesa da Inglaterra na II Guerra Mundial.
Outras histórias da DC trazem rápidas visitas a Camelot. Alguns exemplos que já encontrei são
- Swamp Thing #87 (junho de 1989), onde o Monstro do Pântano é levado ao momento da batalha final de Artur e onde o Rei e sua corte são retratados em trajes renascentistas (demonstrando falta de estudo por parte do desenhista Tom Yeates). Artur aparece enlouquecido por um golpe na cabeça, comportando-se como um megalômano fora de caracterização, enquanto Merlin oferece a Etrigan a já referida rota de fuga. Para salvar o castelo do assédio de Modred e Morgana, o Monstro levanta-o e transporta-o sobre patas gigantes. Ao fim da história, o Monstro é forçado a largar o castelo no ar, e a queda de Camelot é literal;
- Superman # 55 (maio de 1991), onde o Homem de Aço é sucessivamente manipulado por Morgana e Merlin, atuando em ambos os lados do conflito que leva à queda de Camelot e ao aprisionamento de Etrigan;
- a cômica Justice League Europe Annual 1991, parte do crossover Armageddon 2001, onde Rocket Red (Soviete Supremo) vai parar na corte do Rei e enfrenta o demônio.
Alguns websites podem ser referências úteis:
The Monstrous Regiment of Arthurs
http://www.arthuriana.co.uk/historicity/arthurappendix.htm
Este eu coloco em primeiro lugar em razão de sua vasta fundamentação acadêmica e rica ênfase em sérias fontes bibliográficas.
De la Fantasy Arthurienne
http://www.erwelyn.com/mythearturien.html
Esta é uma extensa listagem de obras de ficção que tratam da lenda arturiana.
King Arthur & the Matter of Britain
http://bestoflegends.org/kingarthur/malory.html
E, com todas as ressalvas e a lembrança de que a Wikipedia não é confiável,
King Arthur
Historical basis for King Arthur
Annales Cambriae
Historia Regum Britanniae
Mabinogion
Chrétien de Troyes
Le Morte d'Arthur
Excalibur
King in the Mountain
A Connecticut Yankee in King Arthur's Court
The Once and Future King
King Arthur in various media
List of books about King Arthur
List of movies based on Arthurian legend
De acordo com a tradição medieval, foi no século IV ou V que um rei bretão, Arthur Pendragon, liderou os celtas na defesa contra os saxões. Freqüentemente se retrata Artur como defensor da fé cristã em face de invasores pagãos, embora eu tenha por bastante provável que essa noção tenha sido acrescentada apenas mais tarde. A origem das narrativas sobre o Rei Artur não é de todo clara, mas costuma-se aceitar a hipótese de que se baseiem na história real de um importante líder guerreiro. Conforme registrada desde a Idade Média, a lenda arturiana é, antes de tudo, um exemplo vigoroso de mitologia céltica, como célticos são os nomes envolvidos.
A confusão entre História e mitologia é explicável na medida em que são parcos os registros da Alta Idade Média, um tempo cuja memória se imiscui com o misticismo de uma Europa ainda bárbara, largamente analfabeta e atemorizada pela crise do desaparecimento do Império Romano. Não à toa, a tradição histórica desse período depende em parte da oralidade, fazendo desaparecer sua confiabilidade na bruma dos tempos e obnubilando a compreensão dos estudiosos.
Alguns importantes relatos medievais que mencionam Artur são os Annales Cambriae (coleção de crônicas britânicas), o Mabinogion (coleção de lendas célticas pré-cristãs) e a História dos Reis da Bretanha (obra de Geoffrey de Monmouth, considerada fictícia por Autores posteriores). O culto literário da lenda começou com o francês Chrétien de Troyes no século XII e, no século XV, Sir Thomas Malory compilou e interpretou tais histórias em seu Le Morte d’Arthur, considerado uma das principais fontes sobre o tema.
Artur é representado como filho do Rei Uther Pendragon, que já defendia a Bretanha de invasões com ajuda do mago Merlin. Conforme a lenda, a Espada da Bretanha (também conhecida como a Espada na Pedra) é engastada por Uther em uma rocha e somente seu sucessor seria capaz de retirá-la. Após a morte de Uther, seu filho consegue puxar a espada, demonstrando sua linhagem real. Conforme é cediço, a lenda de Artur é rica em detalhes de sua corte em Camelot e das conquistas de seus Cavaleiros da Távola Redonda.
O mago Merlin (Myrddin na grafia celta) apresenta-se com a descrição característica de um sábio druida. Sua apresentação como filho de um demônio e a atribuição de poderes mágicos que se lhe faz são indícios da interpretação que se passou a dar ao personagem após a cristianização da Europa: tudo que não fosse cristão era declarado maligno e associado a bruxaria -- inclusive o preceptor de um rei mitológico tão popular.
Outro elemento da lenda é a meia-irmã, bruxa e arquiinimiga de Artur, Morgana le Fey. Convém observar que “le Fey” possivelmente significa “a Fada” e que o nome dessa antagonista provavelmente deriva do nome da deusa celta Morrigan, naturalmente também demonizada por ser uma entidade de culto anterior ao estabelecimento do Cristianismo na Europa. Ainda como parte da narrativa, tem-se a Dama do Lago, Excalibur (distinta da Espada na Pedra), a ilha mística de Avalon, a Rainha Guinevere ou Gwenhwyfar, o filho, sobrinho e rival de Artur, Modred ou Mordred, o triângulo amoroso entre Artur, seu melhor amigo Sir Lancelot e sua rainha, e a busca do Santo Graal.
Há uma narrativa medieval, a lenda de Tristão e Isolda, que se considera anterior à lenda arturiana, mas que acabou incorporada a esta última. Assim, Tristão passou a ser o cavaleiro Sir Tristan, que, com sua amada Isolda (Iseult ou Isolde), vive uma história de paixão e adultério que viria a influenciar o triângulo de Artur, Guinevere e Lancelot. Na década de 1850, Richard Wagner adaptou a lenda como uma das óperas mais famosas do período romântico e, em 2006, o filme Tristan & Isolde, de Kevin Reynolds, utilizou seu roteiro.
Considera-se que a lenda arturiana seja ambientada em Gales e no Sudoeste da Inglaterra, o que, não por coincidência, corresponde à porção Sul do território bretão que continuou céltico após a conquista da Bretanha pelos saxões (a porção Norte é a atual Escócia, e a porção Oeste, a Irlanda). Atualmente, os locais de diversas batalhas travadas por Artur são identificados em mapas com finalidade turística.
Mesmo após a batalha final contra Modred e a queda de Camelot, a lenda arturiana considera que o Rei não está morto, mas apenas dormindo sob o solo britânico, e prevê que ele retornará para salvar a Ilha quando ela estiver em grave perigo. Essa é a idéia recorrente do mito universal do “rei na montanha” ou “herói adormecido”, aproveitada por Tolkien em O senhor dos anéis na figura do rei de Gondor e por Neil Gaiman em Os livros da magia, quando Tim Hunter encontra o próprio Rei Adormecido.
A história de Artur tem sido objeto de inúmeras obras de literatura e cinema. Esta entrada está sendo feita no belogue apenas para minha referência futura, com o objetivo de documentar os mais destacados dentre aqueles trabalhos com que me deparei em anos recentes, dos quais só li um e que são os seguintes.
A Connecticut Yankee in King Arthur’s Court (Um ianque na corte do Rei Artur), de Mark Twain (1889). Neste livro, um viajante do tempo vai parar em Camelot em uma história que pretende criticar a superstição e credulidade dos ingleses medievais.
The Once and Future King, de T.H. White (1938-1958). Esta é a reunião de quatro livros do mesmo Autor, onde a lenda é associada aos nobres ideais da cavalaria, surgidos e consolidados entre os séculos XI e XV. A melancólica trama demonstra como os erros de julgamento de um bem intencionado Artur levaram a um destino trágico e inevitável. Uma obra póstuma e posterior, The Book of Merlyn, integra o conjunto mas é publicada separadamente.
The Sword in the Stone (A espada era a lei), dos estúdios Disney (1963). Assisti a este desenho animado no cinema. É baseado no primeiro dos livros de White.
Camelot (1967). Este filme é uma adaptação da peça musical de mesmo nome, estrelando Richard Harris como Arthur e Vanessa Redgrave como Guinevere.
Monty Python and the Holy Grail (Monty Python e o Cálice Sagrado), de Terry Gilliam e Terry Jones (1975). Esta é uma das melhores comédias que você já viu. Merecem destaques o coelhinho assassino, o confronto com o Cavaleiro Negro (“It’s just a flesh wound!”) e o ataque ao castelo de Aaaaarrrrrrggghhh. Em 2005, o filme foi adaptado para a peça Spamalot, de Eric Idle, a que tive o privilégio de assistir em junho de 2007.
Excalibur, de John Boorman (1981). Este filme é fortemente baseado na mitologia céltica que fundamenta a lenda arturiana, usando Le Morte d’Arthur como fonte primária mas adaptando-a com a inserção de interpretações posteriores. Supostamente, é o filme mais fiel à formulação original da história do Rei.
Camelot 3000, de Mike W. Barr e Brian Bolland (1982-1985). Quadrinhos de ficção científica em doze capítulos publicados pela DC Comics que, no Brasil, a editora Abril lançou em 1985. No ano 3000, uma invasão alienígena ameaça todo o mundo e, cumprindo a profecia, desperta o esperado Rei, que busca o auxílio de Merlin, aprisionado sob Stonehenge. A Rainha Guinevere e os Cavaleiros da Távola Redonda estão reencarnados como outras pessoas, e o feiticeiro pratica um encantamento que os faz lembrar quem são. Embora Artur se sinta deslocado em um futuro tecnológico, sua equipe consegue mesclar o conhecimento necessário à lealdade por seu rei. Artur, Lancelot e Guinevere continuam fadados a reviver seu triângulo amoroso, velhos inimigos retornam e a saga arturiana repete-se em um cenário influenciado pela política internacional e pela reação popular ao retorno do Rei.
Uma história paralela à principal em Camelot 3000 é a de Tristão e Isolda. Acidentalmente, Sir Tristan reencarna no corpo de uma mulher e passa a continuamente ter que se impor para se fazer respeitar, ao mesmo tempo em que vive o conflito interno e a revolta por estar assim aprisionado. O personagem presta-se a uma interessante discussão sobre papéis sociais e preconceito sexual. Além disso, de um lado reluta em admitir sua paixão por Isolda e, doutro, defende-se dos ataques do policial com quem ia se casar. Este último, rejeitado, alia-se aos inimigos e retorna em sucessivos ataques motivados por um ciúme crescentemente doentio, a cada vez mais transformado em um monstro que parece impossível matar.
Na edição brasileira Arthur: uma epopéia celta (q.v. abaixo), o Editor Rodrigo Fonseca descreve Camelot 3000 como uma explosão de sensualidade sem precedentes nos quadrinhos. Embora haja algumas cenas com mulheres em trajes mínimos e representações mais ou menos explícitas (inclusive uma sugestiva e bela cena romântica envolvendo Sir Tristan e sua amada), esse colorido é apenas secundário, não tomando precedência sobre o reencontro e a revanche entre antigos rivais com um pano de fundo futurista.
Incidentalmente, cabe lembrar que Mike W. Barr foi o roteirista de Star Trek: the Mirror Universe Saga, uma elogiada história em quadrinhos, também publicada pela DC, que dá continuidade a "Mirror, Mirror" e a Star Trek III, anos antes, respectivamente, do episódio "Crossover" (continuação do primeiro) e do filme Star Trek IV (continuação do segundo).
The Mists of Avalon (As brumas de Avalon), de Marion Z. Bradley (1983). Este livro de enorme sucesso comercial, dividido em quatro partes, narra a história sob a perspectiva céltica de suas mulheres mais proeminentes.
First Knight (Lancelot: o Primeiro Cavaleiro), de Jerry Zucker (1995). Estrelando Sean Connery como o Rei, Richard Gere no papel-título e Julia Ormond como Guinevere, este romance enfatiza a história de paixão e adultério das três figuras e foi considerado sem graça por público e crítica.
The Warlord Chronicles (As crônicas de Artur), de Bernard Cornwell (1995-1997). São três livros, dos quais o primeiro é The Winter King (O rei do inverno). Misturando fatos históricos e ficção, a trilogia oferece uma visão crua de batalhas medievais com pouco espaço para o misticismo.
Arthur (Arthur: uma epopéia celta), de David Chauvel e Jérôme Lereculey (1999-2006). Esta história em quadrinhos francesa, dividida em nove volumes e publicada no Brasil em 2005 pela Ediouro, supostamente se baseia no Mabinogion, empregando conceitos e nomes celtas. Até agora, li o volume 1, que conta a história de Merlin até antes de seu primeiro encontro com Uther. Magnificamente desenhado, o roteiro é vigoroso, dramático e pleno de magia e do espírito implacável de uma civilização ocidental pré-cristã.
King Arthur (Rei Artur), de Antoine Fuqua (2004). Este filme pretende-se purista, supostamente se baseando no conteúdo histórico que deu origem à lenda mas deixando de fora as inserções posteriores que lhe deram a forma atual. Clive Owen desempenha o papel-título como o romano-bretão Artorius Castus, oficial de cavalaria que defende a Bretanha de invasões no século V.
The Last Legion, de Doug Lefler (2007), baseado no romance de Valerio M. Manfredi. Este filme apresenta uma história do último imperador romano Rômulo Augusto (Colin Firth), que, com a queda do Império, retira-se para a Muralha de Adriano, onde se reúne com a desaparecida Nona Legião e a transforma nos Cavaleiros da Távola Redonda (aproveitando para explicar a equivocada versão de que a Nona teria sido exterminada naquela área). Seu tutor, Ambrosinus (Ben Kingsley), é identificado com Merlin, e o próprio Rômulo Augusto é apresentado como o pai de Arthur Pendragon, originando a lenda arturiana.
A lenda também aparece incidentalmente em diversas histórias da Marvel e da DC. No caso da segunda, o principal destaque é para o demônio Etrigan, um personagem recorrente criado por Jack Kirby em 1972. Convocado por Merlin para defender Camelot, Etrigan foi, em seguida, aprisionado pelo mago no corpo de Jason Blood, que, assim, tornou-se imortal. Blood e Etrigan aparecem tanto em séries próprias (normalmente intituladas The Demon) como, numerosas vezes, em histórias de outros personagens. Desde sua aparição em Swamp Thing quando Alan Moore escrevia esse título, Etrigan é caracterizado por só se expressar mediante rimas.
Uma história de pouco significado é Batman: Dark Knight of the Round Table, de Bob Layton e Dick Giordano (1998), publicada no Brasil em DC Millennium, números 7 a 9, da editora Brain Store. Aqui, Bruce Wayne força sua entrada na corte de Artur para se vingar de uma injustiça que atribui ao Rei. No final da história, torna-se o Herói Adormecido e seu descendente atua em defesa da Inglaterra na II Guerra Mundial.
Outras histórias da DC trazem rápidas visitas a Camelot. Alguns exemplos que já encontrei são
- Swamp Thing #87 (junho de 1989), onde o Monstro do Pântano é levado ao momento da batalha final de Artur e onde o Rei e sua corte são retratados em trajes renascentistas (demonstrando falta de estudo por parte do desenhista Tom Yeates). Artur aparece enlouquecido por um golpe na cabeça, comportando-se como um megalômano fora de caracterização, enquanto Merlin oferece a Etrigan a já referida rota de fuga. Para salvar o castelo do assédio de Modred e Morgana, o Monstro levanta-o e transporta-o sobre patas gigantes. Ao fim da história, o Monstro é forçado a largar o castelo no ar, e a queda de Camelot é literal;
- Superman # 55 (maio de 1991), onde o Homem de Aço é sucessivamente manipulado por Morgana e Merlin, atuando em ambos os lados do conflito que leva à queda de Camelot e ao aprisionamento de Etrigan;
- a cômica Justice League Europe Annual 1991, parte do crossover Armageddon 2001, onde Rocket Red (Soviete Supremo) vai parar na corte do Rei e enfrenta o demônio.
Alguns websites podem ser referências úteis:
The Monstrous Regiment of Arthurs
http://www.arthuriana.co.uk/historicity/arthurappendix.htm
Este eu coloco em primeiro lugar em razão de sua vasta fundamentação acadêmica e rica ênfase em sérias fontes bibliográficas.
De la Fantasy Arthurienne
http://www.erwelyn.com/mythearturien.html
Esta é uma extensa listagem de obras de ficção que tratam da lenda arturiana.
King Arthur & the Matter of Britain
http://bestoflegends.org/kingarthur/malory.html
E, com todas as ressalvas e a lembrança de que a Wikipedia não é confiável,
King Arthur
Historical basis for King Arthur
Annales Cambriae
Historia Regum Britanniae
Mabinogion
Chrétien de Troyes
Le Morte d'Arthur
Excalibur
King in the Mountain
A Connecticut Yankee in King Arthur's Court
The Once and Future King
King Arthur in various media
List of books about King Arthur
List of movies based on Arthurian legend
22 fevereiro 2008
Não com um dilúvio, mas em chamas
Com grande atraso, estive lendo uma reportagem na AIR International de julho de 2005, sobre os quase quarenta anos de bombas nucleares táticas mantidas pela Real Força Aérea.
A gente, que vive no pós-Guerra Fria, acaba não tendo uma dimensão de como era o mundo. Pois as superpotências mantinham bombas atômicas em vários lugares. A gente fica com a impressão de que tudo eram mísseis, que seriam lançados dos EUA para atingirem a União Soviética e vice-versa, mas isso foi só no final. Até (mais ou menos) 1962, o meio de entrega eram bombardeiros tripulados, que teriam que sobrevoar o inimigo e despejar sua carga mortal. Então, muito tempo era gasto em reconhecimento de rotas e defesas, planejamento e muito treinamento. Os pilotos eram regularmente enviados em exercícios pelo mundo, treinando penetrações em território hostil. Radares eram dispostos, mísseis antiaéreos espalhados, e todos os modelos novos de aviões eram criados visando a atacar ou a defender contra um ataque nuclear. Muitos milhões, na verdade bilhões, de dólares, libras e rublos foram gastos nesses procedimentos, comprando equipamento mais moderno, fazendo manutenção e gastando combustível sem remorso nem pudor.
E isso era o lado estratégico, dedicado a destruir cidades e indústrias. Havia também o lado tático: pequenos aviões, cujos pilotos eram treinados a atingir alvos menores como navios e colunas de tanques. Pensando nesses, havia bombas nucleares cada vez menores, para que pudessem transportá-las, cargas de profundidade nucleares contra submarinos (por um tempo consideradas o "meio mais eficaz" de eliminá-los), e até artilharia de campanha com granadas nucleares.
Mas a gente, às vezes, ainda não tem mesmo uma idéia muito clara de nada disso. Então, baste dizer que inúmeros pilotos ficavam em alerta mesmo em momentos sem crise mundial, vestidos e equipados dentro de aviões abastecidos, prontos para decolar quando viesse a ordem. Era o regime de QRA (alerta de reação rápida): revezavam-se em plantões permanentes, havendo sempre alguns pilotos nessas condições, sentados nos cockpits, esperando a ordem que, para nossa ventura, nunca veio. "Ao silvo de apito", tinham quinze minutos para estarem no ar, a caminho de Kiev ou de algum outro lugar infeliz, tendo decolado de bases aéreas situadas em lugares tão variados como Diego García, Kadena (no Japão), Alasca ou França, todos ao mesmo tempo.
Houve um período de alguns anos durante o qual os Estados Unidos mantiveram vários B-52 no ar, simultaneamente, contìnuamente, 24/7, prontos para seguirem rumo à Sibéria, com bombas reais nas barrigas. Foi por causa deles que se desenvolveram as técnicas de reabastecimento no ar: os aviões-tanques eram dedicados exclusivamente aos bombardeiros, e foi só em anos bem mais recentes que os caças passaram a usá-los também. Essa prática só parou quando houve alguns acidentes e, até hoje, existe pelo menos uma bomba H no fundo do oceano Atlântico, ao largo das Canárias.
Foi uma época em que se cunharam termos como "saturação de defesas", "primeiro ataque" (no sentido de não haver um segundo, da parte de ninguém) e o hoje famoso ground zero. Não percebíamos, mas estávamos a isto aqui (aperta os dedos para mostrar) de acabarmos em um inverno nuclear, banhados em calor escaldante, radiação dos resíduos atmosféricos e frio infernal, nessa ordem.
Nos anos 80, vários livros foram publicados com base em cenários plausíveis de como nossa última guerra começaria e se desenrolaria. Eram hipóteses construídas pelos generais e estrategistas, com forte fundo pragmático e estudadas em ambientes acadêmicos militares. Invariàvelmente, o conflito começava ou nos Bálcãs ou no Oriente Médio, com uma das superpotências intervindo em um conflito local e, rapidamente, a escalada levando a mesma superpotência ou a outra ao emprego de um engenho nuclear tático. Daí a um ataque retaliativo em massa ao território do outro seria questão de horas.
É curioso como os últimos doze anos têm demonstrado o acerto dessas previsões, pelo menos (e felizmente apenas) a parte de como o conflito começa.
Pois bem. Eu estava para escrever isso desde ontem. Com os recentes desdobramentos no Kosovo, não pude deixar de vir complementar dizendo o seguinte: apesar de todo esse risco a que nos submetemos, conseguimos ficar os últimos 62 anos sem que ninguém jogasse uma bomba atômica de propósito na cabeça dos outros.
Agora, do jeito como as coisas vão, parece que tem gente querendo estragar esse histórico. Porque é assim que começa.
A gente, que vive no pós-Guerra Fria, acaba não tendo uma dimensão de como era o mundo. Pois as superpotências mantinham bombas atômicas em vários lugares. A gente fica com a impressão de que tudo eram mísseis, que seriam lançados dos EUA para atingirem a União Soviética e vice-versa, mas isso foi só no final. Até (mais ou menos) 1962, o meio de entrega eram bombardeiros tripulados, que teriam que sobrevoar o inimigo e despejar sua carga mortal. Então, muito tempo era gasto em reconhecimento de rotas e defesas, planejamento e muito treinamento. Os pilotos eram regularmente enviados em exercícios pelo mundo, treinando penetrações em território hostil. Radares eram dispostos, mísseis antiaéreos espalhados, e todos os modelos novos de aviões eram criados visando a atacar ou a defender contra um ataque nuclear. Muitos milhões, na verdade bilhões, de dólares, libras e rublos foram gastos nesses procedimentos, comprando equipamento mais moderno, fazendo manutenção e gastando combustível sem remorso nem pudor.
E isso era o lado estratégico, dedicado a destruir cidades e indústrias. Havia também o lado tático: pequenos aviões, cujos pilotos eram treinados a atingir alvos menores como navios e colunas de tanques. Pensando nesses, havia bombas nucleares cada vez menores, para que pudessem transportá-las, cargas de profundidade nucleares contra submarinos (por um tempo consideradas o "meio mais eficaz" de eliminá-los), e até artilharia de campanha com granadas nucleares.
Mas a gente, às vezes, ainda não tem mesmo uma idéia muito clara de nada disso. Então, baste dizer que inúmeros pilotos ficavam em alerta mesmo em momentos sem crise mundial, vestidos e equipados dentro de aviões abastecidos, prontos para decolar quando viesse a ordem. Era o regime de QRA (alerta de reação rápida): revezavam-se em plantões permanentes, havendo sempre alguns pilotos nessas condições, sentados nos cockpits, esperando a ordem que, para nossa ventura, nunca veio. "Ao silvo de apito", tinham quinze minutos para estarem no ar, a caminho de Kiev ou de algum outro lugar infeliz, tendo decolado de bases aéreas situadas em lugares tão variados como Diego García, Kadena (no Japão), Alasca ou França, todos ao mesmo tempo.
Houve um período de alguns anos durante o qual os Estados Unidos mantiveram vários B-52 no ar, simultaneamente, contìnuamente, 24/7, prontos para seguirem rumo à Sibéria, com bombas reais nas barrigas. Foi por causa deles que se desenvolveram as técnicas de reabastecimento no ar: os aviões-tanques eram dedicados exclusivamente aos bombardeiros, e foi só em anos bem mais recentes que os caças passaram a usá-los também. Essa prática só parou quando houve alguns acidentes e, até hoje, existe pelo menos uma bomba H no fundo do oceano Atlântico, ao largo das Canárias.
Foi uma época em que se cunharam termos como "saturação de defesas", "primeiro ataque" (no sentido de não haver um segundo, da parte de ninguém) e o hoje famoso ground zero. Não percebíamos, mas estávamos a isto aqui (aperta os dedos para mostrar) de acabarmos em um inverno nuclear, banhados em calor escaldante, radiação dos resíduos atmosféricos e frio infernal, nessa ordem.
Nos anos 80, vários livros foram publicados com base em cenários plausíveis de como nossa última guerra começaria e se desenrolaria. Eram hipóteses construídas pelos generais e estrategistas, com forte fundo pragmático e estudadas em ambientes acadêmicos militares. Invariàvelmente, o conflito começava ou nos Bálcãs ou no Oriente Médio, com uma das superpotências intervindo em um conflito local e, rapidamente, a escalada levando a mesma superpotência ou a outra ao emprego de um engenho nuclear tático. Daí a um ataque retaliativo em massa ao território do outro seria questão de horas.
É curioso como os últimos doze anos têm demonstrado o acerto dessas previsões, pelo menos (e felizmente apenas) a parte de como o conflito começa.
Pois bem. Eu estava para escrever isso desde ontem. Com os recentes desdobramentos no Kosovo, não pude deixar de vir complementar dizendo o seguinte: apesar de todo esse risco a que nos submetemos, conseguimos ficar os últimos 62 anos sem que ninguém jogasse uma bomba atômica de propósito na cabeça dos outros.
Agora, do jeito como as coisas vão, parece que tem gente querendo estragar esse histórico. Porque é assim que começa.
19 fevereiro 2008
O Paraíso em versão simplória
O Paraíso não é monótono, não pode ser monótono. O Paraíso tem vários lugares. Tem bibliotecas, salas de cinema, parques, navios de cruzeiro marítimo, museus, espetáculos de acrobacia aérea...
Um dos aspectos do Paraíso é uma lanchonete com bastante luz natural. Fico sentado lá no fundo, junto à janela, diante de uma mesa espaçosa, tomando um café, ou um vinho, ou um coquetel, cappuccino ou milkshake. Lendo intensamente um excelente livro de ficção, que não exija muito raciocínio mas que absorva bastante, ou escrevendo intensamente, sem ser perturbado.
Já tive amostras dessa forma que o Paraíso toma.
Um dos aspectos do Paraíso é uma lanchonete com bastante luz natural. Fico sentado lá no fundo, junto à janela, diante de uma mesa espaçosa, tomando um café, ou um vinho, ou um coquetel, cappuccino ou milkshake. Lendo intensamente um excelente livro de ficção, que não exija muito raciocínio mas que absorva bastante, ou escrevendo intensamente, sem ser perturbado.
Já tive amostras dessa forma que o Paraíso toma.
18 fevereiro 2008
Encontros que já tive
Pronto. Depois de muitas horas de verificações e digitação, terminei a lista de todos os tipos de aeronaves que já vi. Incluem-se aviões e helicópteros. A primeira parte da lista cobre os tipos; a segunda, um detalhamento das variantes que já vi de cada tipo.
Assinar:
Postagens (Atom)