Eu em 30 de janeiro: http://sratoz.blogspot.com/2007/01/atoz-o-profeta.html
Notícia da semana passada: Incêndio atinge prédio da Uerj na zona norte do Rio.
ATENÇÃO: PARA LER MINHAS DUAS CRÔNICAS DE HOJE SOBRE QUADRINHOS DA DC, POR FAVOR CONTINUE LENDO ABAIXO. OBRIGADO.
21 outubro 2007
O retorno da utopia
Em 1984 ou por aí, a editora Abril adquiriu os direitos de publicação da DC Comics no Brasil. Por sorte ou por azar, foi nesse ponto, aos nove anos de idade, que passei a ler as histórias da DC, sem compromisso. Ao longo dos últimos dois anos, percebi que o que então saía pela Abril era uma variedade de material publicado originalmente de 1970 a 1982, provavelmente ainda inédito por aqui desde o finado tempo da EBAL. Aparentemente, o descomunal descompasso em relação à publicação original deu à editora paulista a vantagem de poder melhor selecionar as histórias e personagens que traria ao público nacional. 
De todo modo, a maioria dos leitores eram crianças. Não havia Internet, e a Nova Ordem Mundial estava ainda por iniciar. Portanto, os leitores não tinham fácil acesso (como hoje temos) a saber o que de mais recente a DC estava publicando, nem conseguíamos pôr as mãos (como hoje conseguimos) em material importado. Diante disso, não havia a necessidade (como hoje há) de a editora brasileira perseguir de perto o material que saía na América, contanto que as histórias fossem boas.
Nos anos seguintes, dei-me conta de que as histórias da DC (assim como as da Marvel) tinham uma continuidade (e hoje têm mais ainda). Trata-se de uma única, gigante, entrelaçada história, com meandros e influências mútuas entre os títulos, personagens de um título aparecendo em outro e uma consistência interna difícil de se atingir quando tantos Autores escrevem simultaneamente. (Na verdade, a falta de uma consistência suficiente foi um dos argumentos editoriais que conduziram à Crise nas infinitas Terras em 1985. Mas não quero entrar nisso agora.) Foi minha primeira exposição a um universo compartilhado que se iniciara em 1938, com Action Comics #1, a estréia do Super-homem, alegadamente a primeira história de super-herói.
De certo modo, quem começa a ler DC e Marvel sempre pega o bonde andando. Sempre existem histórias mais antigas, que a gente não leu. Alan Moore descreveu muito bem essa situação em sua introdução ao encadernado Saga of the Swamp Thing: "aqui, as histórias não acabam -- não do modo como um filme acaba ou um livro acaba. Oh, a ameaça atual pode ser evitada ou vencida, mas haverá outra coisa dentro de um mês, pode ter certeza. O personagem continuará indefinidamente até que vendas fracas ou algum outro fator dite o cancelamento de sua revista. Mesmo então, o protagonista despossuído provavelmente encontrará espaço suficiente nas histórias de outros personagens para evitar o limbo total. A história raramente acaba, mesmo quando os títulos que a trazem cospem sangue e caem mortos a seus pés. Nem, a menos que você seja suficientemente sortudo para identificar uma série de sucesso quando estréia ou suficientemente rico para comprar as edições atrasadas depois, a história um dia começa. Qualquer pessoa que pegue uma revista em quadrinhos pela primeira vez pode estar certa de se encontrar no meio de um contínuo que pode ter começado antes do nascimento do leitor e que bem possivelmente continuará muito após sua morte." Seu avô já lia Super-homem, como seus netos também lerão.
A ignorância desse passado traz a mim a frustração de estar perdendo alguma coisa e me levou a formar uma utopia: a de que, um dia, eu haveria de ler tudo que a DC publicara desde 1938, preferivelmente em ordem. Com isso, teria acesso a todo o histórico dos personagens. Poderia entender suas origens, poderes e relações entre si, e todas as referências (que freqüentemente apareciam) a histórias passadas. Estamos falando de centenas de edições anuais, perfazendo dezenas de milhares de edições no total. Apesar do que diz o bom-senso, não é impossível cumprir tal tarefa. De fato, ao tempo da Crise, a DC contratou gente para fazer justamente isso e tomar notas. Já faz mais de vinte anos, mas, se fosse hoje, a diferença seria mormente quantitativa; eu só precisaria de mais tempo.
Pouco depois da Crise, parei de ler DC. Parei, mas não desisti. O velho projeto continuou, dormente porém vivo. Aí, mais ou menos em 2003, a Panini começou a publicar DC no Brasil. De início, fui atraído pelos desenhos e comprei pouca coisa. Depois, fiquei intrigado com a história trágica da ascensão e queda de Hal Jordan (qualquer dia escrevo sobre ela) e com as histórias do Flash envolvendo o Hipertempo. Isso me trouxe de volta a ler DC e, gradual mas rapidamente, passei a comprar tudo que saía.
Só que eu tinha que recuperar o tempo perdido. Danei a catar todas as histórias relevantes do período 1985-2003, que havia perdido. Virei pesquisador da História das histórias da DC, absorvido pelo estudo de sua evolução, de como os quadrinhos retratam a mentalidade de sua época, de como diferentes Autores interpretam diferentemente seus personagens. O velho bjetivo de ler tudo passou a estar subordinado a uma motivação mais abrangente. Minha mente é provocada a discutir se vale a pena persegui-lo e se é viável.
Para atingir a meta de ler todas as histórias da DC, os principais problemas são três: (1) absoluta falta de tempo, já que tenho que trabalhar; (2) absoluta falta de dinheiro, já que o material é vasto; (3) crônica dificuldade de se enumerar quais são todas as edições publicadas até hoje, para saber o que ler. Afinal, não parece existir uma lista definitiva de tudo que já foi publicado pela DC ou pelas editoras que ela foi comprando pelo caminho.
Esse último problema tem sido rapidamente suavizado pela Internet. Os fãs de quadrinhos são numerosos e dedicados, e você se surpreenderia com o tamanho e a complexidade das bases de dados que são capazes de montar (só para exemplificar, dê uma olhada em DarkMark's Comics Indexing Domain!, The Unofficial Guide to the DC Universe, Mike's Amazing World of DC Comics, DC Cosmic Teams!, Flash: Those Who Ride the Lightning, SequArt Research & Literacy Organization e Superman Homepage). Até eu tenho minha pequena tabela, incluindo somente o material que adquiri mas ultrapassando 3200 linhas. Atendendo aos anseios dos românticos que idealizaram a Grande Rede, todos esses esforçados e criativos pesquisadores têm disponibilizado o resultado de seu trabalho, dando visibilidade a grandiosas obras de referência que, de outro modo, permaneceriam obscuras, conhecidas somente pelos vizinhos e amigos íntimos. A meu ver, o maior proveito da Internet é, justamente, pôr em contato as pessoas que têm interesses comuns, permitir a troca de informação entre elas e, com isso, multiplicar os frutos do sempre ingrato trabalho de quem garimpa esse tipo de material. E isso é feito gratuitamente, a benefício de pessoas como eu, que vivemos caçando listagens e glosas.
Naturalmente, o problema de preço é aumentado pelo fato de que edições antigas, em geral raras, custam uma fortuna. A mera importação do material também faz pensar duas vezes no que vale a pena comprar. Sob esses aspectos e também contribuindo para a rastreabilidade das histórias (assim abordando o terceiro problema), nos últimos anos a DC tem ajudado a vida do leitor ao publicar grandes compilações sob o título comum de Archives: The Batman Archives, The Superman Archives etc. Trata-se de seleções abrangentes de histórias, mormente dos anos 30 e 40 -- o que a literatura especializada chama de Era de Ouro dos Quadrinhos, encerrada na DC em 1955. Infelizmente, a série Archives desafia o poder aquisitivo do leitor.
Após dezenas de títulos lançados nos Estados Unidos, Archives foram sucedidos por uma nova série onde as edições têm quinhentas páginas ou mais, também colecionando histórias antigas: Showcase Presents. O primeiro título a ser publicado em português saiu pela Panini no segundo semestre de 2007. O original Showcase Presents: Justice League of America tem o título brasileiro de Arquivo DC no. 1: Liga da Justiça da América.

Agora, a editora americana está iniciando uma nova solução. A série Chronicles pretende publicar todas as histórias dos personagens abordados, em impressão colorida mas a um preço acessível. O primeiro lançamento foi The Batman Chronicles vol. 1, que saiu em 05/09/2007 como Batman: Crônicas vol. 1. O título inclui todas as histórias do Batman, em ordem cronológica, desde Detective Comics #27, de maio de 1939, e abrangendo até mesmo as tiras de jornal. Nos Estados Unidos, a série já chegou ao volume 3 e tem a companhia de The Superman Chronicles.
Conforme comentei em outra ocasião, no momento em que comecei a ler histórias do início da Era de Prata (1956-1985), percebi-as ingênuas e fraquinhas. Quer dizer: a utopia só tem graça enquanto está lá no horizonte. Muitas vezes, quando vislumbramos uma amostra do sonho, sua verdadeira face acaba se revelando sem graça, e vemos que nossa idealização era apenas isso, sem correspondente no mundo real. Então, meu propósito de ler toda a produção da DC já não tem mais o mesmo brilho. Apesar de mais possível hoje do que já foi um dia, contraditoriamente o desejo menos.


Agora, a editora americana está iniciando uma nova solução. A série Chronicles pretende publicar todas as histórias dos personagens abordados, em impressão colorida mas a um preço acessível. O primeiro lançamento foi The Batman Chronicles vol. 1, que saiu em 05/09/2007 como Batman: Crônicas vol. 1. O título inclui todas as histórias do Batman, em ordem cronológica, desde Detective Comics #27, de maio de 1939, e abrangendo até mesmo as tiras de jornal. Nos Estados Unidos, a série já chegou ao volume 3 e tem a companhia de The Superman Chronicles.

Conforme comentei em outra ocasião, no momento em que comecei a ler histórias do início da Era de Prata (1956-1985), percebi-as ingênuas e fraquinhas. Quer dizer: a utopia só tem graça enquanto está lá no horizonte. Muitas vezes, quando vislumbramos uma amostra do sonho, sua verdadeira face acaba se revelando sem graça, e vemos que nossa idealização era apenas isso, sem correspondente no mundo real. Então, meu propósito de ler toda a produção da DC já não tem mais o mesmo brilho. Apesar de mais possível hoje do que já foi um dia, contraditoriamente o desejo menos.Mesmo assim, adquiri e li Batman: Crônicas vol. 1, mesmo que a título de item de colecionador (que reluto em admitir que sou. Continuamente minto para mim mesmo: "só compro para ler, não para colecionar", como se). A bem da verdade, o motivo da compra é outro. Sinto um compromisso diante do garoto que um dia pretendeu ler tudo da DC em ordem. Antes, eu tinha argumento para não atender àquele sonho. Agora que estão me oferecendo uma forma viável de começar a cumprir a promessa, de forma ordenada e segura, não posso omitir-me.
Qualquer coisa, é só disfarçar, dizer que estou lendo pelo "valor histórico"...
Monstro do Pântano: amor e morte. Resenha.
Meu problema é o seguinte. Às vezes, eu leio alguma história em quadrinhos, algum livro, ou vejo um filme que é uma genuína obra de arte, que me empolga e que quero dividir com alguém. O problema é que não tenho com quem. Posso contar para minha namorada, e ela vai ficar feliz em ver minha emoção, mas ela mesma tem que ler outras coisas, não tem tempo para as que li -- e, se tivesse, estaria apenas seguindo minha trilha, não a dela, própria, escolhendo suas próprias leituras. Se eu contar para outra pessoa, vou ter que mostrar por que aquilo é interessante, por que me empolgou, explicar as referências, contar o estilo do Autor... Tanto para mim quanto para quem me escuta, isso nunca é a mesma coisa que ler, minha explicação nunca é suficiente, e isso é frustrante. É óbvio que o leitor só vai ter acesso, mesmo, se ler a obra em primeira mão. Pior do que isso é o fato de que aquilo que gosto de ler NUNCA interessa às pessoas com quem convivo todos os dias. Então, não tenho realmente a quem transmitir, com quem COMPARTILHAR o que leio ou vejo. Já reparei que isso acontece a vários belogueiros e acho que é por isso que eles acabaram criando seus belogues.
Veja meu caso agora, por exemplo. Há pouco tempo, li uma compilação do Monstro do Pântano, Swamp Thing: Love and Death, que é o segundo volume reunindo as histórias da segunda série do personagem e abrange o período de setembro de 1984 a março de 1985.

Permita-me um prólogo. Nos anos 50, a DC começou a publicar dois títulos de terror chamados House of Secrets e House of Mystery. Nos anos 70, esses títulos tornaram-se clássicos. Em cada uma das duas revistas, um dos dois irmãos Caim e Abel era o apresentador (bem à maneira de Rod Serling em Além da Imaginação e Night Gallery e do zelador-cadáver de Tales from the Crypt). Pois bem: House of Secrets #92 (julho de 1971) trouxe uma história passada no início do século XX, na qual um homem era assassinado e enterrado no pântano, transformando-se em um ser vegetal corpulento, mudo e melancólico, condenado a vagar entre a folhagem sem esperança de recuperar sua humanidade. O sucesso dessa história levou à estréia do título Swamp Thing em 1972.
Nesta série, ambientada no presente do leitor, o Monstro do Pântano tem uma origem trágica: Alec Holland, um jovem e brilhante botânico que trabalha em uma fórmula regeneradora de tecidos vegetais, é assassinado com uma bomba em seu laboratório químico e, em chamas, atira-se no pântano da Louisiana. Conforme a narrativa assim publicada, vê-se que as substâncias do laboratório, que o cobriram durante o incêndio, tiveram um efeito horrendo: ele retorna da água parada como uma criatura humanóide porém vegetal, em uma transformação que põe em dúvida se não seria melhor ter morrido. Típica origem de heróis de quadrinhos da Era de Prata. Ao longo das histórias, ele tenta recuperar sua humanidade.
Teoricamente, a primeira história (em HoM #92) servira como episódio piloto não intencional para a nova série, onde os eventos originais se repetiam e o Leitor era apresentado a um novo personagem nesta revista de terror da DC. Após o cancelamento da série em 1976, a DC ressuscitou-a em 1982 como The Saga of the Swamp Thing, cujo número 20 (de 1984) foi o primeiro escrito por Alan Moore.
Quando Moore assumiu o título do Monstro do Pântano, a revista não deixou de ser de terror, mas acontece que o Autor é genial. As histórias são de uma riqueza, de uma profundidade. Na Web, é fácil encontrar elogios ao clima criado por esse escriba, e a narrativa dele realmente é rica nas descrições, os desenhos são expressivos, mas isso não é tudo.
Em The Saga of the Swamp Thing #21 (fevereiro de 1984), lemos a segunda história escrita por Moore, intitulada "The Anatomy Lesson" e iniciadora da primeira compilação já publicada desta segunda série (The Saga of the Swamp Thing, sem subtítulo). Ali descobrimos que o Monstro nunca foi humano: quando o corpo de Alec Holland mergulhou no pântano, ele efetivamente morreu, mas sua mente foi preservada pela ação da fórmula regenerativa, incorporando-se a um tecido vegetal que imita a forma humana e crê ser o próprio Holland.
Na segunda compilação desta série, que ora comento, a primeira história é "The Burial" (The Saga of the Swamp Thing #28, de setembro de 1984). Ela confirma que o Monstro guarda a mente de Alec Holland, mas também que ele mesmo não é Holland, pois vemos o Monstro levar nos braços os restos mortais daquele que o gerou. Somente Moore conseguiria construir a macabra cena de um homem enterrando a si mesmo na terceira pessoa e inseri-la em um universo fantástico de modo a redefinir seu personagem. "The Burial" tem a importância de levar o Monstro a reconhecer sua natureza e a aceitar que nunca foi humano. Já o compararam a Hamlet pelo momento em que encara sua própria caveira e reflete sobre onde está sua humanidade.
Em outra das histórias, "Down Amongst the Dead Men" (Swamp Thing Annual #2, de janeiro de 1985), o Monstro visita o Céu e o Inferno. Pela primeira vez (que eu saiba), confirma-se que personagens como o Vingador Fantasma, o Desafiador e Etrigan habitam o mesmo universo DC. Mais tarde, em 1989, o tipo de histórias onde eles costumam aparecer seria segregado sob o selo Vertigo, sem deixar de integrar aquele universo. Com esta história, percebi que Moore foi o introdutor da idéia de legitimá-los e reuni-los como parte de uma visão única, um aspecto do mesmo universo multifacetado, o que é quase óbvio para o decenauta de hoje mas era inovador na época.
Encontrei somente uma inconsistência em "Down Amongst the Dead Men": o Vingador Fantasma, fazendo o papel de Virgílio, acompanha o Monstro no Céu e alega não poder fazê-lo no Inferno. Na verdade, conforme veríamos adiante pela mão do próprio Moore (Secret Origins #10, de janeiro de 1987) e, depois, de Neil Gaiman (The Books of Magic #1, de dezembro de 1990), é no Céu que ele não pode entrar. Pois bem, é no Céu que o Monstro do Pântano encontra Alec Holland, o homem do qual ele surgiu, reafirmando que são criaturas distintas e que o primeiro não traz a alma do segundo.
De todo modo, é ou não é genial isto? O Autor explica o Inferno pela boca do demônio Etrigan: "pensa você que Deus construiu este lugar, desejando mal ao homem, e não luxúrias descontroladas ou espadas desembainhadas? Não Deus, meu amigo. A verdade é ainda mais
odiosa: estes salões foram escavados por homens enquanto ainda respiravam. Deus não é um pai ou severo policial distribuindo mimos ou punições a todos. Cada alma sobe ou desce por seu próprio capricho. Ele lamenta, mas não pode prevenir sua queda. Sofremos como escolhemos. Nada está faltando. Todos os tormentos são merecidos..."
A história seguinte, "Pog" (The Saga of the Swamp Thing #32, de janeiro de 1985), é um golpe baixo de Moore. É uma das histórias em quadrinhos mais sensíveis e pungentes que já li. O Autor constrói um clima de simpatia pelos personagens, retratados como bichinhos bunitinhos, mas o final é triste sem nenhuma surpresa. O ponto de vista é o de um visitante alienígena, e o Monstro do Pântano é apenas um personagem incidental -- como, aliás, em quase todas as histórias da compilação. Apesar de teoricamente ser o protagonista, na prática ele atua apenas como um observador, e a ação ocorre pelas mãos de outros personagens. Semelhante a um episódio da série Clássica de Jornada nas Estrelas, "Pog" começa e termina com uma leitura do diário do capitão e acompanha a exploração de um planeta que parece aprazível mas que guarda segredos perigosos. Tem até um personagem semelhante a McCoy, que esconde sua profunda compaixão por trás de resmungos e pessimismo.
Depois de "Pog", The Saga of the Swamp Thing #33 (fevereiro de 1985) inova mais uma vez com "Abandoned Houses". Nesta história, a personagem Abby Cable, amante do Monstro, está sonhando. Seu sonho leva-a a uma fronteira brumosa onde Caim e Abel (em suas primeiras aparições desde o encerramento das duas séries) oferecem a ela a escolha entre um segredo e um mistério na respectiva casa. Ela opta pela Casa dos Segredos, onde descobre que o Monstro do Pântano das revistas Swamp Thing (1972-1976) e The Saga of the Swamp Thing (1982-então) é apenas mais um em uma longa linhagem de Monstros do Pântano, um dos quais havia sido o infeliz protagonista de HoM #92. A revelação vem com uma reprodução das páginas daquela revista de catorze anos antes. Com isso, Alan Moore unificou o Universo DC, trazendo para dentro dele uma história que, doutro modo, teria sido considerado apenas um esboço a esquecer. A prática é semelhante a trazer o Capitão Pike de volta para dentro do cânone de Jornada nas Estrelas com os episódios "The Menagerie".
Em 1989, Neil Gaiman aproveitaria Caim e Abel em caráter permanente em sua série Sandman, mostrando-os como súditos do Perpétuo Sonho no Sonhar. Tendo sido o primeiro homicida e a primeira vítima, eles estão condenados a reviver sua história eternamente, nesse reino onde histórias são a justificativa de toda existência. Na verdade, Moore plantou uma semente com Swamp Thing, Gaiman cultivou-a com Sandman e os dois, embora sem cooperarem, criaram o ensejo para a DC reunir suas soturnas histórias de temática adultaTM no selo Vertigo. Note que tudo começou com o genial Alan Moore.
Um detalhe do maior interesse é a reação do enciumado Caim a Abel quando este pergunta se o primeiro se importa. "Importar-me? Por que eu deveria me importar? Acaso sou responsável por você?" Verifique o Gênesis, capítulo 4, versículo 9.
Na última página da história, primeiro painel, há outro detalhe. A jovem Abby acorda de seu sonho tormentoso, já dele não se lembra, e vemos, na parede atrás de sua cama, a reprodução de um quadro. Apesar da pouca definição, quem procura consegue ver que o quadro mostra um demônio risonho sentado sobre o peito de uma jovem que, apesar de dormir, tem o semblante aflito. É O Íncubo, de Füssli, representante do período romântico, um clássico que simboliza os terrores noturnos do inconsciente. Mais adiante na série, uma referência mais ostensiva seria feita ao mesmo quadro, mas sua aparição em "Abandoned Houses" tem um vínculo mais forte ao contexto.

A última história de Love and Death chama-se "Rite of Spring" e saiu originalmente em The Saga of the Swamp Thing #34 (março de 1985). Aqui se aborda um problema prático: como uma mulher e uma planta podem consumar uma união? Abby está apaixonada pelo Monstro do Pântano e ele por ela, mas não há compatibilidade funcional que os satisfaça. Ora, uma união física não é o verdadeiro fundamento da comunhão dos espíritos. Provando isso, o Monstro gera de seu corpo um tubérculo, que Abby consome. Ao fazê-lo, ela abre as portas da percepção, entrando em uma viagem de alucinações que, na verdade, são seu acesso a ver o mundo como o Monstro o vê. E o mundo transparece belo, unificado, coerente, múltiplo em sensações que a limitada mente humana não alcança. Essencialmente, a história representa como o maior presente de quem ama pode ser alucinógeno e fazer todo sentido, ensinando novas compreensões da beleza do mundo e realidade maior. A vigésima página chega a disfarçar uma inconfundível representação do órgão sexual feminino como se fora um florão simbólico, de textura vegetal.
A atuação de Alan Moore estendeu-se por cerca de cinqüenta edições de Swamp Thing (nome que a série retomou em março de 1986), tendo sido reunida em seis compilações. Dessas, tive acesso a cinco e recomendo todas. Os conceitos inovadores trazidos na primeira e na segunda compilação foram desenvolvidos adiante, mas Love and Death ainda é o volume que mais me marcou dos que li até agora. No volume seguinte, Swamp Thing: the Curse, somos apresentados ao cínico e admirável mago John Constantine (cuja estréia se deu em The Saga of the Swamp Thing #37), personagem com uma legião de fãs que o tem mantido em publicação até hoje.
Veja meu caso agora, por exemplo. Há pouco tempo, li uma compilação do Monstro do Pântano, Swamp Thing: Love and Death, que é o segundo volume reunindo as histórias da segunda série do personagem e abrange o período de setembro de 1984 a março de 1985.

Permita-me um prólogo. Nos anos 50, a DC começou a publicar dois títulos de terror chamados House of Secrets e House of Mystery. Nos anos 70, esses títulos tornaram-se clássicos. Em cada uma das duas revistas, um dos dois irmãos Caim e Abel era o apresentador (bem à maneira de Rod Serling em Além da Imaginação e Night Gallery e do zelador-cadáver de Tales from the Crypt). Pois bem: House of Secrets #92 (julho de 1971) trouxe uma história passada no início do século XX, na qual um homem era assassinado e enterrado no pântano, transformando-se em um ser vegetal corpulento, mudo e melancólico, condenado a vagar entre a folhagem sem esperança de recuperar sua humanidade. O sucesso dessa história levou à estréia do título Swamp Thing em 1972.
Nesta série, ambientada no presente do leitor, o Monstro do Pântano tem uma origem trágica: Alec Holland, um jovem e brilhante botânico que trabalha em uma fórmula regeneradora de tecidos vegetais, é assassinado com uma bomba em seu laboratório químico e, em chamas, atira-se no pântano da Louisiana. Conforme a narrativa assim publicada, vê-se que as substâncias do laboratório, que o cobriram durante o incêndio, tiveram um efeito horrendo: ele retorna da água parada como uma criatura humanóide porém vegetal, em uma transformação que põe em dúvida se não seria melhor ter morrido. Típica origem de heróis de quadrinhos da Era de Prata. Ao longo das histórias, ele tenta recuperar sua humanidade.
Teoricamente, a primeira história (em HoM #92) servira como episódio piloto não intencional para a nova série, onde os eventos originais se repetiam e o Leitor era apresentado a um novo personagem nesta revista de terror da DC. Após o cancelamento da série em 1976, a DC ressuscitou-a em 1982 como The Saga of the Swamp Thing, cujo número 20 (de 1984) foi o primeiro escrito por Alan Moore.
Quando Moore assumiu o título do Monstro do Pântano, a revista não deixou de ser de terror, mas acontece que o Autor é genial. As histórias são de uma riqueza, de uma profundidade. Na Web, é fácil encontrar elogios ao clima criado por esse escriba, e a narrativa dele realmente é rica nas descrições, os desenhos são expressivos, mas isso não é tudo.
Em The Saga of the Swamp Thing #21 (fevereiro de 1984), lemos a segunda história escrita por Moore, intitulada "The Anatomy Lesson" e iniciadora da primeira compilação já publicada desta segunda série (The Saga of the Swamp Thing, sem subtítulo). Ali descobrimos que o Monstro nunca foi humano: quando o corpo de Alec Holland mergulhou no pântano, ele efetivamente morreu, mas sua mente foi preservada pela ação da fórmula regenerativa, incorporando-se a um tecido vegetal que imita a forma humana e crê ser o próprio Holland.
Na segunda compilação desta série, que ora comento, a primeira história é "The Burial" (The Saga of the Swamp Thing #28, de setembro de 1984). Ela confirma que o Monstro guarda a mente de Alec Holland, mas também que ele mesmo não é Holland, pois vemos o Monstro levar nos braços os restos mortais daquele que o gerou. Somente Moore conseguiria construir a macabra cena de um homem enterrando a si mesmo na terceira pessoa e inseri-la em um universo fantástico de modo a redefinir seu personagem. "The Burial" tem a importância de levar o Monstro a reconhecer sua natureza e a aceitar que nunca foi humano. Já o compararam a Hamlet pelo momento em que encara sua própria caveira e reflete sobre onde está sua humanidade.
Em outra das histórias, "Down Amongst the Dead Men" (Swamp Thing Annual #2, de janeiro de 1985), o Monstro visita o Céu e o Inferno. Pela primeira vez (que eu saiba), confirma-se que personagens como o Vingador Fantasma, o Desafiador e Etrigan habitam o mesmo universo DC. Mais tarde, em 1989, o tipo de histórias onde eles costumam aparecer seria segregado sob o selo Vertigo, sem deixar de integrar aquele universo. Com esta história, percebi que Moore foi o introdutor da idéia de legitimá-los e reuni-los como parte de uma visão única, um aspecto do mesmo universo multifacetado, o que é quase óbvio para o decenauta de hoje mas era inovador na época.
Encontrei somente uma inconsistência em "Down Amongst the Dead Men": o Vingador Fantasma, fazendo o papel de Virgílio, acompanha o Monstro no Céu e alega não poder fazê-lo no Inferno. Na verdade, conforme veríamos adiante pela mão do próprio Moore (Secret Origins #10, de janeiro de 1987) e, depois, de Neil Gaiman (The Books of Magic #1, de dezembro de 1990), é no Céu que ele não pode entrar. Pois bem, é no Céu que o Monstro do Pântano encontra Alec Holland, o homem do qual ele surgiu, reafirmando que são criaturas distintas e que o primeiro não traz a alma do segundo.
De todo modo, é ou não é genial isto? O Autor explica o Inferno pela boca do demônio Etrigan: "pensa você que Deus construiu este lugar, desejando mal ao homem, e não luxúrias descontroladas ou espadas desembainhadas? Não Deus, meu amigo. A verdade é ainda mais
odiosa: estes salões foram escavados por homens enquanto ainda respiravam. Deus não é um pai ou severo policial distribuindo mimos ou punições a todos. Cada alma sobe ou desce por seu próprio capricho. Ele lamenta, mas não pode prevenir sua queda. Sofremos como escolhemos. Nada está faltando. Todos os tormentos são merecidos..."
A história seguinte, "Pog" (The Saga of the Swamp Thing #32, de janeiro de 1985), é um golpe baixo de Moore. É uma das histórias em quadrinhos mais sensíveis e pungentes que já li. O Autor constrói um clima de simpatia pelos personagens, retratados como bichinhos bunitinhos, mas o final é triste sem nenhuma surpresa. O ponto de vista é o de um visitante alienígena, e o Monstro do Pântano é apenas um personagem incidental -- como, aliás, em quase todas as histórias da compilação. Apesar de teoricamente ser o protagonista, na prática ele atua apenas como um observador, e a ação ocorre pelas mãos de outros personagens. Semelhante a um episódio da série Clássica de Jornada nas Estrelas, "Pog" começa e termina com uma leitura do diário do capitão e acompanha a exploração de um planeta que parece aprazível mas que guarda segredos perigosos. Tem até um personagem semelhante a McCoy, que esconde sua profunda compaixão por trás de resmungos e pessimismo.
Depois de "Pog", The Saga of the Swamp Thing #33 (fevereiro de 1985) inova mais uma vez com "Abandoned Houses". Nesta história, a personagem Abby Cable, amante do Monstro, está sonhando. Seu sonho leva-a a uma fronteira brumosa onde Caim e Abel (em suas primeiras aparições desde o encerramento das duas séries) oferecem a ela a escolha entre um segredo e um mistério na respectiva casa. Ela opta pela Casa dos Segredos, onde descobre que o Monstro do Pântano das revistas Swamp Thing (1972-1976) e The Saga of the Swamp Thing (1982-então) é apenas mais um em uma longa linhagem de Monstros do Pântano, um dos quais havia sido o infeliz protagonista de HoM #92. A revelação vem com uma reprodução das páginas daquela revista de catorze anos antes. Com isso, Alan Moore unificou o Universo DC, trazendo para dentro dele uma história que, doutro modo, teria sido considerado apenas um esboço a esquecer. A prática é semelhante a trazer o Capitão Pike de volta para dentro do cânone de Jornada nas Estrelas com os episódios "The Menagerie".
Em 1989, Neil Gaiman aproveitaria Caim e Abel em caráter permanente em sua série Sandman, mostrando-os como súditos do Perpétuo Sonho no Sonhar. Tendo sido o primeiro homicida e a primeira vítima, eles estão condenados a reviver sua história eternamente, nesse reino onde histórias são a justificativa de toda existência. Na verdade, Moore plantou uma semente com Swamp Thing, Gaiman cultivou-a com Sandman e os dois, embora sem cooperarem, criaram o ensejo para a DC reunir suas soturnas histórias de temática adultaTM no selo Vertigo. Note que tudo começou com o genial Alan Moore.
Um detalhe do maior interesse é a reação do enciumado Caim a Abel quando este pergunta se o primeiro se importa. "Importar-me? Por que eu deveria me importar? Acaso sou responsável por você?" Verifique o Gênesis, capítulo 4, versículo 9.
Na última página da história, primeiro painel, há outro detalhe. A jovem Abby acorda de seu sonho tormentoso, já dele não se lembra, e vemos, na parede atrás de sua cama, a reprodução de um quadro. Apesar da pouca definição, quem procura consegue ver que o quadro mostra um demônio risonho sentado sobre o peito de uma jovem que, apesar de dormir, tem o semblante aflito. É O Íncubo, de Füssli, representante do período romântico, um clássico que simboliza os terrores noturnos do inconsciente. Mais adiante na série, uma referência mais ostensiva seria feita ao mesmo quadro, mas sua aparição em "Abandoned Houses" tem um vínculo mais forte ao contexto.

A última história de Love and Death chama-se "Rite of Spring" e saiu originalmente em The Saga of the Swamp Thing #34 (março de 1985). Aqui se aborda um problema prático: como uma mulher e uma planta podem consumar uma união? Abby está apaixonada pelo Monstro do Pântano e ele por ela, mas não há compatibilidade funcional que os satisfaça. Ora, uma união física não é o verdadeiro fundamento da comunhão dos espíritos. Provando isso, o Monstro gera de seu corpo um tubérculo, que Abby consome. Ao fazê-lo, ela abre as portas da percepção, entrando em uma viagem de alucinações que, na verdade, são seu acesso a ver o mundo como o Monstro o vê. E o mundo transparece belo, unificado, coerente, múltiplo em sensações que a limitada mente humana não alcança. Essencialmente, a história representa como o maior presente de quem ama pode ser alucinógeno e fazer todo sentido, ensinando novas compreensões da beleza do mundo e realidade maior. A vigésima página chega a disfarçar uma inconfundível representação do órgão sexual feminino como se fora um florão simbólico, de textura vegetal.
A atuação de Alan Moore estendeu-se por cerca de cinqüenta edições de Swamp Thing (nome que a série retomou em março de 1986), tendo sido reunida em seis compilações. Dessas, tive acesso a cinco e recomendo todas. Os conceitos inovadores trazidos na primeira e na segunda compilação foram desenvolvidos adiante, mas Love and Death ainda é o volume que mais me marcou dos que li até agora. No volume seguinte, Swamp Thing: the Curse, somos apresentados ao cínico e admirável mago John Constantine (cuja estréia se deu em The Saga of the Swamp Thing #37), personagem com uma legião de fãs que o tem mantido em publicação até hoje.
18 setembro 2007
Festifúdi no Centro do Rio
Estive há pouco no McDonald's da rua São José, no Centro do Rio de Janeiro.
Cheguei ao balcão e perguntei à moça, "o que que vai na Premium Salad?"
"'O que que vai'?"
"É. Do que que é feita?"
A resposta dela veio SEM SEQUER ME ENCARAR, sem descruzar os braços, olhando lá para fora, naquela atitude despeitada de quem não sabe nem tem o menor interesse em saber, mas, ao mesmo tempo, ultrajada com que eu pudesse perguntar o que vai numa salada:
"Ué. É salada."
Aliás, isso foi dito naquele tom de voz particularmente agressivo de gente ignorante que fica indignada quando você faz uma pergunta. Nunca lhe aconteceu? A mim já, muitas vezes. Gente ignorante, quando se depara com uma palavra que nunca ouviu, logo retruca ofendida: "[preencha com a palavra]? O que que é isso? Nunca vi."
Acabei atendido pelo colega dela. Talvez eu devesse ficar espantado com uma vendedora que NÃO SABE O QUE ESTÁ VENDENDO, mas, no contexto, não fico não. Aquele balcão é o maior progresso que ela há de ver na vida.
Dias antes, aconteceu parecido no Bob's da rua Senador Dantas. A moça queria porque queria me expulsar da loja. Cismou que, se eu queria milquichêique, então eu *tinha que* ir lá para fora, para o meio da muvuca e da pivetada que ronda a lanchonete, não podia esperar no lado de dentro.
Mudando de assunto, faz várias semanas, escrevi duas crônicas para pôr aqui, uma sobre o Monstro do Pântano, outra sobre minha relação com os quadrinhos da DC Comics. São rascunhos e estou sem tempo. Fui.
Cheguei ao balcão e perguntei à moça, "o que que vai na Premium Salad?"
"'O que que vai'?"
"É. Do que que é feita?"
A resposta dela veio SEM SEQUER ME ENCARAR, sem descruzar os braços, olhando lá para fora, naquela atitude despeitada de quem não sabe nem tem o menor interesse em saber, mas, ao mesmo tempo, ultrajada com que eu pudesse perguntar o que vai numa salada:
"Ué. É salada."
Aliás, isso foi dito naquele tom de voz particularmente agressivo de gente ignorante que fica indignada quando você faz uma pergunta. Nunca lhe aconteceu? A mim já, muitas vezes. Gente ignorante, quando se depara com uma palavra que nunca ouviu, logo retruca ofendida: "[preencha com a palavra]? O que que é isso? Nunca vi."
Acabei atendido pelo colega dela. Talvez eu devesse ficar espantado com uma vendedora que NÃO SABE O QUE ESTÁ VENDENDO, mas, no contexto, não fico não. Aquele balcão é o maior progresso que ela há de ver na vida.
Dias antes, aconteceu parecido no Bob's da rua Senador Dantas. A moça queria porque queria me expulsar da loja. Cismou que, se eu queria milquichêique, então eu *tinha que* ir lá para fora, para o meio da muvuca e da pivetada que ronda a lanchonete, não podia esperar no lado de dentro.
Mudando de assunto, faz várias semanas, escrevi duas crônicas para pôr aqui, uma sobre o Monstro do Pântano, outra sobre minha relação com os quadrinhos da DC Comics. São rascunhos e estou sem tempo. Fui.
15 julho 2007
Poesia involuntária
Mais uma vez, o relato da viagem a Houston está aqui. Hoje o assunto é outro.
Outro dia, o Daniel, colega de trabalho, perguntou pelo prédio onde funciona a agência dos Correios na rua Primeiro de Março: se eu já tinha estado lá. Já. "E é bonito?"
"É tão bonito e feio quanto qualquer prédio público antigo do Rio de Janeiro."
"Essa foi boa. Bonito e feio, gostei."
"É, eu me enganei. Quis dizer que é tão bonito ou feio quanto qualquer outro, dependendo de quem olha; que não tem nada de mais."
"Não, deixa assim. 'Bonito e feio' tem mais graça."
Ele tem razão. Assim tem mais conteúdo e, ao mesmo tempo, crítica. Assim afirmo minha percepção, não deixando à escolha do observador.
Outro dia, o Daniel, colega de trabalho, perguntou pelo prédio onde funciona a agência dos Correios na rua Primeiro de Março: se eu já tinha estado lá. Já. "E é bonito?"
"É tão bonito e feio quanto qualquer prédio público antigo do Rio de Janeiro."
"Essa foi boa. Bonito e feio, gostei."
"É, eu me enganei. Quis dizer que é tão bonito ou feio quanto qualquer outro, dependendo de quem olha; que não tem nada de mais."
"Não, deixa assim. 'Bonito e feio' tem mais graça."
Ele tem razão. Assim tem mais conteúdo e, ao mesmo tempo, crítica. Assim afirmo minha percepção, não deixando à escolha do observador.
10 julho 2007
O elogio mais sincero
Mais uma vez, o relato da viagem do Sr Atoz a Houston, Texas, está aqui. Hoje trataremos de mais um outro tema.
Ontem, encontrei um website (por sinal muito bom, rico em informação) que citava texto meu sem autorização. Entrei em contato com eles e, hoje, já haviam atribuído os créditos devidos. Por isso, vim aqui e editei toda esta mensagem, inclusive seu título.
Ontem, encontrei um website (por sinal muito bom, rico em informação) que citava texto meu sem autorização. Entrei em contato com eles e, hoje, já haviam atribuído os créditos devidos. Por isso, vim aqui e editei toda esta mensagem, inclusive seu título.
09 julho 2007
ZAIRE, TALVEZ?
O relato da viagem do Sr Atoz a Houston, Texas, está aqui. Hoje trataremos de outro tema.
Então, na semana passada, o chefe da delegação americana no Pan foi ter a infeliz idéia de abrir os trabalhos escrevendo na lousa, "Welcome to the Congo!". Isso pegou muito mal, falou-se em preconceito etc. Em conseqüência, foi imediatamente substituído no cargo e a autoridade competente pediu desculpas. Vamos aos comentários.
1. Eu gosto desse senso prático. O sujeito faz eme, o sujeito é removido do cargo na hora. Não como punição, mas para evitar que faça mais eme.
2. Ué. O que que ele escreveu de errado?
3. O preconceito não é dele. O preconceito é de quem pensou o que pensou quando leu o que ele escreveu. Honni soit qui mal y pense.
O relato da viagem do Sr Atoz a Houston, Texas, está aqui. Hoje trataremos de outro tema.
Então, na semana passada, o chefe da delegação americana no Pan foi ter a infeliz idéia de abrir os trabalhos escrevendo na lousa, "Welcome to the Congo!". Isso pegou muito mal, falou-se em preconceito etc. Em conseqüência, foi imediatamente substituído no cargo e a autoridade competente pediu desculpas. Vamos aos comentários.
1. Eu gosto desse senso prático. O sujeito faz eme, o sujeito é removido do cargo na hora. Não como punição, mas para evitar que faça mais eme.
2. Ué. O que que ele escreveu de errado?
3. O preconceito não é dele. O preconceito é de quem pensou o que pensou quando leu o que ele escreveu. Honni soit qui mal y pense.
30 junho 2007
A viagem do Senhor Atoz a Houston
No período de 11 a 15 de junho de 2007, a empresa onde trabalho enviou-me a Houston, Texas, para participar de um seminário de logística. Tivemos palestras e visitas. O que vou narrar aqui são alguns dos aspectos da viagem que ocorreram fora das horas de trabalho e que mais chamaram minha atenção.
Como o evento era em Houston, avisei minha querida amiga — chamemo-la pelo pseudônimo vulcano T'Riet —, que mora lá e que eu não via desde 2001. Finalmente poderíamos nos ver de novo e ela poderia apresentar-me a seu marido (chamemo-lo Othon), com quem se casara em 2004. Na época, eles me convidaram, mas não pude comparecer à cerimônia.
Sábado, 9 de junho. Ocupei o assento 31C do Boeing 767-300ER, prefixo N1609, da Delta, no vôo 60 para Atlanta. Isso é no meio do avião, junto ao corredor esquerdo. Um colega ficou junto ao corredor direito. Ficamos ansiosos por o avião fechar logo a porta sem que ninguém ocupasse o meio, o que é muito bom e realmente aconteceu. Mais espaço para nós. Comecei a ler 2010, de Arthur Clarke.
Domingo, 10 de junho. O nascer do sol é sempre bonito, especialmente com nuvens no horizonte e visto de altitude. Consegui ver uma parte do céu na faixa verde do espectro, geralmente muito fugaz e estreita.
O café da manhã da Delta é fraquinho mesmo. Croissant com geléia, uma barra de Nutry, alguns biscoitos, suco de laranja, água e uma banana. Nem quis provar o chafé. Depois da quase-refeição, mais 2010 até a página 33.
O primeiro dia é sempre o do deslumbramento. Depois diminui.
Você não tem noção do TAMANHO do aeroporto Hartsfield-Jackson, de Atlanta. É MUITO GRANDE. São seis terminais, ligados por um trenzinho interno ("The next stop is concourse D. Concourse D, as in 'David'." Ou, pra quem é carioca, "next stop, Carioca Estation", manja?). Enquanto taxiávamos, eu só via avião da Delta, avião da Delta, avião da Delta. Vários da AirTran, mas Delta domina. Turns out Atlanta é o hub da Delta, que, até há uns anos, tinha a maior frota do mundo. E muito movimentado! O terminal CHEIO de gente, americanos andando dum lado pro outro, muito comércio, comida, muita gente com criança e muitos militares das quatro forças armadas (Exército, Marinha, Força Aérea e Fuzileiros), andando de camuflado, alguns deles pára-quedistas (pude ler no braço deles: "Airborne"), quase todos eram praças. Não, não estavam patrulhando nada, não pense que eram a segurança do aeroporto (até porque, lá, essa é uma tarefa civil, só o Brasil é que militariza tudo). Estavam sem qualquer equipamento, alguns visivelmente cansados. Com toda a certeza era gente voltando de alguma missão para casa — cabe lembrar que, lá, diferentemente daqui, um militar pode servir em lugar muito distante de casa embora no mesmo país. Imagino que houvesse gente voltando do Iraque, do Afeganistão ou de meros exercícios.
Mas é mesmo um aeroporto muito movimentado. Se cada terminal tem 36 portões, faça a conta, é muito avião.
Enquanto eu olhava, o movimento era muito intenso! Eram dois, às vezes três aviões decolando simultaneamente, dois descendo ao mesmo tempo, uma loucura. Foi somente assim, testemunhando em primeira mão, que pude entender (e isto foi uma tremenda coincidência) um trecho de um episódio de Futurama a que assisti à noite na mesma semana: Fry visita a "lost city of Atlanta" (não Atlantis), dizendo que, no século XXI, ela era apenas um aeroporto, ao que uma sereia responde que não, "Atlanta was more than just a Delta hub".


Como o evento era em Houston, avisei minha querida amiga — chamemo-la pelo pseudônimo vulcano T'Riet —, que mora lá e que eu não via desde 2001. Finalmente poderíamos nos ver de novo e ela poderia apresentar-me a seu marido (chamemo-lo Othon), com quem se casara em 2004. Na época, eles me convidaram, mas não pude comparecer à cerimônia.
Sábado, 9 de junho. Ocupei o assento 31C do Boeing 767-300ER, prefixo N1609, da Delta, no vôo 60 para Atlanta. Isso é no meio do avião, junto ao corredor esquerdo. Um colega ficou junto ao corredor direito. Ficamos ansiosos por o avião fechar logo a porta sem que ninguém ocupasse o meio, o que é muito bom e realmente aconteceu. Mais espaço para nós. Comecei a ler 2010, de Arthur Clarke.
Domingo, 10 de junho. O nascer do sol é sempre bonito, especialmente com nuvens no horizonte e visto de altitude. Consegui ver uma parte do céu na faixa verde do espectro, geralmente muito fugaz e estreita.
O café da manhã da Delta é fraquinho mesmo. Croissant com geléia, uma barra de Nutry, alguns biscoitos, suco de laranja, água e uma banana. Nem quis provar o chafé. Depois da quase-refeição, mais 2010 até a página 33.
O primeiro dia é sempre o do deslumbramento. Depois diminui.
Você não tem noção do TAMANHO do aeroporto Hartsfield-Jackson, de Atlanta. É MUITO GRANDE. São seis terminais, ligados por um trenzinho interno ("The next stop is concourse D. Concourse D, as in 'David'." Ou, pra quem é carioca, "next stop, Carioca Estation", manja?). Enquanto taxiávamos, eu só via avião da Delta, avião da Delta, avião da Delta. Vários da AirTran, mas Delta domina. Turns out Atlanta é o hub da Delta, que, até há uns anos, tinha a maior frota do mundo. E muito movimentado! O terminal CHEIO de gente, americanos andando dum lado pro outro, muito comércio, comida, muita gente com criança e muitos militares das quatro forças armadas (Exército, Marinha, Força Aérea e Fuzileiros), andando de camuflado, alguns deles pára-quedistas (pude ler no braço deles: "Airborne"), quase todos eram praças. Não, não estavam patrulhando nada, não pense que eram a segurança do aeroporto (até porque, lá, essa é uma tarefa civil, só o Brasil é que militariza tudo). Estavam sem qualquer equipamento, alguns visivelmente cansados. Com toda a certeza era gente voltando de alguma missão para casa — cabe lembrar que, lá, diferentemente daqui, um militar pode servir em lugar muito distante de casa embora no mesmo país. Imagino que houvesse gente voltando do Iraque, do Afeganistão ou de meros exercícios.
Mas é mesmo um aeroporto muito movimentado. Se cada terminal tem 36 portões, faça a conta, é muito avião.Enquanto eu olhava, o movimento era muito intenso! Eram dois, às vezes três aviões decolando simultaneamente, dois descendo ao mesmo tempo, uma loucura. Foi somente assim, testemunhando em primeira mão, que pude entender (e isto foi uma tremenda coincidência) um trecho de um episódio de Futurama a que assisti à noite na mesma semana: Fry visita a "lost city of Atlanta" (não Atlantis), dizendo que, no século XXI, ela era apenas um aeroporto, ao que uma sereia responde que não, "Atlanta was more than just a Delta hub".

Conexão para Houston no assento 29E do MD-88 de prefixo N985DL. Em Houston, o aeroporto George Bush (o pai) é o hub da Continental. Quer dizer, tinha vôo direto do Rio para lá, mas imagino que pela Delta fosse mais barato. Chamaram-me a atenção os vários Embraer ERJ-135 e -145 nas cores da Continental.
Se, nos Estados Unidos, você tem que ter carro, em Houston isso é ainda mais verdadeiro. Ninguém anda a pé, e só os pobres e turistas despreparados andam de ônibus. A cidade é toda espalhada, tudo é longe de tudo. Só o centro, centro mesmo, tem arranha-céus; o resto são tudo imóveis de um só andar semeados ao longo de inúmeras auto-estradas, não ruas. É tudo freeway, e o que mais se vê são aqueles SUV's bebedores de Diesel. Talk about global warming.

(Centro de Houston.)
O comércio está organizado em enormes lojas de centenas de metros de frente, ou, então, em malls onde as lojas são parede-com-parede ao longo da fachada; você estaciona em frente à loja e entra nela, mas não há uma galeria interna do mall. São muito comuns as lojas de carros, camionetas e caminhões usados onde se vêem dezenas de cada modelo, variando só a cor. Imagino que cada veículo usado seja bem barato, especialmente naquela terra onde eles têm que compactar os carros velhos de tantos que são.


(O comércio.)
O centro da cidade de Houston é relativamente vazio de pessoas, mesmo no horário do almoço no meio da semana. Acontece que, por baixo dos arranha-céus e seus quarteirões, existe um sistema de túneis. Você entra, por exemplo, na Macy's, desce uma escala rolante dentro da loja, e vai parar num corredor, conectado a pequenas praças subterrâneas, com lojas, academia de ginástica, locadora de vídeo, vários restaurantes e outros corredores, que se conectam a outros prédios. Uma boa forma de se escapar do sol escaldante.
O comércio está organizado em enormes lojas de centenas de metros de frente, ou, então, em malls onde as lojas são parede-com-parede ao longo da fachada; você estaciona em frente à loja e entra nela, mas não há uma galeria interna do mall. São muito comuns as lojas de carros, camionetas e caminhões usados onde se vêem dezenas de cada modelo, variando só a cor. Imagino que cada veículo usado seja bem barato, especialmente naquela terra onde eles têm que compactar os carros velhos de tantos que são.
O centro da cidade de Houston é relativamente vazio de pessoas, mesmo no horário do almoço no meio da semana. Acontece que, por baixo dos arranha-céus e seus quarteirões, existe um sistema de túneis. Você entra, por exemplo, na Macy's, desce uma escala rolante dentro da loja, e vai parar num corredor, conectado a pequenas praças subterrâneas, com lojas, academia de ginástica, locadora de vídeo, vários restaurantes e outros corredores, que se conectam a outros prédios. Uma boa forma de se escapar do sol escaldante.
Por toda parte aonde fui, constatei que Houston é uma cidade limpa, e as lojas e o hotel são perfumados. Um detalhe interessante é que muitos anúncios, avisos, letreiros de informações e de proibições em geral estão em espanhol, assim como alguns avisos em alto-falante também são feitos nessa língua. Observei muitos mexicanos, mas também uma etíope, uma turca e alguns paquistaneses, trabalhando em serviços que requerem pouca qualificação. Também é fácil encontrar comida mexicana, e pratos "à moda do Texas" vêm com pimenta ou guacamole.
Você sabia que a Mulher-Maravilha abriu uma cadeia de restaurantes nos Estados Unidos?
Você sabia que a Mulher-Maravilha abriu uma cadeia de restaurantes nos Estados Unidos?
Segunda-feira, 11 de junho. À tarde, após a visita técnica, parte do pessoal ficou em um mall (este, sim, ao modo como conhecemos os "shopping centers") chamado Greenspoint, ao norte da cidade. Vazio (talvez por causa do horário), descobrimos que todos os seus freqüentadores são negros! As lojas vendem tênis para basquete, soul music, coisas de que o estereótipo do negro americano vai gostar. Pois tinha uma promoção na Victoria's Secret que a mulherada logo descobriu: dez itens (loções ou hidratantes) por US$ 35, ou cinco por US$ 20. Nessa tarde, todo o mundo saiu de lá com uma bolsinha da VS.
No final do dia, T'Riet veio buscar-me. Jantei em casa dela.
Terça-feira, 12 de junho. Alguns de vocês sabem que, agora, sou um colecionador de quadrinhos da DC Comics. Existem várias edições antigas que persigo. Então, assim que soube que ia viajar, fui ao Google procurar endereços de lojas de quadrinhos em Houston. A mais recomendada por leitores era a Bedrock City Comics, então eu precisava ir lá: 6517 Westheimer. T'Riet não conhece quadrinhos nem tem qualquer interesse por eles, mas, anfitriã querendo fazer-me feliz, levou-me depois de minhas horas de trabalho. Assim, enquanto meus colegas iam a um jogo de baseball, fui caçar revistinhas. Entramos quando faltavam dez minutos para fechar, e fiquei alucinado com a quantidade e variedade de quadrinhos da loja. Freneticamente, pus-me a catar os itens de minha listinha tão rápido quanto conseguia, T'Riet ajudando-me. Em voz alta e inglês, lamentei não ter mais tempo. Aí, o proprietário Mike (ainda não havíamos sido apresentados), vendo o volume de compras e o inusitado de minha situação, pensou rápido e perguntou a um empregado se podia ficar até mais tarde. Não podia. Então Mike me disse que eu podia ficar enquanto ele terminava o que estava fazendo. Saí de lá mais de uma hora depois, tendo explicado a ele como é a publicação licenciada da DC pela Panini no Brasil, que temos um ano de atraso, que Crise infinita ainda está saindo etc.
Também dei a ele a cópia mais atual de minha megatabela (cerca de 3200 linhas) para leitura ordenada dos títulos da DC. De um fã para outro, tal como se vê gratuitamente as pessoas disponibilizarem seus árduos trabalhos de pesquisa na Web, peguei meu flashdrive Atoz e espetei no notebook do Mike. Se ele vai ganhar dinheiro com meu arquivo, se meu arquivo vai ser útil no trabalho, se ele vai apagar o arquivo, não me importo; já estou registrado na Biblioteca Nacional como o autor e, se o arquivo tiver alguma utilidade para ele, já estarei feliz.
A primeira foto é metade das novidades do mês. A segunda foto são as edições antigas, em ordem alfabética. A terceira são os encadernados (TP's, trade paperbacks, para quem é do ramo).
Impressionou-me o conhecimento do Mike: se eu perguntava, "tem Legião dos Super-Heróis # 38?", ele respondia, "é do final dos anos 80, né? Se tiver, tali". Se eu procurava edições antigas da Action Comics, ele me dizia, está junto com Superman — mas ele está pensando em dispor AC na ordem alfabética mesmo, porque o público que chega querendo "Superman", genérico, é a molecada, que nunca procura back issues e sim está atrás das novidades, enquanto quem olha as back issues são os colecionadores, que conhecem muito melhor o produto e que procurariam na ordem alfabética. Não adianta Mike
juntar AC com outras do Superman (já que colecionadores não querem "qualquer revista do Superman", mas sim alguma revista específica).

Na Bedrock, virei criança na loja de doce. Levei dezenas de edições antigas, mais Crisis on Infinite Earths, Absolute Edition, Superman: the Ultimate Guide, Batman e JLA Ultimate Guides, The DC Comics Encyclopedia
, guia visual de Star Wars, cinco volumes do Monstro do Pântano por Alan Moore e três do Sandman (com esses fechei a coleção). Com o volume de compras que fiz, Mike me deu um desconto de 10% em cima do valor que deixaria na loja (e, mesmo assim, não deixei pouco), mais dois catálogos de brinde para eu mostrar na Point HQ, sua contraparte que freqüento (e que recomendo). Perguntei a ele se é comum que alguém gaste tanto, ao que ele me disse que há clientes que vêm mensalmente e gastam bem mais, mas que, sim, o que eu fiz é raro (e bem-vindo). Tive que sair de lá com duas caixas de papelão, que ele me cedeu, para carregar esse material todo.
No final do dia, T'Riet veio buscar-me. Jantei em casa dela.
Terça-feira, 12 de junho. Alguns de vocês sabem que, agora, sou um colecionador de quadrinhos da DC Comics. Existem várias edições antigas que persigo. Então, assim que soube que ia viajar, fui ao Google procurar endereços de lojas de quadrinhos em Houston. A mais recomendada por leitores era a Bedrock City Comics, então eu precisava ir lá: 6517 Westheimer. T'Riet não conhece quadrinhos nem tem qualquer interesse por eles, mas, anfitriã querendo fazer-me feliz, levou-me depois de minhas horas de trabalho. Assim, enquanto meus colegas iam a um jogo de baseball, fui caçar revistinhas. Entramos quando faltavam dez minutos para fechar, e fiquei alucinado com a quantidade e variedade de quadrinhos da loja. Freneticamente, pus-me a catar os itens de minha listinha tão rápido quanto conseguia, T'Riet ajudando-me. Em voz alta e inglês, lamentei não ter mais tempo. Aí, o proprietário Mike (ainda não havíamos sido apresentados), vendo o volume de compras e o inusitado de minha situação, pensou rápido e perguntou a um empregado se podia ficar até mais tarde. Não podia. Então Mike me disse que eu podia ficar enquanto ele terminava o que estava fazendo. Saí de lá mais de uma hora depois, tendo explicado a ele como é a publicação licenciada da DC pela Panini no Brasil, que temos um ano de atraso, que Crise infinita ainda está saindo etc.
Também dei a ele a cópia mais atual de minha megatabela (cerca de 3200 linhas) para leitura ordenada dos títulos da DC. De um fã para outro, tal como se vê gratuitamente as pessoas disponibilizarem seus árduos trabalhos de pesquisa na Web, peguei meu flashdrive Atoz e espetei no notebook do Mike. Se ele vai ganhar dinheiro com meu arquivo, se meu arquivo vai ser útil no trabalho, se ele vai apagar o arquivo, não me importo; já estou registrado na Biblioteca Nacional como o autor e, se o arquivo tiver alguma utilidade para ele, já estarei feliz.Impressionou-me o conhecimento do Mike: se eu perguntava, "tem Legião dos Super-Heróis # 38?", ele respondia, "é do final dos anos 80, né? Se tiver, tali". Se eu procurava edições antigas da Action Comics, ele me dizia, está junto com Superman — mas ele está pensando em dispor AC na ordem alfabética mesmo, porque o público que chega querendo "Superman", genérico, é a molecada, que nunca procura back issues e sim está atrás das novidades, enquanto quem olha as back issues são os colecionadores, que conhecem muito melhor o produto e que procurariam na ordem alfabética. Não adianta Mike
Na Bedrock, virei criança na loja de doce. Levei dezenas de edições antigas, mais Crisis on Infinite Earths, Absolute Edition, Superman: the Ultimate Guide, Batman e JLA Ultimate Guides, The DC Comics Encyclopedia
, guia visual de Star Wars, cinco volumes do Monstro do Pântano por Alan Moore e três do Sandman (com esses fechei a coleção). Com o volume de compras que fiz, Mike me deu um desconto de 10% em cima do valor que deixaria na loja (e, mesmo assim, não deixei pouco), mais dois catálogos de brinde para eu mostrar na Point HQ, sua contraparte que freqüento (e que recomendo). Perguntei a ele se é comum que alguém gaste tanto, ao que ele me disse que há clientes que vêm mensalmente e gastam bem mais, mas que, sim, o que eu fiz é raro (e bem-vindo). Tive que sair de lá com duas caixas de papelão, que ele me cedeu, para carregar esse material todo.Pode me chamar de recalcado, mas, enquanto encaixotávamos os livros e revistinhas, eu não parava de comemorar o fato de serem todos imunes a impostos no Brasil (q.v. Constituição, artigo 150, VI, d). Eu ficava imaginando a cara de decepção do fiscal da Receita no Galeão, com a sanha de me tributar mas só encontrando material imune...
Depois T'Riet me levou a jantar em um lugar excelente, com boa variedade de hambúrgueres, comida mexicana, tudo. Sempre sonhei fazer uma refeição em uma dessas lanchonetes que a gente vê em filme americano, com a arquitetura dividida em booths. Comi um frango grelhado sensacional, coberto com um generoso molho apimentado de cogumelos (Hobbits gostam de cogumelos) e acompanhado de guacamole, fajitas e um margarita com sabor de tangerina.
Quarta-feira, 13 de junho. Após o expediente, visita à Waldenbooks, uma livraria pequena, perto do hotel. Fiquei fascinado: aqui, livreiro sabe o que vende! O livreiro Greg lamentou comigo não haver Asimov à venda (nem unzinho!), mas indicou-me outros Autores. Como eu procurava a Fundação, ele indicou-me Duna, de Frank Herbert. Também: antes de eu sair do Brasil, uma advogada americana comentara comigo que o marido a presenteara com uma trilogia de História alternativa, onde a II Guerra Mundial é travada com armas de hoje. Ao percorrer a Waldenbooks, deparei-me com Designated Targets, de John Birmingham, mostrando um F-35 com uma suástica na capa. É óbvio que era parte da trilogia! Mais sobre isso adiante. Anotei o que teria de comprar ali.
À noite, coquetel. O Prof Dale Rogers perguntou-me por que não há sitcoms no Brasil, e dei-lhe uma aula sobre como o brasileiro se relaciona com a televisão e sobre como nos falta uma auto-estima associada a uma identidade nacional. Ele ficou fascinado. Por meandros que a conversa tomou e em razão de minha curiosidade, explicou-me como funciona o sistema educacional americano.
Quinta-feira, 14 de junho. Visita ao porto de Houston, um dos maiores do mundo. Fica ao longo de um canal concluído lá por volta de 1917, o Ship Channel, que tem uns 40 km. Ao longo dele, uma porção de refinarias e terminais. A visita foi concluída com um passeio a bordo do M/V Sam Houston (esse barquinho aí da foto),
gratuito, aberto a turistas (embora só nosso grupo tivesse feito dessa vez), e onde era proibido tirar foto (mesmo assim houve quem tirasse). Cozinha no porão, almoçamos ***excelente*** camarão Creole (= cremoso à moda da Louisiana, com bastante pimentão e lembrando bobó, o que é natural: a cultura Creole é de origem africana, igual à afrocultura da Bahia). O barco tem janelas grandes, ar condicionado e poltronas luxuosas de couro por dentro, mas é mais interessante ficar no lado de fora, na proa, onde se aproveita melhor o passeio narrado pelo alto-falante.
Também fiquei sabendo que o encouraçado USS Texas está ancorado por ali, como museu.
Por falar em afrocultura. Faz um tempo que venho constatando que, nos Estados Unidos, as diferenciações raciais não se baseiam só em cor de pele. Há uma segregação cultural. Eles parecem acreditar que "negros devem gostar de coisas de negros e brancos, de coisas de brancos". Isso se manifesta de várias formas, uma delas a linguagem. Pois constatei que o sotaque dos negros, ao menos por ali, é bem aquele sotaque característico que a gente vê nos filmes (geralmente vinculado ao Sul do país, mas valendo também nas metrópoles), esticando a vogal tônica das palavras, diferente do sotaque dos brancos, que, se forem texanos, é mais enrolado. Definitivamente, estou convencido de que o linguajar é usado para demarcar o grupo cultural. Os negros foram-me mais difíceis de entender, eu tinha que pedir que repetissem.
À tarde, fui ao Fry's Electronics. Fiquei abismado com a variedade de DVD's de filmes e séries de TV. Saí de lá com coisas que nem sabia existirem: dois documentários sobre o Genesis, The Battle of Britain, Von Richthofen and Brown (filme B de 1971, a que me prendo por razões emocionais: Richard Bach pilotou pelo menos um dos aviõezinhos), a série Monty Python's Flying Circus inteira, e uma promoção: todos os dez filmes de Star Trek, todos na versão do diretor (ou de colecionador, conforme o caso), por US$ 65! (Depois vi: tá por US$ 82 na Amazon, mais frete.)
Depois Othon levou-me à casa deles, onde novamente jantei e assisti ao vídeo do casamento. Novamente lamentei não ter podido ir na época: foi um casamento trekker maneiríssimo, celebrado na ponte da Enterprise-D do Star Trek Experience, em Las Vegas.
Sexta-feira, 15 de junho. Fui a uma Barnes & Noble. Não era nem a maior das várias de Houston, mas era a que melhor conjugava tamanho e distância ao hotel. Fiquei besta de novo. Tem, facilmente, o triplo ou quádruplo da área de uma Saraiva Megastore e estantes mais altas. E o atendimento?! A livreira que me atendeu, supersolícita, conhece o que está vendendo. Perguntei por livros do Carl Sagan, ela perguntou de que gênero (porque tem Astronomia, Evolução, Ciência genérica...). Perguntei por Richard Dawkins, ela perguntou qual; quando eu disse The Blind Watchmaker, ela perguntou se eu também não queria seu mais recente The God Delusion (não quis, já que não tenho referência boa nem ruim sobre ele; está cedo) ou, talvez, o clássico The Selfish Gene (esse eu quis). Um milhão de vezes melhor do que os vendedores de livraria brasileiros, que não conhecem nada do que tem na loja e, aliás, nem sabem se tem. Fiquei lá uma hora e meia e saí com três bolsas carregadas de Pale Blue Dot do Sagan, dois do Dawkins, vários de Rama do Clarke, vários da Fundação de Asimov, dois do Sandman (presente para T'Riet), dicionário de Direito Random Webster, The Wild Blue de Stephen Ambrose, The Hobbit e The Silmarillion (que só depois lembrei estarem em inglês americano, mas espero que isso não me prejudique — de todo modo, é mais barato do que pagar o frete da Amazon.co.uk), o primeiro volume da trilogia Axis of Time (Weapons of Choice — também tinham o segundo, mas estava amassado e eu sabia que encontraria melhor na Waldenbooks)... Todos, conforme eu mais me lembrava e mais me alegrava, imunes a impostos.
T'Riet e Othon vieram me buscar no hotel para assistirmos a Spamalot, a peça de Eric Idle que é versão de Monty Python e o Cálice Sagrado. Era o último dia de apresentação naquela cidade! O povo todo emperiquitado (os distintos senhores de terno, as senhôras de casaco de oncinha), mas Othon de camiseta e eu sem ter tomado banho ainda. A peça está(va) percorrendo todos os EUA há bastante tempo, tendo começado na Broadway em 2005 com direção de Mike Nichols e ganhado três Tonies e alguns outros prêmios. Muito parecida com o filme no roteiro, mas bem diferente na música, que é paródia do teatro da Broadway e também dos agudos esganiçados da Whitney Houston. Estavam lá as cenas do "bring your dead", da discussão sobre a andorinha transportando o coco, do Cavaleiro Negro, do coelhinho assassino, dos cavaleiros que dizem Ni e da descoberta de que Lancelot é gay.

(Arthur inflige uma mera "flesh wound" ao Cavaleiro Negro. Desculpe o borrão.)
Diferentemente do filme, na peça o Cálice Sagrado é afinal encontrado. Estava escondido na platéia, embaixo de uma cadeira. O ator desceu procurando, parou ao lado da vítima (é por isso que eu e muita gente não vamos a teatro), pôs-lhe a mão no ombro, gritou para o palco que tinha achado o Cálice, depois falou para o cidadão, "yes sir, it's your lucky day". Pelo menos não esculacharam o sujeito, já um tanto idoso. De forma bem-humorada, levaram-no ao palco, tiraram foto com ele, deram-lhe um troféu e a peça seguiu para seu final.
Depois T'Riet me levou a jantar em um lugar excelente, com boa variedade de hambúrgueres, comida mexicana, tudo. Sempre sonhei fazer uma refeição em uma dessas lanchonetes que a gente vê em filme americano, com a arquitetura dividida em booths. Comi um frango grelhado sensacional, coberto com um generoso molho apimentado de cogumelos (Hobbits gostam de cogumelos) e acompanhado de guacamole, fajitas e um margarita com sabor de tangerina.
Quarta-feira, 13 de junho. Após o expediente, visita à Waldenbooks, uma livraria pequena, perto do hotel. Fiquei fascinado: aqui, livreiro sabe o que vende! O livreiro Greg lamentou comigo não haver Asimov à venda (nem unzinho!), mas indicou-me outros Autores. Como eu procurava a Fundação, ele indicou-me Duna, de Frank Herbert. Também: antes de eu sair do Brasil, uma advogada americana comentara comigo que o marido a presenteara com uma trilogia de História alternativa, onde a II Guerra Mundial é travada com armas de hoje. Ao percorrer a Waldenbooks, deparei-me com Designated Targets, de John Birmingham, mostrando um F-35 com uma suástica na capa. É óbvio que era parte da trilogia! Mais sobre isso adiante. Anotei o que teria de comprar ali.
À noite, coquetel. O Prof Dale Rogers perguntou-me por que não há sitcoms no Brasil, e dei-lhe uma aula sobre como o brasileiro se relaciona com a televisão e sobre como nos falta uma auto-estima associada a uma identidade nacional. Ele ficou fascinado. Por meandros que a conversa tomou e em razão de minha curiosidade, explicou-me como funciona o sistema educacional americano.
Quinta-feira, 14 de junho. Visita ao porto de Houston, um dos maiores do mundo. Fica ao longo de um canal concluído lá por volta de 1917, o Ship Channel, que tem uns 40 km. Ao longo dele, uma porção de refinarias e terminais. A visita foi concluída com um passeio a bordo do M/V Sam Houston (esse barquinho aí da foto),
gratuito, aberto a turistas (embora só nosso grupo tivesse feito dessa vez), e onde era proibido tirar foto (mesmo assim houve quem tirasse). Cozinha no porão, almoçamos ***excelente*** camarão Creole (= cremoso à moda da Louisiana, com bastante pimentão e lembrando bobó, o que é natural: a cultura Creole é de origem africana, igual à afrocultura da Bahia). O barco tem janelas grandes, ar condicionado e poltronas luxuosas de couro por dentro, mas é mais interessante ficar no lado de fora, na proa, onde se aproveita melhor o passeio narrado pelo alto-falante.Também fiquei sabendo que o encouraçado USS Texas está ancorado por ali, como museu.
Por falar em afrocultura. Faz um tempo que venho constatando que, nos Estados Unidos, as diferenciações raciais não se baseiam só em cor de pele. Há uma segregação cultural. Eles parecem acreditar que "negros devem gostar de coisas de negros e brancos, de coisas de brancos". Isso se manifesta de várias formas, uma delas a linguagem. Pois constatei que o sotaque dos negros, ao menos por ali, é bem aquele sotaque característico que a gente vê nos filmes (geralmente vinculado ao Sul do país, mas valendo também nas metrópoles), esticando a vogal tônica das palavras, diferente do sotaque dos brancos, que, se forem texanos, é mais enrolado. Definitivamente, estou convencido de que o linguajar é usado para demarcar o grupo cultural. Os negros foram-me mais difíceis de entender, eu tinha que pedir que repetissem.
À tarde, fui ao Fry's Electronics. Fiquei abismado com a variedade de DVD's de filmes e séries de TV. Saí de lá com coisas que nem sabia existirem: dois documentários sobre o Genesis, The Battle of Britain, Von Richthofen and Brown (filme B de 1971, a que me prendo por razões emocionais: Richard Bach pilotou pelo menos um dos aviõezinhos), a série Monty Python's Flying Circus inteira, e uma promoção: todos os dez filmes de Star Trek, todos na versão do diretor (ou de colecionador, conforme o caso), por US$ 65! (Depois vi: tá por US$ 82 na Amazon, mais frete.)
Depois Othon levou-me à casa deles, onde novamente jantei e assisti ao vídeo do casamento. Novamente lamentei não ter podido ir na época: foi um casamento trekker maneiríssimo, celebrado na ponte da Enterprise-D do Star Trek Experience, em Las Vegas.Sexta-feira, 15 de junho. Fui a uma Barnes & Noble. Não era nem a maior das várias de Houston, mas era a que melhor conjugava tamanho e distância ao hotel. Fiquei besta de novo. Tem, facilmente, o triplo ou quádruplo da área de uma Saraiva Megastore e estantes mais altas. E o atendimento?! A livreira que me atendeu, supersolícita, conhece o que está vendendo. Perguntei por livros do Carl Sagan, ela perguntou de que gênero (porque tem Astronomia, Evolução, Ciência genérica...). Perguntei por Richard Dawkins, ela perguntou qual; quando eu disse The Blind Watchmaker, ela perguntou se eu também não queria seu mais recente The God Delusion (não quis, já que não tenho referência boa nem ruim sobre ele; está cedo) ou, talvez, o clássico The Selfish Gene (esse eu quis). Um milhão de vezes melhor do que os vendedores de livraria brasileiros, que não conhecem nada do que tem na loja e, aliás, nem sabem se tem. Fiquei lá uma hora e meia e saí com três bolsas carregadas de Pale Blue Dot do Sagan, dois do Dawkins, vários de Rama do Clarke, vários da Fundação de Asimov, dois do Sandman (presente para T'Riet), dicionário de Direito Random Webster, The Wild Blue de Stephen Ambrose, The Hobbit e The Silmarillion (que só depois lembrei estarem em inglês americano, mas espero que isso não me prejudique — de todo modo, é mais barato do que pagar o frete da Amazon.co.uk), o primeiro volume da trilogia Axis of Time (Weapons of Choice — também tinham o segundo, mas estava amassado e eu sabia que encontraria melhor na Waldenbooks)... Todos, conforme eu mais me lembrava e mais me alegrava, imunes a impostos.
T'Riet e Othon vieram me buscar no hotel para assistirmos a Spamalot, a peça de Eric Idle que é versão de Monty Python e o Cálice Sagrado. Era o último dia de apresentação naquela cidade! O povo todo emperiquitado (os distintos senhores de terno, as senhôras de casaco de oncinha), mas Othon de camiseta e eu sem ter tomado banho ainda. A peça está(va) percorrendo todos os EUA há bastante tempo, tendo começado na Broadway em 2005 com direção de Mike Nichols e ganhado três Tonies e alguns outros prêmios. Muito parecida com o filme no roteiro, mas bem diferente na música, que é paródia do teatro da Broadway e também dos agudos esganiçados da Whitney Houston. Estavam lá as cenas do "bring your dead", da discussão sobre a andorinha transportando o coco, do Cavaleiro Negro, do coelhinho assassino, dos cavaleiros que dizem Ni e da descoberta de que Lancelot é gay.
(Arthur inflige uma mera "flesh wound" ao Cavaleiro Negro. Desculpe o borrão.)
Diferentemente do filme, na peça o Cálice Sagrado é afinal encontrado. Estava escondido na platéia, embaixo de uma cadeira. O ator desceu procurando, parou ao lado da vítima (é por isso que eu e muita gente não vamos a teatro), pôs-lhe a mão no ombro, gritou para o palco que tinha achado o Cálice, depois falou para o cidadão, "yes sir, it's your lucky day". Pelo menos não esculacharam o sujeito, já um tanto idoso. De forma bem-humorada, levaram-no ao palco, tiraram foto com ele, deram-lhe um troféu e a peça seguiu para seu final.
Depois, T'Riet e Othon me levaram para jantar em um restaurante italiano/irlandês (sim, é isso mesmo). Comi uma tilápia enorme, com molho de camarão e acompanhada de penne com um molho que era mistura de Alfredo e marinara. Estava de cair pra trás, você devia provar. E para acompanhar: draught bitter Guinness como não tomava desde minha visita a terras de Sua Majestade, em 1998! Eu tinhaquê, entende?
Sábado, 16 de junho. De manhã, visita à Waldenbooks para completar os livros que faltara comprar na B&N. Peguei The Mists of Avalon, perguntei se o volume único era quatro-em-um e, embora a velhinha não soubesse, pelo menos sabia do que eu estava falando (só para constar, afinal era 4-em-1 sim e acabei comprando). Saí dali tendo completado a trilogia Axis of Time (D. Targets, Final Impact), mais levando dois do Hemingway (For Whom the Bell Tolls e A Farewell to Arms), 1984 e Animal Farm. Sempre imunes a impostos.

Entre livros, DVD e promoção da Victoria's Secret, a mala (que, aliás, T'Riet me deu, porque eu fôra só com bagagem de mão) veio pesando 35 kg e a bagagem de mão, dezesseis.
Quem nos levou ao aeroporto foi o terceiro taxista nigeriano que vi na semana (de seis táxis que peguei). Ainda vou entender o que há. Mas, enfim, depois da chuva torrencial que se abateu sobre partes de Houston no meio da tarde, ficamos no aeroporto a aguardar o avião que nos levaria a Atlanta. O aeroporto George Bush é também muito movimentado; era um tal de subir e descer avião que você não imagina — quase todos da Continental e a maioria Embraer ERJ-135 e -145. Mas teve uma hora que chegou um 747 da KLM. Você não acredita que tanto metal consiga estar no ar, ele parece até mais lento. A pista estava molhada da chuva recente e, quando ele acionou os quatro reversores de empuxo, foi aquela nuvem acompanhando os esporrentos motores e atraindo todos os olhares.


(Embraer ERJ-145 e ERJ-135; e 747 da KLM.)
E fomos ficando angustiados, que nosso avião não chegava e a conexão estava marcada para hora e meia depois do pouso em Atlanta. Saímos com mais de duas horas de atraso. Veja adiante a conseqüência disso.
Sábado, 16 de junho. De manhã, visita à Waldenbooks para completar os livros que faltara comprar na B&N. Peguei The Mists of Avalon, perguntei se o volume único era quatro-em-um e, embora a velhinha não soubesse, pelo menos sabia do que eu estava falando (só para constar, afinal era 4-em-1 sim e acabei comprando). Saí dali tendo completado a trilogia Axis of Time (D. Targets, Final Impact), mais levando dois do Hemingway (For Whom the Bell Tolls e A Farewell to Arms), 1984 e Animal Farm. Sempre imunes a impostos.

Entre livros, DVD e promoção da Victoria's Secret, a mala (que, aliás, T'Riet me deu, porque eu fôra só com bagagem de mão) veio pesando 35 kg e a bagagem de mão, dezesseis.
Quem nos levou ao aeroporto foi o terceiro taxista nigeriano que vi na semana (de seis táxis que peguei). Ainda vou entender o que há. Mas, enfim, depois da chuva torrencial que se abateu sobre partes de Houston no meio da tarde, ficamos no aeroporto a aguardar o avião que nos levaria a Atlanta. O aeroporto George Bush é também muito movimentado; era um tal de subir e descer avião que você não imagina — quase todos da Continental e a maioria Embraer ERJ-135 e -145. Mas teve uma hora que chegou um 747 da KLM. Você não acredita que tanto metal consiga estar no ar, ele parece até mais lento. A pista estava molhada da chuva recente e, quando ele acionou os quatro reversores de empuxo, foi aquela nuvem acompanhando os esporrentos motores e atraindo todos os olhares.
(Embraer ERJ-145 e ERJ-135; e 747 da KLM.)
E fomos ficando angustiados, que nosso avião não chegava e a conexão estava marcada para hora e meia depois do pouso em Atlanta. Saímos com mais de duas horas de atraso. Veja adiante a conseqüência disso.
Os passageiros ainda se acomodavam quando vi ali fora, sem alarde nenhum, um F-16 monoposto da Texas ANG, taxiando. Quisera ter podido vê-lo antes. Acho que isso foi o mais perto que já estive de um F-16!
A bordo do avião de Houston para Atlanta, uma passageira muito simpática estava sentada à minha esquerda. Não lembro quem puxou papo, mas ela me contou ser natural da Georgia. Tentei ser agradável dizendo que era o mesmo estado de nascimento do Dr. McCoy, mas ela não me entendeu. "Bones McCoy", eu disse, mas não adiantou. Tive que explicar que, muitos anos atrás, houvera uma série de TV chamada Star Trek e que ele era o médico da nave... Ela nunca vira, só ouvira falar. Resulta que é professora de primeira série, canta na igreja batista e ensina "tudo" a crianças de seis anos: Matemática, Inglês, Ciência... Quando fui contar o episódio de Futurama, comentei a parte em que Fry questionava como os atlanteanos haviam virado sereias em apenas dois mil anos se a evolução leva milhões (solução: a cafeína da fábrica, vocês sabem de quê, é que acelera o processo). A isso ela respondeu, com a maior tranqüilidade que a certeza lhe dá, que não acredita (sic) em evolução.
Nesse ponto eu não soube reagir. Só me certifiquei de que ela tivesse entendido a idéia de evolução, mutação e seleção natural. Ela até disse que sim, mas, pensando em retrospecto, está evidente que não. Desisti de qualquer esforço, não era o momento de deflagrar o velho debate (aliás falacioso) de Ciência versus religião. Nem valeria a pena.
Em Atlanta, enquanto taxiava para encostar no portão, o piloto anunciou que os (21 ou mais) brasileiros a bordo deveriam proceder imediatamente ao portão E36, onde nossa conexão esperava. "DO NOT STOP." Acho que julgaram mais barato atrasar um vôo por uma hora do que pagar diária de hotel em Atlanta para 21 ou mais pessoas. Mas, se nosso terminal de partida para o Brasil era o E, é óbvio que o avião encostou no terminal A. Tive uma oportunidade única de participar da Corrida de Atlanta, carregando 16 kg de bagagem de mão, eu e todo o pessoal. Cheguei completamente ensopado, todos nós agitados, falando alto, esbaforidos, a bordo do 767-300 de prefixo N192DN, carregado de passageiros que deviam estar adorando ter que esperar esse bando de atrasildos desde sei lá que horas. Como requinte final e necessário, é claro que tinha que ter alguém no meu lugar. Eu o escolhera mais de uma semana antes, fiz o checkin a tempo em Houston, mas òbviamente a Delta, demonstrando o maior respeito e consideração pelo passageiro, deu o mesmo assento a um garoto que, estou convicto, não teve uma fração do meu cuidado. Nem perdi tempo discutindo com ele (que é o que o brasileiro médio faria); fui, na mesma hora, procurar um flight attendant, que acabou me arrumando o assento 34C, felizmente ao lado de uma colega muito gente boa.
No vôo de volta, estavam todos eufóricos depois de uma semana estimulante e uma correria para embarcar. Por isso, tinha gente andando e conversando até duas da manhã, hora de Brasília. Uma americana, sentada à minha diagonal, perguntava a um colega qual era a moeda brasileira e qual o câmbio para o dólar. Pensei, essa aí tá lascada. Já o japonês à minha esquerda (oquei, na verdade era americano, perdoe-me, Hiro), esse tinha um mapa e um guia, havia pesquisado e me fez perguntas muito mais inteligentes, sobre lugares a visitar, meios de transporte, custo de vida e bebidas alcoólicas (!). Estava a par da Costa Verde, que sugeri visitasse.
Após o desembarque no Rio, vimos que o improvável havia acontecido: as malas do nosso grupo chegaram junto conosco apesar da barafunda da conexão! Lamentavelmente, o mesmo não podem dizer os sorteados de algum vôo com destino a Brasília, cujas malas ficaram dando voltas na mesma esteira das nossas, a milhares de quilômetros de onde deviam estar. Eu só peço à Infraero, ou a quem quer que seja, que, por piedade, TIRE O SAXOFONISTA que fica desafinando Tom Jobim, Toquinho e João Gilberto como som ambiente para quem, estressado e cansado, está esperando suas malas aparecerem na esteira. Tá certo que a música é uma profissão difícil, ingrata, mal paga; mas, francamente, ali não é o lugar nem a hora. Ele podia fazer par com seu contraparte que fica na porta do metrô da Carioca; quem sabe um ensina ao outro. Ou não.
A bordo do avião de Houston para Atlanta, uma passageira muito simpática estava sentada à minha esquerda. Não lembro quem puxou papo, mas ela me contou ser natural da Georgia. Tentei ser agradável dizendo que era o mesmo estado de nascimento do Dr. McCoy, mas ela não me entendeu. "Bones McCoy", eu disse, mas não adiantou. Tive que explicar que, muitos anos atrás, houvera uma série de TV chamada Star Trek e que ele era o médico da nave... Ela nunca vira, só ouvira falar. Resulta que é professora de primeira série, canta na igreja batista e ensina "tudo" a crianças de seis anos: Matemática, Inglês, Ciência... Quando fui contar o episódio de Futurama, comentei a parte em que Fry questionava como os atlanteanos haviam virado sereias em apenas dois mil anos se a evolução leva milhões (solução: a cafeína da fábrica, vocês sabem de quê, é que acelera o processo). A isso ela respondeu, com a maior tranqüilidade que a certeza lhe dá, que não acredita (sic) em evolução.
Nesse ponto eu não soube reagir. Só me certifiquei de que ela tivesse entendido a idéia de evolução, mutação e seleção natural. Ela até disse que sim, mas, pensando em retrospecto, está evidente que não. Desisti de qualquer esforço, não era o momento de deflagrar o velho debate (aliás falacioso) de Ciência versus religião. Nem valeria a pena.
Em Atlanta, enquanto taxiava para encostar no portão, o piloto anunciou que os (21 ou mais) brasileiros a bordo deveriam proceder imediatamente ao portão E36, onde nossa conexão esperava. "DO NOT STOP." Acho que julgaram mais barato atrasar um vôo por uma hora do que pagar diária de hotel em Atlanta para 21 ou mais pessoas. Mas, se nosso terminal de partida para o Brasil era o E, é óbvio que o avião encostou no terminal A. Tive uma oportunidade única de participar da Corrida de Atlanta, carregando 16 kg de bagagem de mão, eu e todo o pessoal. Cheguei completamente ensopado, todos nós agitados, falando alto, esbaforidos, a bordo do 767-300 de prefixo N192DN, carregado de passageiros que deviam estar adorando ter que esperar esse bando de atrasildos desde sei lá que horas. Como requinte final e necessário, é claro que tinha que ter alguém no meu lugar. Eu o escolhera mais de uma semana antes, fiz o checkin a tempo em Houston, mas òbviamente a Delta, demonstrando o maior respeito e consideração pelo passageiro, deu o mesmo assento a um garoto que, estou convicto, não teve uma fração do meu cuidado. Nem perdi tempo discutindo com ele (que é o que o brasileiro médio faria); fui, na mesma hora, procurar um flight attendant, que acabou me arrumando o assento 34C, felizmente ao lado de uma colega muito gente boa.
No vôo de volta, estavam todos eufóricos depois de uma semana estimulante e uma correria para embarcar. Por isso, tinha gente andando e conversando até duas da manhã, hora de Brasília. Uma americana, sentada à minha diagonal, perguntava a um colega qual era a moeda brasileira e qual o câmbio para o dólar. Pensei, essa aí tá lascada. Já o japonês à minha esquerda (oquei, na verdade era americano, perdoe-me, Hiro), esse tinha um mapa e um guia, havia pesquisado e me fez perguntas muito mais inteligentes, sobre lugares a visitar, meios de transporte, custo de vida e bebidas alcoólicas (!). Estava a par da Costa Verde, que sugeri visitasse.
Após o desembarque no Rio, vimos que o improvável havia acontecido: as malas do nosso grupo chegaram junto conosco apesar da barafunda da conexão! Lamentavelmente, o mesmo não podem dizer os sorteados de algum vôo com destino a Brasília, cujas malas ficaram dando voltas na mesma esteira das nossas, a milhares de quilômetros de onde deviam estar. Eu só peço à Infraero, ou a quem quer que seja, que, por piedade, TIRE O SAXOFONISTA que fica desafinando Tom Jobim, Toquinho e João Gilberto como som ambiente para quem, estressado e cansado, está esperando suas malas aparecerem na esteira. Tá certo que a música é uma profissão difícil, ingrata, mal paga; mas, francamente, ali não é o lugar nem a hora. Ele podia fazer par com seu contraparte que fica na porta do metrô da Carioca; quem sabe um ensina ao outro. Ou não.
Por último, a alfândega. Enquanto eu ficava no free shop, a Receita deglutia um vôo que chegara de Miami logo antes do meu. Quando foi minha vez, mal havia fila, e os fiscais me ignoraram! Ninguém sequer me viu; só entreguei o formulário, nada a declarar (nada mesmo: por dois dólares, fiquei dentro da cota, e livro não paga), e sequer tive que apertar o temido verde/vermelho. Eu olhava em volta, mas nenhum fiscal me via! Portanto... fui.
03 junho 2007
Crise nas múltiplas Terras: as parcerias, volume 2
(As eventuais próclises deste texto são intencionais.)
Para a maioria das pessoas, um passatempo é algo com que se distraírem sem compromisso, algo com que se esvaziar a mente, deixar vagar o pensamento, relaxar. A noção de entretenimento costuma vir associada à de completa ausência de esforço intelectual. Isso é igualmente verdadeiro quando o lazer envolve o consumo de algum objeto cultural (p.ex. televisão).
Normalmente, a leitura de histórias em quadrinhos é um típico exemplo de passatempo. Costuma-se dizer que quadrinhos são uma leitura descartável, sem importância nem conseqüência, em que você não pensa nem se concentra e que, ao final, não retém.
Porém, todo tipo de passatempo (quadrinhos inclusive) tem uma legião de aficionados, de geeks com um interesse especial que realmente entendem daquilo, que gastam seu tempo com aquilo, que se dedicam vorazmente ao tema. O objeto de interesse pode ser uma paixão ou apenas um divertimento, mas o amador leva-o a sério, pesquisa-o, procura informar-se a respeito -- não por qualquer interesse profissional, mas porque esse conhecimento o diverte, propicia-lhe horas de prazer, de relaxamento. O amador esquece-se da vida, perde-se naquilo que o diverte e torna-se especialista no assunto.
Qualquer assunto que se escolha arbitrariamente terá uma comunidade de pessoas interessadas. Assim a literatura, o cinema, os esportes, as motocicletas, a aviação, as artes plásticas, a música, a ficção científica -- uma busca das mais simplórias no Google será pródiga em exemplos.
Os leitores assíduos de quadrinhos sabemos do que estou falando. É para nós que são voltados saites como o Blog dos Quadrinhos, o Omelete e o Universo HQ. Nós, leitores de quadrinhos, podemos tê-los como uma arte sem grandes pretensões, mas, quando os lemos, muitos de nós apreciam a história, os desenhos, os estilos dos roteiristas e desenhistas. Os mais interessados observamos desenhos e diálogos atentos à técnica dos artistas, comparamos Autores e obras, criticamos escolhas, empolgamo-nos com referências e homenagens, refletimos sobre tendências de mercado, sobre repetições e inovações temáticas, rastreamos a evolução de estilos e de personagens, analisamos a profundidade das histórias (ou falta dela).
Tome o meu caso, por exemplo. Quando leio uma história em quadrinhos, a leitura é múltipla, tal como com qualquer outra forma de literatura. Observo a história em seu contexto, relaciono-a com outras, reparo na visão que cada Autor tem dos personagens em que trabalha. As pessoas que me conhecem sabem que, quando me interesso por alguma coisa, procuro saber mais sobre ela. Isso me diverte, me entretém. É assim com a aviação, com Jornada nas Estrelas, com literatura, ficção científica, com todo tema sobre o qual eu sinta a mais passageira curiosidade -- e é assim com quadrinhos, em especial os da DC Comics.
Veja esta situação. Os quadrinhos de super-heróis da Era de Prata (anos 50 e 60) são considerados simples, acríticos, conformando-se à visão de mundo padronizada dos valores tradicionais. Os heróis combatiam os malfeitores, as mulheres não tinham o arrojo que se veria a partir da revolução sexual, e o bem sempre vencia no final. Ninguém morria, os mocinhos eram todos amigos e os crimes eram quase sempre patrimoniais: os vilões estavam sempre furtando algum bem muito valioso. A noção de “justiça” era muito alinhada à do Direito penal mais pedestre: a “injustiça” é o mero cometimento daquilo que é proibido. Os personagens não tinham aquela consciência social nem aquela personalidade distinta que veríamos mais tarde; todos tinham basicamente as mesmas virtudes, boa fé, perspicácia e pró-atividade. Grosso modo, foi só nos anos 70 que começamos a ver o rancor e a paranóia de controle do Batman, a autocobrança e os conflitos de consciência do Super-homem, a perplexidade da Mulher-Maravilha, a insegurança do Flash, a cabeça-durice e rebeldia do Lanterna Verde em face dos Guardiães e o pavio curto do Arqueiro Verde.
Ocorre que faço minha metaleitura até nas obras que menos exigem brainpower. No momento, estou lendo Crisis on Multiple Earths: the Team-Ups, volume 2.

Trata-se de uma compilação de histórias do período de 1965 a 1968. O título é enganoso e parece-me feito para pegar incautos ávidos pelas famosas “crises” da DC, a maioria recente: Crise nas infinitas Terras, Crise de identidade, Crise de consciência, Crise infinita. Na verdade, a referência é distante. O ponto comum entre as histórias -- aliás, não relacionadas entre si -- é a parceria entre personagens, na maioria contrapartes de universos paralelos: Flash da Terra 1 e Flash da Terra 2 (Joel Ciclone nas traduções anteriores às da Panini), Átomo da Terra 1 (“Eléktron” no Brasil) e Átomo da Terra 2, Lanternas Verdes das Terras 1 e 2. A remissão às crises pode estar na referência direta à multiplicidade de universos dentro do universo DC, mas pára aí.
Uma dessas histórias foi originalmente publicada em Green Lantern #45, de junho de 1966.
ATENÇÃO: ABAIXO SEGUEM SPOILERS DESTA HISTÓRIA.
A Princesa Ramia demora a escolher um marido. Pela lei de seu planeta, se essa omissão se prolongar, ela deve unir-se a um marido escolhido pelo Conselho, que elege o Príncipe Perigo, òbviamente rejeitado por ela. Nos últimos dias para o encerramento do prazo, a princesa resolve varrer o universo à cata de um marido aceitável, mas Perigo vai em seu encalço. Ele tenta obrigá-la a segui-lo de volta ao planeta para o casamento. É nesse momento que os Lanternas Verdes intervêm auxiliados por Doiby Dickles, o sidekick do LV da Terra 2. Eles vencem o Príncipe Perigo, e Ramia casa-se com Doiby. Fim.
A história parece privilegiar o livre arbítrio e o direito da princesa de se casar com quem ela quiser. O vilão é representado como alguém que tenta se impor pela força, oprimindo a pobre mocinha, e que termina justamente derrotado. Mas vem cá, não há nada de meio estranho aí, não? Veja só: não foi o príncipe que decidiu casar-se com a princesa, nem foi arbitrário em sua conduta. Quem o escolheu para marido foi a autoridade legalmente constituída para isso, e ele estava meramente no exercício regular de seu direito. Então, quem estava descumprindo a lei era a Princesa Ramia, e os Lanternas Verdes foram partícipes dessa ilegalidade, aliás se intrometendo em assuntos de Estado de um planeta soberano. Essa é a leitura que faço.
No geral, CoME: tTU v. 2 não é grande coisa. Poderia ter dado melhor fim a meu dinheiro se soubesse que era tão sem importância. Eu já havia lido o volume 1, de modo que não fui enganado pelo título, mas esperava um pouco mais de vigor, alguma justificativa para uma eventual importância histórica das edições compiladas. Creio que não haja. De todo modo, agora que a grana está gasta, estou lendo o livro inteiro; afinal, está bem à mão e atende a minha utopia de um dia ler tudo que a DC já publicou. Se bem que, atualmente, a utopia já esteja bastante atenuada, agora que já vi que tanto do material mais antigo tende a ser maçante a meus olhos de século 21. Mas, lendo em ordem tudo que tenho, como estou, mal posso esperar para alcançar 1994 (Zero hora), 1997 (Futuro relâmpago), 1999 (The Kingdom) e 2006 (Crise infinita).
Na caixa: No Angel, de Dido. De novo. Voz docinha, boa para a chuva fria que caiu o dia todo.
Para a maioria das pessoas, um passatempo é algo com que se distraírem sem compromisso, algo com que se esvaziar a mente, deixar vagar o pensamento, relaxar. A noção de entretenimento costuma vir associada à de completa ausência de esforço intelectual. Isso é igualmente verdadeiro quando o lazer envolve o consumo de algum objeto cultural (p.ex. televisão).
Normalmente, a leitura de histórias em quadrinhos é um típico exemplo de passatempo. Costuma-se dizer que quadrinhos são uma leitura descartável, sem importância nem conseqüência, em que você não pensa nem se concentra e que, ao final, não retém.
Porém, todo tipo de passatempo (quadrinhos inclusive) tem uma legião de aficionados, de geeks com um interesse especial que realmente entendem daquilo, que gastam seu tempo com aquilo, que se dedicam vorazmente ao tema. O objeto de interesse pode ser uma paixão ou apenas um divertimento, mas o amador leva-o a sério, pesquisa-o, procura informar-se a respeito -- não por qualquer interesse profissional, mas porque esse conhecimento o diverte, propicia-lhe horas de prazer, de relaxamento. O amador esquece-se da vida, perde-se naquilo que o diverte e torna-se especialista no assunto.
Qualquer assunto que se escolha arbitrariamente terá uma comunidade de pessoas interessadas. Assim a literatura, o cinema, os esportes, as motocicletas, a aviação, as artes plásticas, a música, a ficção científica -- uma busca das mais simplórias no Google será pródiga em exemplos.
Os leitores assíduos de quadrinhos sabemos do que estou falando. É para nós que são voltados saites como o Blog dos Quadrinhos, o Omelete e o Universo HQ. Nós, leitores de quadrinhos, podemos tê-los como uma arte sem grandes pretensões, mas, quando os lemos, muitos de nós apreciam a história, os desenhos, os estilos dos roteiristas e desenhistas. Os mais interessados observamos desenhos e diálogos atentos à técnica dos artistas, comparamos Autores e obras, criticamos escolhas, empolgamo-nos com referências e homenagens, refletimos sobre tendências de mercado, sobre repetições e inovações temáticas, rastreamos a evolução de estilos e de personagens, analisamos a profundidade das histórias (ou falta dela).
Tome o meu caso, por exemplo. Quando leio uma história em quadrinhos, a leitura é múltipla, tal como com qualquer outra forma de literatura. Observo a história em seu contexto, relaciono-a com outras, reparo na visão que cada Autor tem dos personagens em que trabalha. As pessoas que me conhecem sabem que, quando me interesso por alguma coisa, procuro saber mais sobre ela. Isso me diverte, me entretém. É assim com a aviação, com Jornada nas Estrelas, com literatura, ficção científica, com todo tema sobre o qual eu sinta a mais passageira curiosidade -- e é assim com quadrinhos, em especial os da DC Comics.
Veja esta situação. Os quadrinhos de super-heróis da Era de Prata (anos 50 e 60) são considerados simples, acríticos, conformando-se à visão de mundo padronizada dos valores tradicionais. Os heróis combatiam os malfeitores, as mulheres não tinham o arrojo que se veria a partir da revolução sexual, e o bem sempre vencia no final. Ninguém morria, os mocinhos eram todos amigos e os crimes eram quase sempre patrimoniais: os vilões estavam sempre furtando algum bem muito valioso. A noção de “justiça” era muito alinhada à do Direito penal mais pedestre: a “injustiça” é o mero cometimento daquilo que é proibido. Os personagens não tinham aquela consciência social nem aquela personalidade distinta que veríamos mais tarde; todos tinham basicamente as mesmas virtudes, boa fé, perspicácia e pró-atividade. Grosso modo, foi só nos anos 70 que começamos a ver o rancor e a paranóia de controle do Batman, a autocobrança e os conflitos de consciência do Super-homem, a perplexidade da Mulher-Maravilha, a insegurança do Flash, a cabeça-durice e rebeldia do Lanterna Verde em face dos Guardiães e o pavio curto do Arqueiro Verde.
Ocorre que faço minha metaleitura até nas obras que menos exigem brainpower. No momento, estou lendo Crisis on Multiple Earths: the Team-Ups, volume 2.

Trata-se de uma compilação de histórias do período de 1965 a 1968. O título é enganoso e parece-me feito para pegar incautos ávidos pelas famosas “crises” da DC, a maioria recente: Crise nas infinitas Terras, Crise de identidade, Crise de consciência, Crise infinita. Na verdade, a referência é distante. O ponto comum entre as histórias -- aliás, não relacionadas entre si -- é a parceria entre personagens, na maioria contrapartes de universos paralelos: Flash da Terra 1 e Flash da Terra 2 (Joel Ciclone nas traduções anteriores às da Panini), Átomo da Terra 1 (“Eléktron” no Brasil) e Átomo da Terra 2, Lanternas Verdes das Terras 1 e 2. A remissão às crises pode estar na referência direta à multiplicidade de universos dentro do universo DC, mas pára aí.
Uma dessas histórias foi originalmente publicada em Green Lantern #45, de junho de 1966.

ATENÇÃO: ABAIXO SEGUEM SPOILERS DESTA HISTÓRIA.
A Princesa Ramia demora a escolher um marido. Pela lei de seu planeta, se essa omissão se prolongar, ela deve unir-se a um marido escolhido pelo Conselho, que elege o Príncipe Perigo, òbviamente rejeitado por ela. Nos últimos dias para o encerramento do prazo, a princesa resolve varrer o universo à cata de um marido aceitável, mas Perigo vai em seu encalço. Ele tenta obrigá-la a segui-lo de volta ao planeta para o casamento. É nesse momento que os Lanternas Verdes intervêm auxiliados por Doiby Dickles, o sidekick do LV da Terra 2. Eles vencem o Príncipe Perigo, e Ramia casa-se com Doiby. Fim.
A história parece privilegiar o livre arbítrio e o direito da princesa de se casar com quem ela quiser. O vilão é representado como alguém que tenta se impor pela força, oprimindo a pobre mocinha, e que termina justamente derrotado. Mas vem cá, não há nada de meio estranho aí, não? Veja só: não foi o príncipe que decidiu casar-se com a princesa, nem foi arbitrário em sua conduta. Quem o escolheu para marido foi a autoridade legalmente constituída para isso, e ele estava meramente no exercício regular de seu direito. Então, quem estava descumprindo a lei era a Princesa Ramia, e os Lanternas Verdes foram partícipes dessa ilegalidade, aliás se intrometendo em assuntos de Estado de um planeta soberano. Essa é a leitura que faço.
No geral, CoME: tTU v. 2 não é grande coisa. Poderia ter dado melhor fim a meu dinheiro se soubesse que era tão sem importância. Eu já havia lido o volume 1, de modo que não fui enganado pelo título, mas esperava um pouco mais de vigor, alguma justificativa para uma eventual importância histórica das edições compiladas. Creio que não haja. De todo modo, agora que a grana está gasta, estou lendo o livro inteiro; afinal, está bem à mão e atende a minha utopia de um dia ler tudo que a DC já publicou. Se bem que, atualmente, a utopia já esteja bastante atenuada, agora que já vi que tanto do material mais antigo tende a ser maçante a meus olhos de século 21. Mas, lendo em ordem tudo que tenho, como estou, mal posso esperar para alcançar 1994 (Zero hora), 1997 (Futuro relâmpago), 1999 (The Kingdom) e 2006 (Crise infinita).
Na caixa: No Angel, de Dido. De novo. Voz docinha, boa para a chuva fria que caiu o dia todo.
24 maio 2007
22 maio 2007
Ironias matinais
Hoje cedo, a Globonews falava em uma certa greve de alunos da USP: os estudantes teriam ocupado o prédio da reitoria e as Forças da Ordem estariam promovendo reuniões para fazê-los sair. Segundo a notícia, houve uma ordem judicial de desocupação, que o Batalhão de Choque da PMESP estaria ávido por cumprir, mas, mesmo assim, a Polícia, a reitoria e a OAB estariam procurando uma solução diplomática.
A notícia seguinte começava assim: "em Ibiúna, interior de São Paulo, a Polícia prendeu uma quadrilha em uma chácara...".
Não é possível. O editor de notícias da Globonews só pode ser uma pessoa da mais refinada ironia. Será que só eu percebi?
A notícia seguinte começava assim: "em Ibiúna, interior de São Paulo, a Polícia prendeu uma quadrilha em uma chácara...".
Não é possível. O editor de notícias da Globonews só pode ser uma pessoa da mais refinada ironia. Será que só eu percebi?
13 maio 2007
Como convencer a máquina a fazer o que você quer
Conforme relatado anteriormente, compramos um DVD player Panasonic S42. O fabricante foi muito gentil em fazer uma quebra na superfície da frente do aparelho, de modo a tornar visíveis os botões para quem os olha de cima. O problema é que o player veio de fábrica sendo capaz apenas de enxergar discos de região 4 (Brasil) e região all, e a maioria de nossos discos é de região 1 (EUA). Testei um disco de região 1 e nosso S42 realmente não o leu.
Fui pesquisar nos fóruns da Web e descobri que os aparelhos Panasonic são mais difíceis de hackear do que os dos concorrentes. Mas encontrei este excelente saite.
Aparentemente, o que acontece é o seguinte. A Panasonic encontrou um bug nos controladores dos DVD e criou o update 100B435 para corrigi-lo. Um dos colaboradores do saite, que, aliás, parece-me tcheco, teve acesso aos manuais da Panasonic, decriptografou o update, programou nele a capacidade de liberação de regiões, recriptografou-o e disponibilizou-o em seu saite como o upgrade 100B435B para quem tem controladores 100B421. Pôs todos os disclaimers, advertindo ao usuário que atua por sua conta e risco, que um upgrade mal feito resultará em perda da garantia, que pode não funcionar etc.
O saite ensina, passo a passo,
1. como criar e finalizar um CD-R com o upgrade 100B435B, criado pelo saite;
2. como descobrir qual é o controlador do seu DVD;
3. como instalar o upgrade;
4. como, tendo feito essa instalação e dado esta capacidade ao aparelho, finalmente convencê-lo a ler discos de todas as regiões.
Tantos cuidados e clareza inspiraram-me confiança. Fiz o que ele indicou: baixei o upgrade e criei um CD-R; confirmei qual era o controlador (o meu era 100B421, que desconfio há de ser o mesmo de todos os S42); instalei o upgrade; e rebootei o aparelho. Testei: agora, ele mostrava controlador 100B435. Em seguida, obedeci rigorosamente à complexa e esdrúxula seqüência de comandos desconexos do controle remoto que nosso caro tcheco prescreveu -- e, lo and behold, funcionou! Testei com aquele mesmo disco de região 1, e o disco foi reconhecido! Urru!
Créditos onde são devidos, esse tcheco é muito bom. Interessante que
5. o saite tenha sido atualizado neste mesmo mês de maio;
6. muita gente no Brasil já direcione linque para ele.
Isso mostra como as notícias na Web se espalham feito chamas no álcool, como a Rede é dinâmica.
Fui pesquisar nos fóruns da Web e descobri que os aparelhos Panasonic são mais difíceis de hackear do que os dos concorrentes. Mas encontrei este excelente saite.
Aparentemente, o que acontece é o seguinte. A Panasonic encontrou um bug nos controladores dos DVD e criou o update 100B435 para corrigi-lo. Um dos colaboradores do saite, que, aliás, parece-me tcheco, teve acesso aos manuais da Panasonic, decriptografou o update, programou nele a capacidade de liberação de regiões, recriptografou-o e disponibilizou-o em seu saite como o upgrade 100B435B para quem tem controladores 100B421. Pôs todos os disclaimers, advertindo ao usuário que atua por sua conta e risco, que um upgrade mal feito resultará em perda da garantia, que pode não funcionar etc.
O saite ensina, passo a passo,
1. como criar e finalizar um CD-R com o upgrade 100B435B, criado pelo saite;
2. como descobrir qual é o controlador do seu DVD;
3. como instalar o upgrade;
4. como, tendo feito essa instalação e dado esta capacidade ao aparelho, finalmente convencê-lo a ler discos de todas as regiões.
Tantos cuidados e clareza inspiraram-me confiança. Fiz o que ele indicou: baixei o upgrade e criei um CD-R; confirmei qual era o controlador (o meu era 100B421, que desconfio há de ser o mesmo de todos os S42); instalei o upgrade; e rebootei o aparelho. Testei: agora, ele mostrava controlador 100B435. Em seguida, obedeci rigorosamente à complexa e esdrúxula seqüência de comandos desconexos do controle remoto que nosso caro tcheco prescreveu -- e, lo and behold, funcionou! Testei com aquele mesmo disco de região 1, e o disco foi reconhecido! Urru!
Créditos onde são devidos, esse tcheco é muito bom. Interessante que
5. o saite tenha sido atualizado neste mesmo mês de maio;
6. muita gente no Brasil já direcione linque para ele.
Isso mostra como as notícias na Web se espalham feito chamas no álcool, como a Rede é dinâmica.
Deus Ex Machina
Só para manter o controle do que escrevo por aí (pondo uma coleira em minhas criações), taqui a resenha que escrevi (entre outras) para Animal Man: Deus Ex Machina, de Grant Morrison et alii.
09 maio 2007
Olá, Dr Chandra
Recentemente, adquirimos um novo DVD player. Tudo ligado na tomada, apertamos o botão de power e a primeira mensagem que ele manda é "Hello".
Fui só eu que tive arrepios ou vocês também pensaram no Hal? Aquele olho impassível da máquina, pensando um bilhão de vezes mais rápido do que você, permitindo apenas que você especule sobre o quê. Eu ficaria assustado, como fiquei. Porque, não se esqueçam, foi assim que começou, o computador ainda tábula rasa mas com todo o potencial de se tornar aquela criatura do mal, como inevitàvelmente, inexoràvelmente se tornará. É uma estrada sem volta que você sabe muito bem aonde vai dar. Tão inocente quanto uma criança, mas você sabe em que monstro de Frankenstein ele há de se tornar. Algo como Anakin no esquecível Episódio I, mora? Ou como Timothy Hunter, para quem leu Books of Magic, em particular o último capítulo da minissérie.
Fui só eu que tive arrepios ou vocês também pensaram no Hal? Aquele olho impassível da máquina, pensando um bilhão de vezes mais rápido do que você, permitindo apenas que você especule sobre o quê. Eu ficaria assustado, como fiquei. Porque, não se esqueçam, foi assim que começou, o computador ainda tábula rasa mas com todo o potencial de se tornar aquela criatura do mal, como inevitàvelmente, inexoràvelmente se tornará. É uma estrada sem volta que você sabe muito bem aonde vai dar. Tão inocente quanto uma criança, mas você sabe em que monstro de Frankenstein ele há de se tornar. Algo como Anakin no esquecível Episódio I, mora? Ou como Timothy Hunter, para quem leu Books of Magic, em particular o último capítulo da minissérie.
22 abril 2007
Como passei meu feriado de 21 de abril
Ontem, fui comemorar a morte de Tiradentes junto com outras 400k pessoas em Botafogo. Sim, fui assistir à corrida aérea.
O metrô estava entupido na ida. Não tanto quanto nos dias de semana, quando vou trabalhar, mas percebi que a maioria das pessoas ali nunca tinha estado no metrô, o que compõe o problema. Uma molecada insuportável ficava gritando sem parar. Quando alguém tentava entrar, eles berravam "não! Não! Não!..." Muito ruim.
A pista de alta velocidade, que leva ao aterro do Flamengo, estava fechada nos dois sentidos, o que muito nos ajudou, e havia fartura de Polícia Militar, Corpo de Bombeiros e Guarda Municipal. Muita gente desinformada só sabia que ia ter um "evento aéreo", de modo que ficaram na pista interna -- de onde não se consegue ver a água nem os portões por onde os aviões passariam, porque a ciclovia fica a uns dois metros de altura e bloqueia a vista. Minha irmã disse que ainda ouviu alguém dizer que não entendia por que tanta gente olhava em direção à água, "show aéreo é no céu!". Não esta corrida.
Para minha felicidade, a maior parte dos desinformados achou que o evento seria na praia de Botafogo, e ficou perto da extremidade esquerda da praia (para quem olha para a enseada), liberando mais área no lugar de melhor visualização, que eram as pedras em frente ao posto BR, mais à esquerda. Eu escolhera o lugar com base na vista aérea publicada pela revista Freqüência livre, com superposição do circuito à fotografia, e em um reconhecimento de área duas semanas antes.
Quando digo "lugar de melhor visualização", leia-se: melhor entre nós, mortais. Nos edifícios da avenida Rui Barbosa, o povo estava todo nas janelas. À distância, eu também via: no morro do Pasmado, gente na encosta, bem abaixo do mirante; no morro da Urca, assim de gente na beirada; no Botafogo Escada Shopping, cabeçada de gente no terraço.
A apresentação começou com um atraso de apenas uns dez minutos. Pouco antes, percebi dois F-5 de Santa Cruz voando juntos lá atrás do morro da Urca e Pão de Açúcar, bem longe, e comentei, "o que aqueles dois F-5 estão fazendo ali?". Logo depois, os dois vieram juntos, dentre o espaço entre Rio Sul e morro de São João, e deram três rasantes em alta velocidade subsônica. Aquele silêncio na aproximação, sem assobio, e o estrondo. Infelizmente, não foram a supersônico. Também, se fossem, os moradores das circunvizinhanças iam todos aparecer na terça-feira na base aérea, com a nota fiscal do vidraceiro na mão... Litisconsórcio multitudinário...
Dez pilotos participaram da eliminatória. Cada um ficava circulando atrás do morro da Urca e, autorizado, vinha entre esse morro e o Cara de Cão, mergulhando e ganhando velocidade. O início sempre era muito veloz justamente por causa do mergulho inicial e era primeiro silencioso, depois muito barulhento. Do ponto onde eu estava, era o momento mais chamativo. Faziam o circuito duas vezes, o que eu podia ver muito bem exceto pelo meio oito cubano, que eles faziam atrás da árvore à minha direita. Em alguns casos, eu podia ver o ponto mais alto desse quase looping, mas, na maioria das vezes, só os pegava no final do mergulho.
O que mais me impressionou no circuito foi o 360 que cada um fez bem no meio da enseada: uma curva feita na horizontal, com atitude em rolamento de 90 graus. Havia uma pequena perda de altitude, compensada pelo nariz ligeiramente apontado para o alto, mas os caras quase encostavam na água.
Cada piloto, ao terminar o percurso, saía do circuito e fazia uma estripulia personalizada. Alguns fizeram folhas-secas (não sei escrever "lancevaque") bem em cima da gente. Um subiu na vertical até o avião parar e desceu fazendo um tunneau. Dois fizeram seus tunneaux subindo na vertical, outros fizeram-nos bem longos e rápidos na horizontal. Comentários que ouvi durante as apresentações: "esse aí é um ponto zero", "tem que jogar muito videogame pra fazer isso", "esse aí abasteceu com Red Bull". Alguém disse "esse aí tá cheio de uísque", ao que o colega corrigiu, "uísque com Red Bull". -- "Ah, claro". Depois do tunneau mais longo, "esse cara deve tá todo vomitado dentro do cockpit". Os poucos que não fizeram acrobacias nesse final foram vaiados: "uuuuu", "voa nada!", "redbicha!".
Depois das dez seqüências da eliminatória, um piloto fez acrobacias fora do circuito. Parecia ter sido desqualificado na véspera -- do contrário, por que não participava da corrida? Alguém disse ao meu lado, "se esse cara fosse bom mermo, tava competindo". Isso aí.
Depois, uma gaivota passou batendo as asas em baixíssima velocidade, desfilando à nossa frente, bem perto. Foi ovacionada. O pessoal acompanhou e torceu para que ela apanhasse um peixe, e seu mergulho recebeu aplausos.
Depois das 15 horas, houve um longo intervalo durante o qual dois Tucaninhos da Fumaça ficaram enrolando, fazendo nada enquanto circulavam bem alto, atrás e na frente do morro da Urca. Infelizmente, no momento em que eles começaram sua apresentação, tive um contratempo e não pude dar mais atenção às exibições. Mas ainda consegui ver que eram os Tucanos 1 e 2 da Fumaça, como sempre com aquelas luzes acesas nas asas, que dão um atrativo especial. Fiquei sabendo que voaram em espelho e que fizeram uma espécie de tunneau espelhado, um avião de barriga para o outro, girando simultaneamente.
Depois disso vieram as quartas-de-final, as semifinais e a final. Pelo que fiquei sabendo, os caras voaram mais rápido ainda, especialmente na final. Não sei quanto é o limite de aceleração imposto pelos organizadores da prova, mas li na revista que tem aviãozinho ali que agüenta 14g. Só para vocês terem uma idéia, o limite estrutural divulgado dos aviões de combate mais avançados não costuma passar de 12. Vi na televisão que o vencedor ultrapassou 9g.
Para ir embora, tentamos pegar um táxi em frente à Fundação Getúlio Vargas, mas o quê. O trânsito estava um inferno, todos os táxis passavam cheios. Tentamos caminhar até o metrô. Era TANTA gente que ninguém conseguia DESCER A ESCADA, e a segurança havia fechado a entrada da São Clemente igual a porta de boate, só entrava um de cada vez. Embora o evento tenha terminado umas 17 horas, às 19 o trânsito ainda estava uma loicura em Botafogo, Copacabana e até no elevado Paulo de Frontin.
Recomendo. Tenho um ano para conseguir algum amigo que more na Rui Barbosa acima da altura das árvores, que no ano que vem não quero ficar no chão.
O metrô estava entupido na ida. Não tanto quanto nos dias de semana, quando vou trabalhar, mas percebi que a maioria das pessoas ali nunca tinha estado no metrô, o que compõe o problema. Uma molecada insuportável ficava gritando sem parar. Quando alguém tentava entrar, eles berravam "não! Não! Não!..." Muito ruim.
A pista de alta velocidade, que leva ao aterro do Flamengo, estava fechada nos dois sentidos, o que muito nos ajudou, e havia fartura de Polícia Militar, Corpo de Bombeiros e Guarda Municipal. Muita gente desinformada só sabia que ia ter um "evento aéreo", de modo que ficaram na pista interna -- de onde não se consegue ver a água nem os portões por onde os aviões passariam, porque a ciclovia fica a uns dois metros de altura e bloqueia a vista. Minha irmã disse que ainda ouviu alguém dizer que não entendia por que tanta gente olhava em direção à água, "show aéreo é no céu!". Não esta corrida.
Para minha felicidade, a maior parte dos desinformados achou que o evento seria na praia de Botafogo, e ficou perto da extremidade esquerda da praia (para quem olha para a enseada), liberando mais área no lugar de melhor visualização, que eram as pedras em frente ao posto BR, mais à esquerda. Eu escolhera o lugar com base na vista aérea publicada pela revista Freqüência livre, com superposição do circuito à fotografia, e em um reconhecimento de área duas semanas antes.
Quando digo "lugar de melhor visualização", leia-se: melhor entre nós, mortais. Nos edifícios da avenida Rui Barbosa, o povo estava todo nas janelas. À distância, eu também via: no morro do Pasmado, gente na encosta, bem abaixo do mirante; no morro da Urca, assim de gente na beirada; no Botafogo Escada Shopping, cabeçada de gente no terraço.
A apresentação começou com um atraso de apenas uns dez minutos. Pouco antes, percebi dois F-5 de Santa Cruz voando juntos lá atrás do morro da Urca e Pão de Açúcar, bem longe, e comentei, "o que aqueles dois F-5 estão fazendo ali?". Logo depois, os dois vieram juntos, dentre o espaço entre Rio Sul e morro de São João, e deram três rasantes em alta velocidade subsônica. Aquele silêncio na aproximação, sem assobio, e o estrondo. Infelizmente, não foram a supersônico. Também, se fossem, os moradores das circunvizinhanças iam todos aparecer na terça-feira na base aérea, com a nota fiscal do vidraceiro na mão... Litisconsórcio multitudinário...
Dez pilotos participaram da eliminatória. Cada um ficava circulando atrás do morro da Urca e, autorizado, vinha entre esse morro e o Cara de Cão, mergulhando e ganhando velocidade. O início sempre era muito veloz justamente por causa do mergulho inicial e era primeiro silencioso, depois muito barulhento. Do ponto onde eu estava, era o momento mais chamativo. Faziam o circuito duas vezes, o que eu podia ver muito bem exceto pelo meio oito cubano, que eles faziam atrás da árvore à minha direita. Em alguns casos, eu podia ver o ponto mais alto desse quase looping, mas, na maioria das vezes, só os pegava no final do mergulho.
O que mais me impressionou no circuito foi o 360 que cada um fez bem no meio da enseada: uma curva feita na horizontal, com atitude em rolamento de 90 graus. Havia uma pequena perda de altitude, compensada pelo nariz ligeiramente apontado para o alto, mas os caras quase encostavam na água.
Cada piloto, ao terminar o percurso, saía do circuito e fazia uma estripulia personalizada. Alguns fizeram folhas-secas (não sei escrever "lancevaque") bem em cima da gente. Um subiu na vertical até o avião parar e desceu fazendo um tunneau. Dois fizeram seus tunneaux subindo na vertical, outros fizeram-nos bem longos e rápidos na horizontal. Comentários que ouvi durante as apresentações: "esse aí é um ponto zero", "tem que jogar muito videogame pra fazer isso", "esse aí abasteceu com Red Bull". Alguém disse "esse aí tá cheio de uísque", ao que o colega corrigiu, "uísque com Red Bull". -- "Ah, claro". Depois do tunneau mais longo, "esse cara deve tá todo vomitado dentro do cockpit". Os poucos que não fizeram acrobacias nesse final foram vaiados: "uuuuu", "voa nada!", "redbicha!".
Depois das dez seqüências da eliminatória, um piloto fez acrobacias fora do circuito. Parecia ter sido desqualificado na véspera -- do contrário, por que não participava da corrida? Alguém disse ao meu lado, "se esse cara fosse bom mermo, tava competindo". Isso aí.
Depois, uma gaivota passou batendo as asas em baixíssima velocidade, desfilando à nossa frente, bem perto. Foi ovacionada. O pessoal acompanhou e torceu para que ela apanhasse um peixe, e seu mergulho recebeu aplausos.
Depois das 15 horas, houve um longo intervalo durante o qual dois Tucaninhos da Fumaça ficaram enrolando, fazendo nada enquanto circulavam bem alto, atrás e na frente do morro da Urca. Infelizmente, no momento em que eles começaram sua apresentação, tive um contratempo e não pude dar mais atenção às exibições. Mas ainda consegui ver que eram os Tucanos 1 e 2 da Fumaça, como sempre com aquelas luzes acesas nas asas, que dão um atrativo especial. Fiquei sabendo que voaram em espelho e que fizeram uma espécie de tunneau espelhado, um avião de barriga para o outro, girando simultaneamente.
Depois disso vieram as quartas-de-final, as semifinais e a final. Pelo que fiquei sabendo, os caras voaram mais rápido ainda, especialmente na final. Não sei quanto é o limite de aceleração imposto pelos organizadores da prova, mas li na revista que tem aviãozinho ali que agüenta 14g. Só para vocês terem uma idéia, o limite estrutural divulgado dos aviões de combate mais avançados não costuma passar de 12. Vi na televisão que o vencedor ultrapassou 9g.
Para ir embora, tentamos pegar um táxi em frente à Fundação Getúlio Vargas, mas o quê. O trânsito estava um inferno, todos os táxis passavam cheios. Tentamos caminhar até o metrô. Era TANTA gente que ninguém conseguia DESCER A ESCADA, e a segurança havia fechado a entrada da São Clemente igual a porta de boate, só entrava um de cada vez. Embora o evento tenha terminado umas 17 horas, às 19 o trânsito ainda estava uma loicura em Botafogo, Copacabana e até no elevado Paulo de Frontin.
Recomendo. Tenho um ano para conseguir algum amigo que more na Rui Barbosa acima da altura das árvores, que no ano que vem não quero ficar no chão.
18 março 2007
Mais psicologia e mais C.S.I.
E já que a mensagem abaixo trata de C.S.I. e psicologia, tenho outra boa para comentar. Estou bem atrasado em assistir à série. O penúltimo episódio que vi é da sexta temporada e chama-se "Pirates of the Third Reich".
*** ATENÇÃO: VOU CONTAR O FINAL DO EPISÓDIO. VOCÊ FOI AVISADO. ***
Este é o terceiro episódio com Lady Heather, uma personagem sempre muito bem-vinda (todos os episódios com ela são ótimos, particularmente por causa da interação entre ela e Grissom). Na última cena, Lady Heather está chicoteando o culpado quando Grissom a encontra. Em prantos, ela levanta o chicote uma última vez, e Grissom segura-o pela ponta oposta. Vai puxando o chicote para si, prendendo-o enquanto procura convencê-la a parar. Ora, ao fazer isso, ele também está prendendo-a enquanto ela não largar o instrumento.
Mas veja só que interessante representação desses personagens. Os dois têm uma ligação já demonstrada anteriormente na série, sempre em contextos onde violência e sexo se confundem, ambos sob tensão infligida, cada um sobre o outro. Agora, estão materialmente ligados por uma linha tensa, aliás um objeto que traduz uma idéia de violência mas que também costuma ser usado como símbolo sexual. Portanto, a cena é totalmente simbólica.
*** ATENÇÃO: VOU CONTAR O FINAL DO EPISÓDIO. VOCÊ FOI AVISADO. ***
Este é o terceiro episódio com Lady Heather, uma personagem sempre muito bem-vinda (todos os episódios com ela são ótimos, particularmente por causa da interação entre ela e Grissom). Na última cena, Lady Heather está chicoteando o culpado quando Grissom a encontra. Em prantos, ela levanta o chicote uma última vez, e Grissom segura-o pela ponta oposta. Vai puxando o chicote para si, prendendo-o enquanto procura convencê-la a parar. Ora, ao fazer isso, ele também está prendendo-a enquanto ela não largar o instrumento.
Mas veja só que interessante representação desses personagens. Os dois têm uma ligação já demonstrada anteriormente na série, sempre em contextos onde violência e sexo se confundem, ambos sob tensão infligida, cada um sobre o outro. Agora, estão materialmente ligados por uma linha tensa, aliás um objeto que traduz uma idéia de violência mas que também costuma ser usado como símbolo sexual. Portanto, a cena é totalmente simbólica.
Uma tarde com Rorschach
Alguns meses atrás, fiz um teste de Rorschach. Você sabe, aquele com os borrões simétricos: você olha e diz ao psicólogo o que está vendo. Aliás, foi nesse mesmo teste que a piscicóloga disse "largata".
Um dos borrões tinha genitais femininos. Perguntei à psicóloga se, diante de uma obscenidade, eu dizendo que era isso que via, a que isso levaria? e ela respondeu, eu tomaria nota. Bem, sob o risco de ser rotulado de tarado, disse que era isso que estava vendo. Mais tarde, à noite, fui ao Google e encontrei uma página com o gabarito do teste: de acordo com ele, se eu não visse genitais femininos naquela figura, aí eu seria considerado anormal. Da mesma forma a figura onde vi dois ursos fazendo um high five: pelo gabarito (complementado por outra página, cujo URL me foge), eu deveria mesmo ter visto duas figuras gordas (palhaços, na verdade) encontrando-se.
Mas o que vim comentar é outra coisa. Há uma figura onde vi uma das torres de Las Vegas. Isso está influenciado pelo fato de que gosto muito de assistir a C.S.I., e a série sempre começa com uma vista aérea da cidade, seus espigões ao sol, hotéis, obeliscos e miniatura da torre Eiffel assando, o deserto ao fundo. Então, eu vejo uma forma longilínea vertical, eu digo que é uma das torres de Las Vegas. Certo?
Bem, o gabarito diz que aquela porção do desenho é um símbolo fálico e que é isso que uma pessoa normal tem que ver. Bem, foi o que vi, não foi? Torres e obeliscos são símbolos fálicos, são manifestações artísticas com uma noção de pretenderem impor-se, de projetarem-se. O que acontece é que, através do teste, percebi nìtidamente o que não percebera até ali: o quanto Las Vegas está imbuída de uma simbologia que é a própria materialização representativa do sonho americano. Toda aquela idéia de avançar para Oeste, conquistar o terreno, expor ao mundo a pujança, a capacidade e a disposição, toda essa necessidade que os americanos têm de mostrar como são machos alfa, conquistadores valorosos e intrépidos empreendedores. É interessante como um teste psicológico que eu fiz mostra um bocado sobre a psique dos outros.
Um dos borrões tinha genitais femininos. Perguntei à psicóloga se, diante de uma obscenidade, eu dizendo que era isso que via, a que isso levaria? e ela respondeu, eu tomaria nota. Bem, sob o risco de ser rotulado de tarado, disse que era isso que estava vendo. Mais tarde, à noite, fui ao Google e encontrei uma página com o gabarito do teste: de acordo com ele, se eu não visse genitais femininos naquela figura, aí eu seria considerado anormal. Da mesma forma a figura onde vi dois ursos fazendo um high five: pelo gabarito (complementado por outra página, cujo URL me foge), eu deveria mesmo ter visto duas figuras gordas (palhaços, na verdade) encontrando-se.
Mas o que vim comentar é outra coisa. Há uma figura onde vi uma das torres de Las Vegas. Isso está influenciado pelo fato de que gosto muito de assistir a C.S.I., e a série sempre começa com uma vista aérea da cidade, seus espigões ao sol, hotéis, obeliscos e miniatura da torre Eiffel assando, o deserto ao fundo. Então, eu vejo uma forma longilínea vertical, eu digo que é uma das torres de Las Vegas. Certo?
Bem, o gabarito diz que aquela porção do desenho é um símbolo fálico e que é isso que uma pessoa normal tem que ver. Bem, foi o que vi, não foi? Torres e obeliscos são símbolos fálicos, são manifestações artísticas com uma noção de pretenderem impor-se, de projetarem-se. O que acontece é que, através do teste, percebi nìtidamente o que não percebera até ali: o quanto Las Vegas está imbuída de uma simbologia que é a própria materialização representativa do sonho americano. Toda aquela idéia de avançar para Oeste, conquistar o terreno, expor ao mundo a pujança, a capacidade e a disposição, toda essa necessidade que os americanos têm de mostrar como são machos alfa, conquistadores valorosos e intrépidos empreendedores. É interessante como um teste psicológico que eu fiz mostra um bocado sobre a psique dos outros.
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