Agora há pouco, no Fantástico, posso ter visto mal, mas pareceu-me que o Sr Presidente do CREA-RJ, Reynaldo Barros, aparecia opinando sobre construção de puxadinhos. Se não percebi mal, ele falava em estrutura, laje e tubulação.
Só que tem um detalhe. O Sr Presidente do CREA-RJ é engenheiro eletricista.
17 fevereiro 2008
15 fevereiro 2008
Peculiaridades do comércio
1. No Centro do Rio de Janeiro, em frente ao quartel-general da Polícia Militar, existe um boteco, bem no lado oposto da rua Evaristo da Veiga. Chama-se QG da Cachaça.
2. Ontem, tomei um sorvete no Rio Sul. Custava R$ 8,00. Paguei, peguei a nota fiscal e pus no bolso, e saí com meu sorvete. Foi só em casa, à noite, que li a nota:
Item Descrição Quant Preço unit Preço total
001 2 sabores 00001x 7,75 7,75
002 Cop-cas-pazinh 00001x 0,25 0,25
Eu sei que, contando, ninguém acredita, mas é verdade: cobraram o copo e a colher separadamente. Cada um inventa a solução contábil que quer, mas algumas coisas são mesmo incríveis.
Bom, mas, então, é isso, né. Se o preço vem discriminado, então quer dizer que, se eu quisesse, podia levar só o sorvete. Se não podia, então é venda casada, o que é proibido. Fico imaginando a cena: "Não, não, dá aqui o sorvete na minha mão, sem copinho mesmo, que eu só vou pagar R$ 7,75." E iria lambendo o sorvete na mão pelo caminho, deixando tudo pingar pelo chão.
2. Ontem, tomei um sorvete no Rio Sul. Custava R$ 8,00. Paguei, peguei a nota fiscal e pus no bolso, e saí com meu sorvete. Foi só em casa, à noite, que li a nota:
Item Descrição Quant Preço unit Preço total
001 2 sabores 00001x 7,75 7,75
002 Cop-cas-pazinh 00001x 0,25 0,25
Eu sei que, contando, ninguém acredita, mas é verdade: cobraram o copo e a colher separadamente. Cada um inventa a solução contábil que quer, mas algumas coisas são mesmo incríveis.
Bom, mas, então, é isso, né. Se o preço vem discriminado, então quer dizer que, se eu quisesse, podia levar só o sorvete. Se não podia, então é venda casada, o que é proibido. Fico imaginando a cena: "Não, não, dá aqui o sorvete na minha mão, sem copinho mesmo, que eu só vou pagar R$ 7,75." E iria lambendo o sorvete na mão pelo caminho, deixando tudo pingar pelo chão.
12 fevereiro 2008
Estrangeirismos
1. Ontem, no Centro do Rio de Janeiro, no cruzamento de rua São José com avenida Rio Branco, em plena hora do almoço, ouvi uma gaita de fole. Pois era isso mesmo: um sujeito, trajando bermuda e camiseta, tocava o tema de Superman em uma gaita de fole autêntica.
2. Eu abtholutamente detethto aquelath pethoath que thó falam oth étheth chapando a frente da língua no théu da boca.
2. Eu abtholutamente detethto aquelath pethoath que thó falam oth étheth chapando a frente da língua no théu da boca.
05 fevereiro 2008
... E às vezes ele acordava no meio da madrugada,
o quarto escuro a sua volta, angustiado, claustrofòbicamente oprimido pela compressão das paredes. E sentia um aperto sobre o peito e o medo da morte e não conseguia gritar, e queria acordar do pesadelo mas não podia porque já estava acordado. Essa era a realidade, finita diante do infinito, e seus dias se aproximavam do fim a cada segundo que passava, e nada havia realizado. Nem mesmo sua pequena esposa, dormindo a seu lado, poderia compreender a angústia. Acordando, poderia confortá-lo e poderia compadecer-se em solidariedade, e sua voz, tão doce, poderia tranqüilizá-lo ao fazê-lo sentir que não estava sòzinho, mas não poderia afastar o desespero.
Acrescentado cerca de duas horas depois:
Existe premonição ao contrário? Eu tinha acabado de escrever isso quando me deparei com esta notícia. Verifique a parte que vem depois dos asteriscos.
Acrescentado cerca de duas horas depois:
Existe premonição ao contrário? Eu tinha acabado de escrever isso quando me deparei com esta notícia. Verifique a parte que vem depois dos asteriscos.
29 janeiro 2008
A incrível materialização súbita dos eletrodomésticos
No último sábado, estive em uma loja de uma grande cadeia que vende eletrodomésticos. Olhei alguns modelos de máquinas de lavar roupa e chamei a vendedora. O diálogo abaixo realmente aconteceu.
-- Aqueles preços ali incluem frete?
-- Não.
-- Então, quanto é o frete?
-- ! (Com cara de espanto e um pouco ofendida:) Não custa nada, é de graça! O (nome da loja) faz questão de entregar o produto no local!
Fico pensando. O preço não inclui frete, e o frete é de graça. Será mesmo possível? A vendedora parece acreditar que um caminhão mágico milagroso sùbitamente aparece e entrega a máquina a custo zero. A loja chama, o Papai Noel vem, põe no trenó e aparece na porta da sua casa, com a pranchetinha, pedindo para você assinar aqui.
Melhor do que isso, só mesmo a vergonha que presenciei em Aracaju na noite de 21/01/2008. No saguão do hotel Ibis, um sujeito de terno discursava para meia dúzia de vítimas em volta da mesa. Ele contava das perspectivas para quem aderisse ao negócio que estava propondo: você paga a mensalidade. Aí, em uma semana, você tem que chamar mais duas pessoas. Cada uma delas, por sua vez, paga para você e chama outras duas. E cada uma outras duas. E assim por diante, até que, por meio de outra matemática milagrosa, em cinco semanas você está ganhando mais de nove mil reais. Aí, conforme seu resultado, você vai sendo promovido a supervisor, ou a membro ouro, diamante, sei lá. E ganha um fim de semana num resorte à beira-mar.
Na verdade, considero o golpe muito justo, porque explora a ganância: a vítima não é nada inocente. Mas é mesmo engraçado como ninguém pensa um minuto. Para um negócio desses se manter, o cara tem que consistentemente encontrar novas vítimas toda semana, fazendo potências de dois até que, pelos meus cálculos grosseiros, em menos de sete meses TODA a população do Brasil (cada velho, homem, mulher, criança e molambo) estará pagando a mensalidade do cara. Parece aquela história da recompensa do cara que inventou o xadrez, a ser paga em grãos de trigo. Por menos do que isso, a Albânia quase faliu nos anos 90: um terço do país entrou em um esquema de pirâmide e perdeu tudo.
-- Aqueles preços ali incluem frete?
-- Não.
-- Então, quanto é o frete?
-- ! (Com cara de espanto e um pouco ofendida:) Não custa nada, é de graça! O (nome da loja) faz questão de entregar o produto no local!
Fico pensando. O preço não inclui frete, e o frete é de graça. Será mesmo possível? A vendedora parece acreditar que um caminhão mágico milagroso sùbitamente aparece e entrega a máquina a custo zero. A loja chama, o Papai Noel vem, põe no trenó e aparece na porta da sua casa, com a pranchetinha, pedindo para você assinar aqui.
Melhor do que isso, só mesmo a vergonha que presenciei em Aracaju na noite de 21/01/2008. No saguão do hotel Ibis, um sujeito de terno discursava para meia dúzia de vítimas em volta da mesa. Ele contava das perspectivas para quem aderisse ao negócio que estava propondo: você paga a mensalidade. Aí, em uma semana, você tem que chamar mais duas pessoas. Cada uma delas, por sua vez, paga para você e chama outras duas. E cada uma outras duas. E assim por diante, até que, por meio de outra matemática milagrosa, em cinco semanas você está ganhando mais de nove mil reais. Aí, conforme seu resultado, você vai sendo promovido a supervisor, ou a membro ouro, diamante, sei lá. E ganha um fim de semana num resorte à beira-mar.
Na verdade, considero o golpe muito justo, porque explora a ganância: a vítima não é nada inocente. Mas é mesmo engraçado como ninguém pensa um minuto. Para um negócio desses se manter, o cara tem que consistentemente encontrar novas vítimas toda semana, fazendo potências de dois até que, pelos meus cálculos grosseiros, em menos de sete meses TODA a população do Brasil (cada velho, homem, mulher, criança e molambo) estará pagando a mensalidade do cara. Parece aquela história da recompensa do cara que inventou o xadrez, a ser paga em grãos de trigo. Por menos do que isso, a Albânia quase faliu nos anos 90: um terço do país entrou em um esquema de pirâmide e perdeu tudo.
25 janeiro 2008
Ases na Carioca
É engraçado como, às vezes, seu passado volta inesperadamente.
Quando eu estava na escola, freqüentava a biblioteca intensamente. Li vários livros emprestados, outros lá mesmo. Um dos primeiros que li foi o que mais me marcou e o de que mais gostei: Ases da guerra aérea, de Edward Sims, publicado pela editora Record no final dos anos 60. São doze narrativas de combates aéreos vividos por pilotos de caça na II Guerra Mundial. As descrições são envolventes e detalhadas, as narrações são feitas com os verbos no presente, e todo o estilo do Autor leva o leitor a se sentir pràticamente dentro dos cockpits. Toda a percepção dos pilotos, seu raciocínio e suas emoções, tudo isso é transmitido de modo a fazer com que o leitor sinta que é ele que está vivendo tudo aquilo. Foi um dos livros que mais me absorveram até hoje, e devorei-o em poucos dias.
Vários anos depois, atentei para algo que me fugira: o tradutor de Ases da guerra aérea foi Ronaldo Sérgio de Biasi, que é pesquisador de Ciência dos Materiais e foi (ou ainda é, não sei) decano do Instituto Militar de Engenharia e editor da versão brasileira da Isaac Asimov Magazine no início dos anos 90. De Biasi também traduziu inúmeras obras de Asimov para a Record e é um grande conhecedor daquele profícuo Autor de ficção científica.
Agora há pouco, eu voltava do almoço pelo caminho que liga a avenida Rio Branco à estação de metrô da Carioca quando parei em uma das várias bancas de livros usados que ficam naquela calçada. Qual não foi minha surpresa quando me vi diante de American Aces, de Edward Sims, publicado originalmente em 1958. Nesta edição mais recente, de bolso, da Ballantine, a capa mostra um P-38 em primeiro plano e, indefectivelmente, um avião japonês em chamas ao fundo.
Peguei para folhear as páginas amarelas, que já se soltavam da lombada onde a cola estava seca pelo tempo. Lá estavam exatamente os doze capítulos de que me lembrava, começando com um piloto de P-40 sobre a China, passando pela emboscada sobre a Nova Guiné com o P-38 da capa e terminando com um P-51 a contribuir para a derrocada da Luftwaffe. As figuras originais também estavam presentes, esquematizando as evoluções dos protagonistas no ar de forma a facilitar o entendimento do leitor.
Por alguns momentos, fui transportado de volta àquele final dos anos 80, à cabine de comando daquelas aeronaves e à contínua viração de páginas que me trouxe excelentes horas de lazer quase vinte anos atrás. É curioso como você não esquece certas coisas dos livros que lê.
Quando eu estava na escola, freqüentava a biblioteca intensamente. Li vários livros emprestados, outros lá mesmo. Um dos primeiros que li foi o que mais me marcou e o de que mais gostei: Ases da guerra aérea, de Edward Sims, publicado pela editora Record no final dos anos 60. São doze narrativas de combates aéreos vividos por pilotos de caça na II Guerra Mundial. As descrições são envolventes e detalhadas, as narrações são feitas com os verbos no presente, e todo o estilo do Autor leva o leitor a se sentir pràticamente dentro dos cockpits. Toda a percepção dos pilotos, seu raciocínio e suas emoções, tudo isso é transmitido de modo a fazer com que o leitor sinta que é ele que está vivendo tudo aquilo. Foi um dos livros que mais me absorveram até hoje, e devorei-o em poucos dias.
Vários anos depois, atentei para algo que me fugira: o tradutor de Ases da guerra aérea foi Ronaldo Sérgio de Biasi, que é pesquisador de Ciência dos Materiais e foi (ou ainda é, não sei) decano do Instituto Militar de Engenharia e editor da versão brasileira da Isaac Asimov Magazine no início dos anos 90. De Biasi também traduziu inúmeras obras de Asimov para a Record e é um grande conhecedor daquele profícuo Autor de ficção científica.
Agora há pouco, eu voltava do almoço pelo caminho que liga a avenida Rio Branco à estação de metrô da Carioca quando parei em uma das várias bancas de livros usados que ficam naquela calçada. Qual não foi minha surpresa quando me vi diante de American Aces, de Edward Sims, publicado originalmente em 1958. Nesta edição mais recente, de bolso, da Ballantine, a capa mostra um P-38 em primeiro plano e, indefectivelmente, um avião japonês em chamas ao fundo.
Peguei para folhear as páginas amarelas, que já se soltavam da lombada onde a cola estava seca pelo tempo. Lá estavam exatamente os doze capítulos de que me lembrava, começando com um piloto de P-40 sobre a China, passando pela emboscada sobre a Nova Guiné com o P-38 da capa e terminando com um P-51 a contribuir para a derrocada da Luftwaffe. As figuras originais também estavam presentes, esquematizando as evoluções dos protagonistas no ar de forma a facilitar o entendimento do leitor.
Por alguns momentos, fui transportado de volta àquele final dos anos 80, à cabine de comando daquelas aeronaves e à contínua viração de páginas que me trouxe excelentes horas de lazer quase vinte anos atrás. É curioso como você não esquece certas coisas dos livros que lê.
03 janeiro 2008
Se eu tivesse um dia para viver, eu lhe diria isto
Você sabe o turbilhão que é conduzir uma vida moderna de classe média. Empregos, prazos, contas a pagar, aplicações financeiras, compromissos, escola dos filhos, médico, reunião de condomínio. Gastamos tempo demais em tarefas minúsculas, cada uma das quais não tem a menor importância.
Então, de vez em quando, você lê algum poema, ou a carta final de alguém que está morrendo de câncer, ou aqueles conselhos atribuídos a Jorge Luis Borges. São unânimes: sempre dizem que leriam menos email, que telefonariam menos para o gerente do banco, que se preocupariam menos com prazos e com as notas na escola.
É claro que eu não faria nenhuma dessas coisas se soubesse que fosse morrer, digamos, amanhã. Só que há um detalhe que esses textos omitem: se você realmente fosse levar sua vida como sugerem, ela logo se transformaria em um pequeno inferno. Se você não escovar os dentes todos os dias, terá cáries e sofrerá dores. Se você não fizer seu orçamento mensal, pode gastar mais do que pode, seu dinheiro vai acabar e você não vai poder fazer aquela viagem dos sonhos. Se você não se preocupar com seu desempenho acadêmico, não vai se qualificar, sua vida terá mais obstáculos e você não vai conseguir conforto na vida nem fazer o de que gosta. Se você não prestar atenção ao que come, vai enfartar ou ter um derrame, e sua vida vai ser bem mais curta e menos feliz. Se você não for votar, não vai conseguir passaporte para visitar sua família na Europa.
Olho para trás e percebo: tudo que tenho de bom na vida decorreu de esforço e raciocínio. Tudo veio de escolhas deliberadas e da insistência em determinados cuidados: pesquisa demorada, noites sem dormir, cumprimento de prazos, segurança da informação (tanto sua guarda para não perder quanto seu sigilo), atenção aos detalhes e disciplina.
Para aquelas pessoas darem aqueles conselhos, é que já viveram o suficiente para apreciar os erros e acertos de seus atos. Mesmo assim, não perceberam que a extensão de suas vidas, a instrução que tiveram para aproveitá-las e o conforto que tiveram, tudo isso decorreu dos cuidados que, sim, são desagradáveis, mas são necessários. A crítica só é possível porque praticaram aquilo que criticam. Não chego ao ponto de dizer que sejam hipócritas (para isso, seria preciso terem má fé, o que não vejo), mas talvez estejam sendo inconseqüentes.
Então, de vez em quando, você lê algum poema, ou a carta final de alguém que está morrendo de câncer, ou aqueles conselhos atribuídos a Jorge Luis Borges. São unânimes: sempre dizem que leriam menos email, que telefonariam menos para o gerente do banco, que se preocupariam menos com prazos e com as notas na escola.
É claro que eu não faria nenhuma dessas coisas se soubesse que fosse morrer, digamos, amanhã. Só que há um detalhe que esses textos omitem: se você realmente fosse levar sua vida como sugerem, ela logo se transformaria em um pequeno inferno. Se você não escovar os dentes todos os dias, terá cáries e sofrerá dores. Se você não fizer seu orçamento mensal, pode gastar mais do que pode, seu dinheiro vai acabar e você não vai poder fazer aquela viagem dos sonhos. Se você não se preocupar com seu desempenho acadêmico, não vai se qualificar, sua vida terá mais obstáculos e você não vai conseguir conforto na vida nem fazer o de que gosta. Se você não prestar atenção ao que come, vai enfartar ou ter um derrame, e sua vida vai ser bem mais curta e menos feliz. Se você não for votar, não vai conseguir passaporte para visitar sua família na Europa.
Olho para trás e percebo: tudo que tenho de bom na vida decorreu de esforço e raciocínio. Tudo veio de escolhas deliberadas e da insistência em determinados cuidados: pesquisa demorada, noites sem dormir, cumprimento de prazos, segurança da informação (tanto sua guarda para não perder quanto seu sigilo), atenção aos detalhes e disciplina.
Para aquelas pessoas darem aqueles conselhos, é que já viveram o suficiente para apreciar os erros e acertos de seus atos. Mesmo assim, não perceberam que a extensão de suas vidas, a instrução que tiveram para aproveitá-las e o conforto que tiveram, tudo isso decorreu dos cuidados que, sim, são desagradáveis, mas são necessários. A crítica só é possível porque praticaram aquilo que criticam. Não chego ao ponto de dizer que sejam hipócritas (para isso, seria preciso terem má fé, o que não vejo), mas talvez estejam sendo inconseqüentes.
26 dezembro 2007
As primeiras histórias do homem que avoa

Prosseguindo na realização da utopia, estou lendo Superman: crônicas: volume um, na mesma linha do então já comentado Batman: crônicas. São as quinze primeiras histórias do Super-homem, em ordem cronológica, todas de 1938-1939.
Ali se vê que Clarque Quente já usava cueca para fora da calça, embora não voasse (só saltasse bem alto e longe) e, às vezes, usasse disfarces para se passar por outrem.
A maioria das histórias não tinha nome quando originalmente lançadas. Uma delas é a de Action Comics #5 (outubro de 1938), que foi denominada "The Big Scoop" ("O Grande Furo de Reportagem") ao ser reproduzida em Superman Archives vol. 1 e "Superman and the Dam" ("Super-homem e a represa") neste Chronicles. Esta história mostra o kryptoniano desentortando uma ponte ferroviária para o trem não descarrilar e, em seguida, segurando uma barragem para que a inundação não atinja uma cidade próxima. Quando ele não consegue conter a fúria devastadora das águas, o carro de Lois Lane (que estava indo justamente cobrir esse evento) é atingido e submerso, e ela fica inconsciente dentro da bolha de ar. Nosso herói chega a tempo de resgatá-la até a superfície e desviar o curso da torrente, evitando danos maiores.
Você notou a semelhança? Com algumas adaptações, esses acontecimentos fazem parte do clímax de Superman: o filme, de 1978. As diferenças foram (1) que SH deitou sobre um intervalo nos trilhos da ponte para que o trem passasse por cima dele e não saísse da linha e (2) que o carro da mocinha foi colhido por uma fenda aberta por um terremoto, em vez de pela água. De resto é igual.
Ali se vê que Clarque Quente já usava cueca para fora da calça, embora não voasse (só saltasse bem alto e longe) e, às vezes, usasse disfarces para se passar por outrem.
A maioria das histórias não tinha nome quando originalmente lançadas. Uma delas é a de Action Comics #5 (outubro de 1938), que foi denominada "The Big Scoop" ("O Grande Furo de Reportagem") ao ser reproduzida em Superman Archives vol. 1 e "Superman and the Dam" ("Super-homem e a represa") neste Chronicles. Esta história mostra o kryptoniano desentortando uma ponte ferroviária para o trem não descarrilar e, em seguida, segurando uma barragem para que a inundação não atinja uma cidade próxima. Quando ele não consegue conter a fúria devastadora das águas, o carro de Lois Lane (que estava indo justamente cobrir esse evento) é atingido e submerso, e ela fica inconsciente dentro da bolha de ar. Nosso herói chega a tempo de resgatá-la até a superfície e desviar o curso da torrente, evitando danos maiores.
Você notou a semelhança? Com algumas adaptações, esses acontecimentos fazem parte do clímax de Superman: o filme, de 1978. As diferenças foram (1) que SH deitou sobre um intervalo nos trilhos da ponte para que o trem passasse por cima dele e não saísse da linha e (2) que o carro da mocinha foi colhido por uma fenda aberta por um terremoto, em vez de pela água. De resto é igual.
24 dezembro 2007
Perdi a razão de viver
No Brasil, os quadrinhos da DC Comics são publicados da seguinte forma: cada edição original americana é traduzida junto com duas ou três outras e essas três ou quatro são publicadas em uma só edição brasileira. Assim, por exemplo, Superman/Batman #31 (jan/2007), Aquaman #45 (nov/2006), Green Arrow #66 (nov/2006) e Green Lantern Corps #5 (dez/2006) saem juntas em Superman & Batman no. 29 (nov/2007) no Brasil.
Faz alguns anos que venho sonhando em fazer uma gigantesca base de dados que relacione as edições brasileiras às americanas e vice-versa. Assim, cada entrada para uma edição brasileira mostraria quais as revistas originais que a compõem, e cada americana teria mencionada de qual edição brasileira faz parte. Isso sem falar no detalhamento de título da história, escritor, editor, desenhista e colorista etc.
Alguns websites fazem um excelente trabalho nesse sentido. Um dos melhores que vi até agora foi o Inutiologia, de Lucio Luiz. Já eu, modéstia à parte, orgulho-me de minha tabela com mais de 3800 linhas (e crescendo) que relaciona o conteúdo de todos os quadrinhos que tenho, com meses originais de publicação e seus correspondentes no Brasil. Uma tremenda ferramenta, que começou em Word e logo migrou para Excel, sempre com o propósito único de me permitir ler tudo na ordem (dentro da utopia que já comentei aqui).
Agora, é o seguinte. Encontrei dois saites. Um tem toda a informação que você procura sobre as edições originais: reprodução da capa, semana exata de publicação, e título e equipe criativa de cada história. Chama-se Mike's Amazing World of DC Comics e merece o nome.
O outro saite é brasileiro e faz exatamente o que eu tanto queria fazer. E eu crente que era o primeiro a pensar nisso. Bem, pelo menos eles encararam a tarefa, e devo dizer que com ótimo resultado (já foi útil à minha tabela ao me expor o conteúdo de Superman no. 1 da EBAL, de 1947). Chama-se Guia dos Quadrinhos e acaba de tornar minha vida inútil. Preciso urgentemente de uma nova razão de viver.
(Não estou me queixando. Na verdade, eu queria que alguém fizesse aquilo que não tenho tempo de fazer, porque a idéia é valiosa demais para permanecer não executada.)
Faz alguns anos que venho sonhando em fazer uma gigantesca base de dados que relacione as edições brasileiras às americanas e vice-versa. Assim, cada entrada para uma edição brasileira mostraria quais as revistas originais que a compõem, e cada americana teria mencionada de qual edição brasileira faz parte. Isso sem falar no detalhamento de título da história, escritor, editor, desenhista e colorista etc.
Alguns websites fazem um excelente trabalho nesse sentido. Um dos melhores que vi até agora foi o Inutiologia, de Lucio Luiz. Já eu, modéstia à parte, orgulho-me de minha tabela com mais de 3800 linhas (e crescendo) que relaciona o conteúdo de todos os quadrinhos que tenho, com meses originais de publicação e seus correspondentes no Brasil. Uma tremenda ferramenta, que começou em Word e logo migrou para Excel, sempre com o propósito único de me permitir ler tudo na ordem (dentro da utopia que já comentei aqui).
Agora, é o seguinte. Encontrei dois saites. Um tem toda a informação que você procura sobre as edições originais: reprodução da capa, semana exata de publicação, e título e equipe criativa de cada história. Chama-se Mike's Amazing World of DC Comics e merece o nome.
O outro saite é brasileiro e faz exatamente o que eu tanto queria fazer. E eu crente que era o primeiro a pensar nisso. Bem, pelo menos eles encararam a tarefa, e devo dizer que com ótimo resultado (já foi útil à minha tabela ao me expor o conteúdo de Superman no. 1 da EBAL, de 1947). Chama-se Guia dos Quadrinhos e acaba de tornar minha vida inútil. Preciso urgentemente de uma nova razão de viver.
(Não estou me queixando. Na verdade, eu queria que alguém fizesse aquilo que não tenho tempo de fazer, porque a idéia é valiosa demais para permanecer não executada.)
21 dezembro 2007
Você entuba
O YouTube realmente é uma tremenda máquina de marketing viral. Uma pessoa indica um vídeo a outra, que indica a outra, e em poucos dias milhares já assistiram. Hoje, indico cinco vídeos para você.
1. Dambusters à la Star Wars
Um dos episódios bastante documentados e conhecidos da II Guerra Mundial foi o ataque às represas do Ruhr. O Engenheiro Barnes Wallis, idolatrado pelos ingleses, concebeu uma bomba que seria capaz de destruir os paredões de concreto dessas represas alemãs, desse modo interrompendo o fornecimento de energia hidrelétrica das aciarias e fábricas da região. A Real Força Aérea criou o Esquadrão 617 “Dambusters” especialmente para essa missão, adaptando vários bombardeiros Lancaster Mk I e incumbindo Guy Gibson do comando dessa tarefa secreta, arriscada e considerada importante.
Um dos inconvenientes da bomba é que, para um lançamento de sucesso, a aeronave tinha que vir voando baixo e reto sobre a represa e sob o fogo da antiaérea. O ponto de liberação tinha que ser exato e podia ser encontrado pelo bombardeador através de uma mira rudimentar e de um par de holofotes, apontados da barriga do avião para a água, que, se formassem o desenho de um oito, indicavam a altura correta.
A missão foi um sucesso e levou à criação do filme The Dam Busters, que, em 1954, pretendeu reproduzir os eventos com a maior fidelidade possível. O filme é um clássico de guerra. Na semana passada, descobri que foi no clímax do filme que Jorge Lucas se baseou para criar a igualmente clássica cena do ataque rebelde à Estrela da Morte no primeiro Star Wars. Ao que consta, até os diálogos são iguais, e isso explica por que um X-wing tinha que vir de cada vez e demorar a fazer pontaria para dar seu único tiro.
A propósito, The Dam Busters é o filme em preto e branco a que o personagem Pink Floyd está assistindo ao longo de The Wall, de 1982.
Então, juntando as cenas do filme original com a trilha de som de Star Wars, um fã criou isto.
2. Outro criou isto.
3. Star Trekking Across the Universe -- esse vídeo era muito popular no início dos anos 90, mas assista por sua conta e risco.
4. Aqui, o que acontece quando a Enterprise-D enfrenta a mesma Estrela da Morte.
5. E, por último, Jesus Christ -- the Musical.
1. Dambusters à la Star Wars
Um dos episódios bastante documentados e conhecidos da II Guerra Mundial foi o ataque às represas do Ruhr. O Engenheiro Barnes Wallis, idolatrado pelos ingleses, concebeu uma bomba que seria capaz de destruir os paredões de concreto dessas represas alemãs, desse modo interrompendo o fornecimento de energia hidrelétrica das aciarias e fábricas da região. A Real Força Aérea criou o Esquadrão 617 “Dambusters” especialmente para essa missão, adaptando vários bombardeiros Lancaster Mk I e incumbindo Guy Gibson do comando dessa tarefa secreta, arriscada e considerada importante.
Um dos inconvenientes da bomba é que, para um lançamento de sucesso, a aeronave tinha que vir voando baixo e reto sobre a represa e sob o fogo da antiaérea. O ponto de liberação tinha que ser exato e podia ser encontrado pelo bombardeador através de uma mira rudimentar e de um par de holofotes, apontados da barriga do avião para a água, que, se formassem o desenho de um oito, indicavam a altura correta.
A missão foi um sucesso e levou à criação do filme The Dam Busters, que, em 1954, pretendeu reproduzir os eventos com a maior fidelidade possível. O filme é um clássico de guerra. Na semana passada, descobri que foi no clímax do filme que Jorge Lucas se baseou para criar a igualmente clássica cena do ataque rebelde à Estrela da Morte no primeiro Star Wars. Ao que consta, até os diálogos são iguais, e isso explica por que um X-wing tinha que vir de cada vez e demorar a fazer pontaria para dar seu único tiro.
A propósito, The Dam Busters é o filme em preto e branco a que o personagem Pink Floyd está assistindo ao longo de The Wall, de 1982.
Então, juntando as cenas do filme original com a trilha de som de Star Wars, um fã criou isto.
2. Outro criou isto.
3. Star Trekking Across the Universe -- esse vídeo era muito popular no início dos anos 90, mas assista por sua conta e risco.
4. Aqui, o que acontece quando a Enterprise-D enfrenta a mesma Estrela da Morte.
5. E, por último, Jesus Christ -- the Musical.
Os vários usos da salinha do café
Acabei de voltar do almoço e fui me servir do cafèzinho. Pois foi assim que descobri que a faxineira se esconde na salinha do café. Tava lá, sentada, olhando p'ra parede.
Biografia do Sr Atoz: dos sete aos treze
Quando eu era mais miúdo, meu principal passatempo era a leitura. Na verdade, ainda é, mas estamos falando do período em que eu estava no primeiro grau, hoje dito “ensino fundamental”. Naquele tempo, eu tinha dezenas de livros, depois promovidas a centenas.
Às vezes eu ia brincar na casa dos amigos, ou ia a festas de aniversário -- vocês conhecem o esquema. Acontece que eu estudava em um colégio onde todos os garotos provinham de famílias mais ricas do que a minha. Então, ao entrar na casa deles, eu via uma enorme oportunidade: se eu tinha tantos livros, e se os pais deles eram tão mais ricos do que o meu, eu imaginava que eles tivessem inúmeros livros, todos enormes, ilustrados, sobre todo tipo de assunto, quiçá em outras línguas. Livros importados, caríssimos, livros que meu pai não podia pagar e que eu, compreensivo, nem lhe pedia, mas cobiçava nas livrarias. Eu tinha que explorar essas bibliotecas domésticas, absorver quanto pudesse, admirar e apreciar. Para mim, essa era a parte mais valiosa das visitas, muito mais do que os carrinhos ou o vidiuguêime. Por isso, eu sempre pedia para ver os livros deles.
Meus anfitriões sempre tinham a mesma reação. Primeiro, estranhavam: “livros?” Depois, querendo receber-me tão bem, faziam o melhor que podiam: levavam-me até seu quarto, onde, sobre uma prateleira no canto, eu encontrava exatamente os mesmos livros que já conhecia da escola. Os mesmos livros de Português e Matemática, os mesmos paradidáticos daquele ano. Com sorte, os do ano anterior ainda estavam lá, e um ou dois que a escola não tivesse exigido mas que, muitas vezes, eu também tinha. Naturalmente, meus colegas ficavam intrigados: por que eu quereria ver os livros deles, se os meus eram os mesmos?
Não menos naturalmente, eu ficava decepcionado e perplexo. Como criança tem pouco tato, perguntava, só esses? A isso, vários respondiam ainda mais intrigados mas com a mesma boa vontade: coçavam a cabeça, meio perdidos, e comentavam, “é... eu acho que o meu pai tem uns livros aí”. Muitas vezes, os apartamentos tinham uma pequena biblioteca, aonde me levavam: sisudos livros de Medicina ou Direito e coleções de clássicos da Literatura. Em outras ocasiões, levavam-me ao quarto de empregada, onde uma prateleira, fora de alcance, abrigava empoeiradas enciclopédias de capa monótona no lugar mais distante da luz possível. Ou onde os livros estavam disciplinadamente arrumados em caixas de papelão, prontos para a próxima mudança da família.
Isso me dava uma frustração danada. E também me intrigava muito: como podiam não ter livros? Era só isso mesmo? Será que não estavam escondendo nada de mim, julgando que eu fosse destruir seus pertences? Mas eu tratava os livros alheios como relíquias de culto, jamais seria capaz de profaná-los...
Além disso, os livros de meus colegas estavam sempre em perfeito estado. As bordas não tinham qualquer amassado, as capas nenhum risco, os cantos das páginas não estavam virados pelo uso. Você poderia jurar que os livros estavam tão intocados como se estivessem na livraria, a ponto de as folhas ainda guardarem aquela compactação que só é possível quando nunca foram abertas. Quando eu abria os livros colados, as lombadas chegavam a estalar, indicando que eu era o primeiro leitor a desvirginá-los, o que me dava o ambíguo sentimento de estar invadindo território alheio, ainda que com permissão.
Já os meus livros, você pode imaginar, eram o oposto disso: amassados, com as pontas viradas para cima, as lombadas cheias daquelas rugas de abertura freqüente, com ocasionais manchas de meus dedos sujos de caramelo. Aviões de guerra número 34 ainda tem a mancha de meu sangue deixada por um mosquito infeliz, colhido por distração minha. Então, eu ficava me sentindo culpado, achando que não tratava meus livros tão bem quanto meus colegas. Pois veja -- dizia-me --, veja como conseguem ler todos e ainda guardá-los tão bem a ponto de as folhas se colarem novamente.
Mal sabia eu, não é mesmo? Foi só após a maioridade que me dei conta da verdade, ao me deparar com pessoas normais e descobrir que ninguém sabia *nada* sobre os romanos e egípcios, os bichos e as máquinas, ou que língua se fala na Jamaica, ou que o Hindenburg era recheado de hidrogênio, ou que enxofre no combustível causa chuva ácida, ou que Cervantes foi quem escreveu Dom Quixote, ou sei lá o quê. Não, eu também não sei nada de nada, mas sei aquilo que a escola me ensinou, sei o que vi em todos aqueles livros, e considerava inadmissível que não tivessem aquele mínimo essencial, sem o qual não se vive. Eu também não entendia como era possível que pessoas educadas, pessoas que haviam ido à escola, continuassem dizendo “por causa que” ou “pra mim fazer”.
E foi então, somente então, que entendi que essas pessoas eram os meus colegas já crescidos, e que sua infância havia sido bem diferente da minha. Sim, sou lento. Talvez seja mais apropriado dizer que eu seja iludido.
Esta mensagem é minha pequena homenagem à Bárbara, à Letícia e à pequena notável cuja privacidade prefiro preservar. Continuemos carpindo, minhas caras, que o dia é longo e não vai dar tempo de ler todos os livros.
P.S. Acho que tenho resmungado muito. Belogues são para isso mesmo, para o que chamam de desabafo mas que não passa de resmungo. Só que acho que estou reclamando demais dos outros. Então, vamos fazer o seguinte: qualquer hora eu venho aqui e conto o que aprendi recentemente sobre os celtas. É muito mais interessante.
Às vezes eu ia brincar na casa dos amigos, ou ia a festas de aniversário -- vocês conhecem o esquema. Acontece que eu estudava em um colégio onde todos os garotos provinham de famílias mais ricas do que a minha. Então, ao entrar na casa deles, eu via uma enorme oportunidade: se eu tinha tantos livros, e se os pais deles eram tão mais ricos do que o meu, eu imaginava que eles tivessem inúmeros livros, todos enormes, ilustrados, sobre todo tipo de assunto, quiçá em outras línguas. Livros importados, caríssimos, livros que meu pai não podia pagar e que eu, compreensivo, nem lhe pedia, mas cobiçava nas livrarias. Eu tinha que explorar essas bibliotecas domésticas, absorver quanto pudesse, admirar e apreciar. Para mim, essa era a parte mais valiosa das visitas, muito mais do que os carrinhos ou o vidiuguêime. Por isso, eu sempre pedia para ver os livros deles.
Meus anfitriões sempre tinham a mesma reação. Primeiro, estranhavam: “livros?” Depois, querendo receber-me tão bem, faziam o melhor que podiam: levavam-me até seu quarto, onde, sobre uma prateleira no canto, eu encontrava exatamente os mesmos livros que já conhecia da escola. Os mesmos livros de Português e Matemática, os mesmos paradidáticos daquele ano. Com sorte, os do ano anterior ainda estavam lá, e um ou dois que a escola não tivesse exigido mas que, muitas vezes, eu também tinha. Naturalmente, meus colegas ficavam intrigados: por que eu quereria ver os livros deles, se os meus eram os mesmos?
Não menos naturalmente, eu ficava decepcionado e perplexo. Como criança tem pouco tato, perguntava, só esses? A isso, vários respondiam ainda mais intrigados mas com a mesma boa vontade: coçavam a cabeça, meio perdidos, e comentavam, “é... eu acho que o meu pai tem uns livros aí”. Muitas vezes, os apartamentos tinham uma pequena biblioteca, aonde me levavam: sisudos livros de Medicina ou Direito e coleções de clássicos da Literatura. Em outras ocasiões, levavam-me ao quarto de empregada, onde uma prateleira, fora de alcance, abrigava empoeiradas enciclopédias de capa monótona no lugar mais distante da luz possível. Ou onde os livros estavam disciplinadamente arrumados em caixas de papelão, prontos para a próxima mudança da família.
Isso me dava uma frustração danada. E também me intrigava muito: como podiam não ter livros? Era só isso mesmo? Será que não estavam escondendo nada de mim, julgando que eu fosse destruir seus pertences? Mas eu tratava os livros alheios como relíquias de culto, jamais seria capaz de profaná-los...
Além disso, os livros de meus colegas estavam sempre em perfeito estado. As bordas não tinham qualquer amassado, as capas nenhum risco, os cantos das páginas não estavam virados pelo uso. Você poderia jurar que os livros estavam tão intocados como se estivessem na livraria, a ponto de as folhas ainda guardarem aquela compactação que só é possível quando nunca foram abertas. Quando eu abria os livros colados, as lombadas chegavam a estalar, indicando que eu era o primeiro leitor a desvirginá-los, o que me dava o ambíguo sentimento de estar invadindo território alheio, ainda que com permissão.
Já os meus livros, você pode imaginar, eram o oposto disso: amassados, com as pontas viradas para cima, as lombadas cheias daquelas rugas de abertura freqüente, com ocasionais manchas de meus dedos sujos de caramelo. Aviões de guerra número 34 ainda tem a mancha de meu sangue deixada por um mosquito infeliz, colhido por distração minha. Então, eu ficava me sentindo culpado, achando que não tratava meus livros tão bem quanto meus colegas. Pois veja -- dizia-me --, veja como conseguem ler todos e ainda guardá-los tão bem a ponto de as folhas se colarem novamente.
Mal sabia eu, não é mesmo? Foi só após a maioridade que me dei conta da verdade, ao me deparar com pessoas normais e descobrir que ninguém sabia *nada* sobre os romanos e egípcios, os bichos e as máquinas, ou que língua se fala na Jamaica, ou que o Hindenburg era recheado de hidrogênio, ou que enxofre no combustível causa chuva ácida, ou que Cervantes foi quem escreveu Dom Quixote, ou sei lá o quê. Não, eu também não sei nada de nada, mas sei aquilo que a escola me ensinou, sei o que vi em todos aqueles livros, e considerava inadmissível que não tivessem aquele mínimo essencial, sem o qual não se vive. Eu também não entendia como era possível que pessoas educadas, pessoas que haviam ido à escola, continuassem dizendo “por causa que” ou “pra mim fazer”.
E foi então, somente então, que entendi que essas pessoas eram os meus colegas já crescidos, e que sua infância havia sido bem diferente da minha. Sim, sou lento. Talvez seja mais apropriado dizer que eu seja iludido.
Esta mensagem é minha pequena homenagem à Bárbara, à Letícia e à pequena notável cuja privacidade prefiro preservar. Continuemos carpindo, minhas caras, que o dia é longo e não vai dar tempo de ler todos os livros.
P.S. Acho que tenho resmungado muito. Belogues são para isso mesmo, para o que chamam de desabafo mas que não passa de resmungo. Só que acho que estou reclamando demais dos outros. Então, vamos fazer o seguinte: qualquer hora eu venho aqui e conto o que aprendi recentemente sobre os celtas. É muito mais interessante.
Alforria
No último dia 11, estive no palácio Duque de Caxias, ao lado da Central do Brasil (a mesma do filme com a Arlette de Cascadura). Fui, pela última vez, cumprir com meu cívico dever militar.
Muita gente não sabe, mas todo brasileiro que já serviu tem que, nos cinco anos após sua baixa, procurar a sede da Região Militar e se apresentar, dizer que está vivo e onde mora. Esse foi meu quinto ano.
Pois bem. Pela terceira vez consecutiva (teve dois anos em que faltei por não conhecer a lei, mas paguei a multa e estou regular), o sargento que me atendeu perguntou se eu servi mesmo. Pelo terceiro ano, pediu-me para preencher a ficha que já deveriam ter pronta. Pela terceira vez, disse que o quartel onde servi não lhes comunicou nada. Pela terceira vez, disse que vão ter que mandar um ofício para lá.
Aliás, é engraçado. Se, nos dois anos anteriores, eu preenchi aquela fichinha, pergunto onde é que a enfiam para eu sempre ter que preencher tudo de novo. Veja bem, não estou dizendo que os militares sejam mais desorganizados do que a média das pessoas. São apenas tão organizados quanto a média das pessoas; faça você as contas para ver quanto é isso.
Nos minutos em que eu preenchi a ficha, percebi que o chefe do setor era um coronel. Isso foi um tremendo apigreide, porque, nos dois anos anteriores, era um segundo-tenente. Aí você fica pensando, ou é falta de pessoal ou é excesso. Mas patético mesmo foi ver que ele estava tão ocupado com o que fazia que, quando entrou um soldado para consertar o condicionador de ar, o Sr. Coronel se agarrou à oportunidade de quebrar o tédio. Ficou concentradíssimo no ofício do visitante e logo disparou: "é a ventoinha, né?" (Alguém por favor explique a ele que condicionador de ar não tem ventoinha. Tem ventilador, mas ventoinha não.)
Essas duas situações lembram-me a carta que recebi há um ano ou dois. Um outro coronel enviou-me uma pesquisa pelo correio. O Exército estava preocupado com a evasão de seus engenheiros e ele me perguntava o porquê de minha saída. Só que a carta vinha num envelope datado de 7 DE DEZEMBRO (aliás a date that will live in infamy), pedindo-me para responder até 4 DE DEZEMBRO. Como eu ainda não aprendi a pilotar DeLoreans com capacitores de fluxo, respondi por email dizendo, em síntese, o seguinte: sua carta é um perfeito exemplo de por que saí, e não é necessário explicar mais nada.
Você acredita que o cara me escreveu de volta pedindo desculpas e insistindo para que eu respondesse? Mas agora só volto quando o Brasil entrar em guerra com a Argentina.
Muita gente não sabe, mas todo brasileiro que já serviu tem que, nos cinco anos após sua baixa, procurar a sede da Região Militar e se apresentar, dizer que está vivo e onde mora. Esse foi meu quinto ano.
Pois bem. Pela terceira vez consecutiva (teve dois anos em que faltei por não conhecer a lei, mas paguei a multa e estou regular), o sargento que me atendeu perguntou se eu servi mesmo. Pelo terceiro ano, pediu-me para preencher a ficha que já deveriam ter pronta. Pela terceira vez, disse que o quartel onde servi não lhes comunicou nada. Pela terceira vez, disse que vão ter que mandar um ofício para lá.
Aliás, é engraçado. Se, nos dois anos anteriores, eu preenchi aquela fichinha, pergunto onde é que a enfiam para eu sempre ter que preencher tudo de novo. Veja bem, não estou dizendo que os militares sejam mais desorganizados do que a média das pessoas. São apenas tão organizados quanto a média das pessoas; faça você as contas para ver quanto é isso.
Nos minutos em que eu preenchi a ficha, percebi que o chefe do setor era um coronel. Isso foi um tremendo apigreide, porque, nos dois anos anteriores, era um segundo-tenente. Aí você fica pensando, ou é falta de pessoal ou é excesso. Mas patético mesmo foi ver que ele estava tão ocupado com o que fazia que, quando entrou um soldado para consertar o condicionador de ar, o Sr. Coronel se agarrou à oportunidade de quebrar o tédio. Ficou concentradíssimo no ofício do visitante e logo disparou: "é a ventoinha, né?" (Alguém por favor explique a ele que condicionador de ar não tem ventoinha. Tem ventilador, mas ventoinha não.)
Essas duas situações lembram-me a carta que recebi há um ano ou dois. Um outro coronel enviou-me uma pesquisa pelo correio. O Exército estava preocupado com a evasão de seus engenheiros e ele me perguntava o porquê de minha saída. Só que a carta vinha num envelope datado de 7 DE DEZEMBRO (aliás a date that will live in infamy), pedindo-me para responder até 4 DE DEZEMBRO. Como eu ainda não aprendi a pilotar DeLoreans com capacitores de fluxo, respondi por email dizendo, em síntese, o seguinte: sua carta é um perfeito exemplo de por que saí, e não é necessário explicar mais nada.
Você acredita que o cara me escreveu de volta pedindo desculpas e insistindo para que eu respondesse? Mas agora só volto quando o Brasil entrar em guerra com a Argentina.
18 dezembro 2007
Interrupção nos serviços do jornal
O jornal O Globo On de hoje, terça, 18/07, traz notícia de uma interrupção nos serviços do Metrô Rio.
Primeiro, diz que os trens que vinham de outros pontos, como PRAÇA XV, também foram afetados. Ora, não há estação do metrô na praça XV. Há, isto sim, na Praça Onze. Roga-se ao jornal que verifique se ao menos faz sentido o que diz. Correção é fundamental para a credibilidade.
Depois, diz que os passageiros que passaram mal foram atendidos no hospital Souza Aguiar. "Todos já foram liberados e passam bem, garantiu a concessionária."
Que raio de jornalismo conformista é esse que simplesmente repete o que diz a parte mais interessada em mentir? Não estou dizendo que o Metrô mentiu, mas que o autodenominado jornalista não foi atrás dos fatos nem foi ouvir o outro lado. Limitou-se a reproduzir as declarações do Metrô, sem verificá-las. Foi para isso que estudou durante quatro anos? É esse o papel social do jornalista?
Alguns jornalistas gostam de divulgar a importância de sua atuação contra os abusos do Poder Público. Gostam de se arrogar em fiscais da sociedade. Quis custodies ipsos custodes? De onde vejo, quem escreveu a matéria está longe de honrar essa tradição.
Primeiro, diz que os trens que vinham de outros pontos, como PRAÇA XV, também foram afetados. Ora, não há estação do metrô na praça XV. Há, isto sim, na Praça Onze. Roga-se ao jornal que verifique se ao menos faz sentido o que diz. Correção é fundamental para a credibilidade.
Depois, diz que os passageiros que passaram mal foram atendidos no hospital Souza Aguiar. "Todos já foram liberados e passam bem, garantiu a concessionária."
Que raio de jornalismo conformista é esse que simplesmente repete o que diz a parte mais interessada em mentir? Não estou dizendo que o Metrô mentiu, mas que o autodenominado jornalista não foi atrás dos fatos nem foi ouvir o outro lado. Limitou-se a reproduzir as declarações do Metrô, sem verificá-las. Foi para isso que estudou durante quatro anos? É esse o papel social do jornalista?
Alguns jornalistas gostam de divulgar a importância de sua atuação contra os abusos do Poder Público. Gostam de se arrogar em fiscais da sociedade. Quis custodies ipsos custodes? De onde vejo, quem escreveu a matéria está longe de honrar essa tradição.
17 dezembro 2007
Refrão de hoje
Eu não agüento mais ouvir, mas ainda vou ter que ouvir muito. Repitam comigo.
"Prezado, Cliente [neste caso, a vírgula foi inevitável; parece que faz parte do discurso falado mesmo]:
"O M.R. destina carros especiais para às mulheres. Nos dias úteis, entre seis e nove horas da manhã, e entre cinco da tarde e oito da noite. [Desculpem, mas a crase e a pontuação são essas mesmas, por mais erradas que sejam. Quem escuta sabe.]
"Respeitar a lei, é uma questão, dE cIdadania. Carro das mulheres: respeito é bom, e elas merecem."
Tem outra:
"Prezado, Cliente,
"Os bancos de cor laranja, são preferenciais, para idosos, gestantes, pessoas com crianças de colo e pessoas, com necessidades, Especiais. CEDA o lugar. M.R.: a qualidade de vida, ANDA, aqui."
Omiti alguma coisa? Não sei, já ouvi tanto, acho que decorei. A parte mais difícil é reproduzir a pontuação, tão sutil e tão errada. Mas acho que consegui.
"Prezado, Cliente [neste caso, a vírgula foi inevitável; parece que faz parte do discurso falado mesmo]:
"O M.R. destina carros especiais para às mulheres. Nos dias úteis, entre seis e nove horas da manhã, e entre cinco da tarde e oito da noite. [Desculpem, mas a crase e a pontuação são essas mesmas, por mais erradas que sejam. Quem escuta sabe.]
"Respeitar a lei, é uma questão, dE cIdadania. Carro das mulheres: respeito é bom, e elas merecem."
Tem outra:
"Prezado, Cliente,
"Os bancos de cor laranja, são preferenciais, para idosos, gestantes, pessoas com crianças de colo e pessoas, com necessidades, Especiais. CEDA o lugar. M.R.: a qualidade de vida, ANDA, aqui."
Omiti alguma coisa? Não sei, já ouvi tanto, acho que decorei. A parte mais difícil é reproduzir a pontuação, tão sutil e tão errada. Mas acho que consegui.
16 dezembro 2007
Horizontes
Quando eu era miúdo nos anos 70, havia um comercial da A Camélia Flores na televisão. A voz do locutor era acompanhada de uma peça musical em violão.
Anos depois, tornei-me apreciador e conhecedor da obra do Genesis. Um dos álbuns da banda é Foxtrot, de 1972, que traz uma faixa de 1 minuto e 21 chamada Horizons. Trata-se de um belíssimo solo de violão, composto e desempenhado pelo guitarrista Steve Hackett.
Alguns anos depois disso, não sei o que foi que me despertou a percepção de que a música no antigo comercial fosse justamente Horizons. Infelizmente, já não tenho como confirmar isso. Buscas no Google foram òbviamente infrutíferas.
Se alguém tiver conhecimento ou, pelo menos, a mesma impressão, por favor me comunique. Eu gostaria muito de ter definitiva certeza, mesmo que isso não tivesse nenhuma utilidade.
Anos depois, tornei-me apreciador e conhecedor da obra do Genesis. Um dos álbuns da banda é Foxtrot, de 1972, que traz uma faixa de 1 minuto e 21 chamada Horizons. Trata-se de um belíssimo solo de violão, composto e desempenhado pelo guitarrista Steve Hackett.
Alguns anos depois disso, não sei o que foi que me despertou a percepção de que a música no antigo comercial fosse justamente Horizons. Infelizmente, já não tenho como confirmar isso. Buscas no Google foram òbviamente infrutíferas.
Se alguém tiver conhecimento ou, pelo menos, a mesma impressão, por favor me comunique. Eu gostaria muito de ter definitiva certeza, mesmo que isso não tivesse nenhuma utilidade.
07 dezembro 2007
Má companhia
Hoje de manhã, a moça do telejornal leu uma notícia que começava mais ou menos do seguinte modo: "o diretor da companhia, Michael Hayden, informou ter dado ordem para destruir fitas de vídeo gravadas em 2002. O serviço secreto mais famoso do mundo havia gravado fitas sobre dois importantes suspeitos de terrorismo. A revelação foi feita aos funcionários da companhia nessa quinta-feira".
Aí você pergunta: "companhia"? Qual companhia?
Montando o quebra-cabeça, você percebe que a moça mencionou o "serviço secreto mais famoso do mundo", que é a CIA.
Outro dia, comentei o despreparo irresponsável de alguns autodenominados jornalistas brasileiros. Agora, soma-se a isso um resultado, digamos, inadequado na leitura de um reles teleprompter. Até que eu acharia engraçado e, no meu caso, a notícia não deixou de ser dada, mas observe que o objetivo não foi atingido. Tenho certeza de que muita gente não entendeu e, portanto, a notícia não foi dada.
Aí você pergunta: "companhia"? Qual companhia?
Montando o quebra-cabeça, você percebe que a moça mencionou o "serviço secreto mais famoso do mundo", que é a CIA.
Outro dia, comentei o despreparo irresponsável de alguns autodenominados jornalistas brasileiros. Agora, soma-se a isso um resultado, digamos, inadequado na leitura de um reles teleprompter. Até que eu acharia engraçado e, no meu caso, a notícia não deixou de ser dada, mas observe que o objetivo não foi atingido. Tenho certeza de que muita gente não entendeu e, portanto, a notícia não foi dada.
26 novembro 2007
Então acho que a guerra durou muito
Hoje cedo, o telejornal mostrava um evento que aconteceu ontem no Museu Aeroespacial do Campo dos Afonsos: a comemoração dos cem anos do Demoiselle, que foi o segundo avião de Santos-Dumont e o primeiro do mundo com a configuração que os aviões têm hoje (motor na frente, controles na cauda).
Mostraram aviões da FAB: C-130, Xavante, AMX, F-5. Aí, mostraram um Cessna 185 todo camuflado, prefixo PR-IAB, dizendo que era um avião que a FAB havia usado na II Guerra Mundial.
Aí. Certos jornalistas são MUITO ignorantes. O Cessna 185 é um avião dos anos 60. Que eu saiba, nossa Força Aérea nunca o usou. O avião estacionado no MUSAL era um avião civil (como se vê do registro) cuja camuflagem NEM SEQUER estava em qualquer estilo que o Brasil algum dia tenha usado. É verdade que o avião porta a bolacha do 1o. Grupo de Aviação de Caça, mas todos os aviões do 1o./1o. Grupo usam essa bolacha há sessenta anos. Portanto, não há NADA no avião que dê a entender que date dos anos 40.
O jornalista não é obrigado a saber nada disso. Mas também não pode, por sua iniciativa, "achar" que é um avião da época da Guerra e, sem procurar confirmação, jogar isso na reportagem. Se você não sabe, pelo menos NÃO INVENTA! ACHISMO NÃO É JORNALISMO.
Fotógrafo: Wesley Minuano, arrow4t arroba yahoo.com.
Título: Cessna A185F Skywagon 185, PR-IAB. (04/10/2006)
http://www.aviacaopaulista.com/aeroporto_de_atibaia/041006_8.htm
Mostraram aviões da FAB: C-130, Xavante, AMX, F-5. Aí, mostraram um Cessna 185 todo camuflado, prefixo PR-IAB, dizendo que era um avião que a FAB havia usado na II Guerra Mundial.
Aí. Certos jornalistas são MUITO ignorantes. O Cessna 185 é um avião dos anos 60. Que eu saiba, nossa Força Aérea nunca o usou. O avião estacionado no MUSAL era um avião civil (como se vê do registro) cuja camuflagem NEM SEQUER estava em qualquer estilo que o Brasil algum dia tenha usado. É verdade que o avião porta a bolacha do 1o. Grupo de Aviação de Caça, mas todos os aviões do 1o./1o. Grupo usam essa bolacha há sessenta anos. Portanto, não há NADA no avião que dê a entender que date dos anos 40.
O jornalista não é obrigado a saber nada disso. Mas também não pode, por sua iniciativa, "achar" que é um avião da época da Guerra e, sem procurar confirmação, jogar isso na reportagem. Se você não sabe, pelo menos NÃO INVENTA! ACHISMO NÃO É JORNALISMO.
Fotógrafo: Wesley Minuano, arrow4t arroba yahoo.com.Título: Cessna A185F Skywagon 185, PR-IAB. (04/10/2006)
http://www.aviacaopaulista.com/aeroporto_de_atibaia/041006_8.htm
23 novembro 2007
Obiter dictum
Preciso dividir um pensamento com você sobre a evolução recente do sistema de controle de constitucionalidade brasileiro.
A meu ver, o sistema começou errado ao copiar o sistema americano, de controle difuso. Não por ser o americano, mas por ser cópia.
De todo modo, o sistema americano confere autonomia a cada juiz, para que declare a inconstitucionalidade de uma lei ao ser aplicada a um caso concreto. Após uma tal declaração de inconstitucionalidade, a lei continua em vigor para a sociedade como um todo, mas vê-se que é inaplicável ao caso que foi trazido ao juiz. Isso destoa da tradição latino-portuguesa brasileira, onde os órgãos centrais chamam a si todo o poder de decidir e a periferia não tem nenhuma autonomia.
Era assim até 1965, quando surgiu a representação de inconstitucionalidade, que segue o sistema austríaco, de controle concentrado, e difere radicalmente do que se faz no sistema americano. A representação de inconstitucionalidade evoluiu, transformou-se na ação direta de inconstitucionalidade (a famosa ADIn) em 1988 e, hoje, a ADIn é um instrumento cada vez mais comum com o qual se atacam leis nacionais, federais e estaduais perante o Supremo Tribunal Federal. Com a ADIn, o STF é o único órgão que pode pronunciar-se sobre a constitucionalidade de uma lei e, desde o momento em que a declara inconstitucional, é como se a lei não existisse mais. Para ninguém.
Em teoria, os dois sistemas coexistem no Direito brasileiro (embora esteja claro que o controle difuso de determinada lei só vale enquanto não acontece seu eventual controle concentrado). Acontece que venho reparando em uma coisa: cada vez mais o STF se manifesta no sentido de que o resultado de seu julgamento difuso também se aplica a este ou aquele outro caso. Ou seja, transborda para fora do caso que deveria ser o único onde acontecesse o controle. Nos últimos meses, têm sido ajuizadas reclamações
(Pausa. Reclamação é uma ação onde a parte pede ao STF que faça valer uma decisão anterior sua que alguém está descumprindo.)
... reclamações onde se diz que alguém está desobedecendo a decisões do Supremo sobre a inconstitucionalidade de determinadas leis havidas em controle difuso, onde as partes eram outras. Você dirá: ué, beleza. A decisão só valia naquele caso mesmo, não tinha nada a ver com estas partes aqui. Em cada reclamação destas que estou comentando, a lei nunca foi objeto de controle concentrado, nem há decisão alguma que já tenha havido e que esteja sendo descumprida.
Só que o Supremo, todas as vezes, vem decidindo assim: aquilo que eu disse lá também vale aqui, e este aqui está, sim, descumprindo minha decisão. Na teoria do Direito brasileiro, só o que vale, mesmo, é o dispositivo da decisão (ou seja, a parte final, onde o juiz conclui concedendo ou não concedendo o que se pede), mas o STF tem dito que a fundamentação da decisão também vale, não só contra as partes, mas contra todo o mundo. É o que se chama de teoria da transcendência dos motivos determinantes: os motivos que fundamentam a decisão transcendem aquele caso e espalham-se sobre todas as pessoas. Ou, em outras palavras, o pensamento do Tribunal já te vincula, mesmo que você não tenha participado da discussão original.
Assim, o controle difuso está, cada vez mais, tornando-se em controle concentrado. Mais: estamos descobrindo que as decisões dadas em controle difuso, na verdade, valem como se fossem dadas em controle concentrado. Portanto, está deixando de haver controle difuso, e todos os casos de controle são de controle concentrado.
Eu, particularmente, não tenho nada contra. Só lembro que os casos de controle concentrado estão previstos na Constituição e são poucas as pessoas que podem mover ADIn, mas admito que o controle concentrado tem as enormes vantagens de diminuir a carga de trabalho do Supremo (com isso o tornando mais ágil) e de dar mais segurança a todos para saberem como o Tribunal pensa e se determinada lei é ou não constitucional.
Além disso, o controle concentrado tem mais a ver com nossa tradição centralizadora e segue a prática alemã. Assim, os ministros têm julgado conforme se faz na Alemanha, onde, de todo modo, já julgam estar faz tempo.
Para referência: Informativos STF #458 (onde sugiro procurar sobre a reclamação 4219), #463 (idem reclamação 4335) e #474 (reclamação 2475), todos de 2007 e disponíveis em http://www.stf.gov.br/.
P.S.: você já reparou? Nenhum advogado, juiz, procurador, professor de Direito etc. pronuncia "constitucional" nem suas derivadas. É sempre "cons'nal", "consional", "constcional" etc.
A meu ver, o sistema começou errado ao copiar o sistema americano, de controle difuso. Não por ser o americano, mas por ser cópia.
De todo modo, o sistema americano confere autonomia a cada juiz, para que declare a inconstitucionalidade de uma lei ao ser aplicada a um caso concreto. Após uma tal declaração de inconstitucionalidade, a lei continua em vigor para a sociedade como um todo, mas vê-se que é inaplicável ao caso que foi trazido ao juiz. Isso destoa da tradição latino-portuguesa brasileira, onde os órgãos centrais chamam a si todo o poder de decidir e a periferia não tem nenhuma autonomia.
Era assim até 1965, quando surgiu a representação de inconstitucionalidade, que segue o sistema austríaco, de controle concentrado, e difere radicalmente do que se faz no sistema americano. A representação de inconstitucionalidade evoluiu, transformou-se na ação direta de inconstitucionalidade (a famosa ADIn) em 1988 e, hoje, a ADIn é um instrumento cada vez mais comum com o qual se atacam leis nacionais, federais e estaduais perante o Supremo Tribunal Federal. Com a ADIn, o STF é o único órgão que pode pronunciar-se sobre a constitucionalidade de uma lei e, desde o momento em que a declara inconstitucional, é como se a lei não existisse mais. Para ninguém.
Em teoria, os dois sistemas coexistem no Direito brasileiro (embora esteja claro que o controle difuso de determinada lei só vale enquanto não acontece seu eventual controle concentrado). Acontece que venho reparando em uma coisa: cada vez mais o STF se manifesta no sentido de que o resultado de seu julgamento difuso também se aplica a este ou aquele outro caso. Ou seja, transborda para fora do caso que deveria ser o único onde acontecesse o controle. Nos últimos meses, têm sido ajuizadas reclamações
(Pausa. Reclamação é uma ação onde a parte pede ao STF que faça valer uma decisão anterior sua que alguém está descumprindo.)
... reclamações onde se diz que alguém está desobedecendo a decisões do Supremo sobre a inconstitucionalidade de determinadas leis havidas em controle difuso, onde as partes eram outras. Você dirá: ué, beleza. A decisão só valia naquele caso mesmo, não tinha nada a ver com estas partes aqui. Em cada reclamação destas que estou comentando, a lei nunca foi objeto de controle concentrado, nem há decisão alguma que já tenha havido e que esteja sendo descumprida.
Só que o Supremo, todas as vezes, vem decidindo assim: aquilo que eu disse lá também vale aqui, e este aqui está, sim, descumprindo minha decisão. Na teoria do Direito brasileiro, só o que vale, mesmo, é o dispositivo da decisão (ou seja, a parte final, onde o juiz conclui concedendo ou não concedendo o que se pede), mas o STF tem dito que a fundamentação da decisão também vale, não só contra as partes, mas contra todo o mundo. É o que se chama de teoria da transcendência dos motivos determinantes: os motivos que fundamentam a decisão transcendem aquele caso e espalham-se sobre todas as pessoas. Ou, em outras palavras, o pensamento do Tribunal já te vincula, mesmo que você não tenha participado da discussão original.
Assim, o controle difuso está, cada vez mais, tornando-se em controle concentrado. Mais: estamos descobrindo que as decisões dadas em controle difuso, na verdade, valem como se fossem dadas em controle concentrado. Portanto, está deixando de haver controle difuso, e todos os casos de controle são de controle concentrado.
Eu, particularmente, não tenho nada contra. Só lembro que os casos de controle concentrado estão previstos na Constituição e são poucas as pessoas que podem mover ADIn, mas admito que o controle concentrado tem as enormes vantagens de diminuir a carga de trabalho do Supremo (com isso o tornando mais ágil) e de dar mais segurança a todos para saberem como o Tribunal pensa e se determinada lei é ou não constitucional.
Além disso, o controle concentrado tem mais a ver com nossa tradição centralizadora e segue a prática alemã. Assim, os ministros têm julgado conforme se faz na Alemanha, onde, de todo modo, já julgam estar faz tempo.
Para referência: Informativos STF #458 (onde sugiro procurar sobre a reclamação 4219), #463 (idem reclamação 4335) e #474 (reclamação 2475), todos de 2007 e disponíveis em http://www.stf.gov.br/.
P.S.: você já reparou? Nenhum advogado, juiz, procurador, professor de Direito etc. pronuncia "constitucional" nem suas derivadas. É sempre "cons'nal", "consional", "constcional" etc.
21 outubro 2007
Atoz, o profeta II
Eu em 30 de janeiro: http://sratoz.blogspot.com/2007/01/atoz-o-profeta.html
Notícia da semana passada: Incêndio atinge prédio da Uerj na zona norte do Rio.
ATENÇÃO: PARA LER MINHAS DUAS CRÔNICAS DE HOJE SOBRE QUADRINHOS DA DC, POR FAVOR CONTINUE LENDO ABAIXO. OBRIGADO.
Notícia da semana passada: Incêndio atinge prédio da Uerj na zona norte do Rio.
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